 

Ttulo: Um pedido de casamento
Autor: Laurie Paige 
Ttulo original:  An Unexpected Delivery
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997
Publicao original: 1996
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao e correo: Nina
Estado da Obra: Corrigida

Um beb forte e saudvel!
Stacy Gardenas ia dar  luz a qualquer instante! E estava isolada pela neve no chal de seu patro nas montanhas, sem um hospital, ou futuro marido, por perto. Isso significava que o bonito e taciturno advogado Gareth Clelland no tinha outra opo a no ser fazer o parto ele mesmo, quer gostasse ou no!
Mas quem seria o pai?
Com um recm-nascido nos braos e cercado de fraldas por todos os lados, Gareth j no parecia to intimidador como de costume. Stacy sabia que ele no era o tipo de homem que cantaria cantigas de ninar ou falaria na linguagem tatibitate dos bebs, porm, o parto inesperado o obrigara a agir como um pai orgulhoso. E isso a fazia ter esperanas de ouvir um inesperado pedido de casamento!

CAPITULO I

	Sim, claro, pode deixar que eu cuido de tudo  Stacy Gardenas respondeu ao telefone, enquanto terminava de escrever, num bloco de notas, as instrues do chefe sobre o caminho at seu chal nas montanhas.
	Repita o que eu lhe disse  ele ordenou.
	Pegue a Rodovia 66 na direo oeste at a 81. Siga para o norte at a primeira sada. De l, v em frente at a segunda sada, que  a da estrada Pine Valley. Quatro quilmetros adiante, haver uma alameda pavimentada do lado esquerdo. E l.
	Correto. Diga ao portador para prestar ateno para no passar a entrada. E meio escondida. A viagem deve durar uma hora e meia. Ligue-me de volta se houver algum problema.
	Cuidarei de tudo assim que desligarmos. 
	Presumo que meu scio j tenha sado faz tempo...
	Stacy sorriu, mas, ao falar, sua voz reassumiu o tom. 
	Sim. Ele ligou para Shirley e disse que no retornaria hoje. O caso foi considerado improcedente.
	Improcedente?  repetiu Gareth Clelland.  Droga!
Ela lhe forneceu os detalhes.
	Suponho que ele no venha trabalhar amanh tambm.  A voz grave vibrou, como o murmrio baixo de um ceio em uma melodia de Mozart. Era uma voz calma, segura e controlada, como o prprio dono.
	Amanh  sexta-feira  Stacy respondeu.  E segunda  feriado.
	Droga! Havia me esquecido!  Fez-se um breve silncio.  Voc tambm pode ir embora depois que o portador pegar a pasta. E tire o dia de folga amanh. Shirley pode anotar os recados telefnicos.
	Est bem. Obrigada pela folga.  Ela aguardou por mais instrues com o lpis preparado. Gareth no gostava de ter de repetir o que dizia.
	Isso  tudo. Agora  uma e meia da tarde. Espero que a pasta chegue at as trs horas.
Ela olhou o relgio de pulso e adiantou-o em cinco minutos, a fim de acert-lo com o do patro.
	Tratarei disso imediatamente.
	timo. Vejo-a na tera-feira.
	Tenha um bom final de semana  disse, antes que ele desligasse.
Talvez fosse pura perda de tempo, mas Stacy insistia em introduzir pequenas gentilezas em suas conversas. Seu patro era taciturno e economizava palavras. Dava bom-dia de manh, boa-noite ao ir embora e acrescentava muito pouco entre uma frase e outra. E]a se encarregava da conversa.
Gareth hesitou antes de responder:
	Obrigado. Voc tambm.
A linha telefnica emitiu um som caracterstico, mostrando a Stacy que ele havia desligado. Ela sorriu. As pequenas gentilezas sempre o pegavam de surpresa e pareciam desconcert-lo. Ora, ele bem que precisava relaxar um pouco de vez em quando. Afinal, sua vida era s trabalho e nenhuma diverso.
Stacy, ento, ligou para uma empresa especializada e solicitou um portador. Depois telefonou para outra. E mais outra. Estavam todas com a agenda lotada.
	Todos os departamentos do governo aqui.em Washington parecem estar querendo limpar a mesa de trabalho antes do feriado  explicou o funcionrio de uma das empresas de entrega.
Ela recolocou o fone no gancho e alongou os msculos doloridos das costas. Vinha sentindo essas dores desde o instante em que se levantara da cama, nesse dia. Provavelmente, havia dormido de mau jeito. Ou talvez fosse o fato de estar entrando no ltimo ms de gravidez.
Levantando-se, caminhou at a sala de Gare th e destrancou o arquivo. A pasta permanecia no lugar, exatamente onde ela a colocara no dia anterior. Stacy estranhou. Seu chefe raramente esquecia alguma coisa.
Aps pegar os outros papis de que ele precisava, tornou a trancar o arquivo e a girar o cilindro com a combinao numrica. Em seguida, voltou  prpria sala e ligou para mais trs empresas que prestam servios de entrega, antes de desistir.
Ela avaliou a situao. Poderia levar a pasta pessoalmente, j que no tinha nenhum compromisso. Alm do mais, adorava dirigir no campo e, nesse dia, estava especialmente inquieta.
Pegando o casaco, a bolsa e a pasta, Stacy dirigiu-se  sala da secretria, a fim de inform-la da mudana de planos.
	Gareth no vai gostar  Shirley alertou-a.
A dvida aumentou-lhe o desconforto. Nunca ouvira falar que Gareth tivesse convidado algum para ir a seu chal, no vale Shenandoah.
	Bem, ele que me despea.  Stacy deu de ombros.
Sabia que o patro no faria isso. Gareth podia no gostar do fato de ela estar grvida, mas no tomaria nenhuma atitude que a prejudicasse. Sabia como as coisas estavam difceis.
	Hei, espere!  chamou a secretria. Acabei de ouvir no rdio que uma tempestade est se aproximando. O locutor disse que ser a pior deste inverno.
	Eu ouvi as notcias do meio-dia. A tempestade dever ser mais para o norte. Aqui s teremos temperaturas bem baixas  noite ou amanh cedo. Ficarei bem. Vou direto para l e volto depressa para casa. Alm disso, estou com a picape.  E, acenando, deixou o escritrio.
A picape vermelha, com trao nas quatro rodas, havia sido a alegria e o orgulho de seu marido.
Enquanto esperava que o elevador a levasse at a garagem do tranqilo edifcio comercial, s margens do rio Potomac, em Arlington, Virgnia, Stacy pensou em Bill. Fazia um ano que ele comprara a picape. Oito meses atrs, Bill fora promovido a detetive do Esquadro Antidrogas, e comemoraram o evento com champanhe e muita paixo,  luz de velas. E havia oito meses e trs dias que ele fora morto durante o cerco a um traficante. Seis anos de casamento terminados num estalar de dedos.
s vezes, ela imaginava quanto tempo mais o relacionamento dos dois duraria se ele ainda estivesse vivo. Bill iluminara a vida de Stacy, aps a morte do pai dela, atraindo-a com sua personalidade radiante. Porm, uma pessoa necessita mais do que isso no dia-a-dia. Um casamento precisa de uma chama duradoura, que brilhe durante os altos e baixos da vida diria. Ela tentara dar o equilbrio necessrio ao relacionamento, mas tivera muitas dificuldades. O marido zombava dela, achava suas preocupaes exageradas. Ele gostava de emoes fortes, de correr riscos. E, um dia, arriscara-se alm dos limites.
Stacy colocou a mo sobre o abdmen. No haviam planejado filhos. Ficara surpresa quando descobrira que uma nova vida crescia dentro dela. Surpresa, feliz e com medo tambm. Estava sozinha lio mundo, sem parentes para ajud-la. E um beb era uma enorme responsabilidade...
O elevador parou. O ar frio da garagem atingiu-a em cheio. Ela fechou melhor o casaco em volta do pescoo e caminhou at a picape.
Stacy ligou o veculo, saiu da garagem e se juntou ao trfego intenso que ia e vinha do Pentgono, localizado logo  frente. Mais alguns minutos e j se encontrava na estrada, a cem quilmetros por hora. Adorava esses passeios tranqilos pela regio.
As montanhas Allegheny, o vale Shenandoah, o rio Rap-pahannock, a trilha Appalachian.
Como nascera no Wyoming, um Estado relativamente novo, ficava encantada por agora viver no local considerado o centro da histria colonial americana. To logo ela e o marido, ento recm-casados, haviam se mudado para l, foram conhecer todos os campos de batalhas famosas, os antigos alojamentos de inverno do simplrio Exrcito de Washington e os lares dos primeiros americanos. Tinham apenas vinte e dois anos, to cheios de sonhos e esperanas...
No pde conter um suspiro. Aos vinte e oito anos, tinha agora muito poucos sonhos para acalentar em seu corao vazio. Os nicos que lhe restavam eram relacionados ao futuro beb.
Uma rajada de vento forte atingiu a picape. Fustigadas, as rvores na beira da estrada jogaram os galhos para frente e para trs, enquanto nuvens pesadas escureciam toda a rea em volta.
Stacy comeou a imaginar se a meteorologia estava certa ao prever que a tempestade no atingiria aquela regio.
Trinta minutos mais tarde, ela descobriu a resposta.
Os primeiros flocos de neve que atingiram o pra-brisa eram grandes e fofos, e chocavam-se contra o vidro silenciosamente. Ela acionou o limpador de pra-brisa na velocidade lenta.
Poucos minutos depois, teve de ajust-lo para que trabalhasse com maior rapidez. Os flocos de neve agora eram menores, porm caam em maior quantidade. Por sorte, o trnsito contnuo de automveis impedia que a neve se acumulasse na estrada.
Tentando relaxar, ligou o rdio, a. fim de ouvir um pouco de msica e, quem sabe, alguma informao sobre o tempo. No havia motivos para se preocupar, era s um pouco de neve. A picape estava em boas condies e devidamente aparelhada com pneus prprios para enfrentar o mau tempo.
Uma hora e vinte minutos depois, Stacy pegou o acesso para a outra estrada e seguiu em direo norte, satisfeita com a boa velocidade que estava conseguindo manter.
Enquanto cantarolava uma cano, ps-se a pensar no que faria com o tempo extra no final de semana. Limparia a casa pela manh e depois terminaria de pintar o bero que havia comprado de segunda mo. J o lixara, retirando toda a pintura antiga, pois no queria nenhum vestgio da tinta velha  base de chumbo, perto de seu beb.
Remexeu-se no banco, tentando encontrar uma posio mais confortvel, mas parecia impossvel.
A sua direita, surgiu uma nova estradinha. timo, essa era a primeira sada, e ela teria de pegar a segunda. Imaginou a que distncia ainda estaria de seu destino.
Dez minutos mais tarde, diminuiu a velocidade e fez a converso  direita. A estrada no era apenas sinuosa, como tambm se encontrava em pssimo estado de conservao. O departamento de estradas precisava repaviment-la com urgncia, antes que os buracos, as plantas rasteiras e as videiras tomassem completamente o asfalto.
Talvez at enviasse uma carta, decidiu aps desviar de mais um buraco e cair em outro, menos visvel. Ela gemeu, sentindo uma pontada aguda nas costas.
Dirigia agora a quinze quilmetros por hora. A estrada subia em curvas fechadas, tornando-se cada vez mais estreita at, finalmente, transformar-se em uma s pista. A essa altura j deveria ter encontrado a alameda pavimentada.
Stacy arriscou uma rpida olhada em suas anotaes. "Quatro quilmetros adiante, haver uma alameda pavimentada do lado esquerdo." Gareth dissera que a entrada era meio escondida. Ficou imaginando o que, exatamente, ele quisera dizer com isso.
Com certeza, j percorrera mais de quatro quilmetros dessa estrada e no vira nem uma entrada  direita ou  esquerda. S podia estar na rodovia errada. Era melhor procurar por um local onde pudesse fazer o retorno.
Demorou pouco para ela descobrir que era mais fcil falar do que fazer. A estrada subia por uma montanha ngreme, e no havia um lugar que Stacy considerasse largo o suficiente para manobrar a picape com segurana. Ela seguiu em frente.
A neve caa intermitente e, aoitada pelo vento forte, rodopiava at juntar-se em pequenos montes nas laterais da estrada. Ser que no havia uma pessoa sequer nessa montanha esquecida por Deus?
Cada vez mais desesperada atrs de um local apropriado para fazer a converso, finalmente optou por uma curva de praticamente noventa graus e parou. Com muito cuidado, encostou o veculo o mais perto possvel da ribanceira, acionou a trao nas quatros rodas e deu marcha a r. Em seguida, foi para a frente, virando a direo o mximo possvel. Depois de trs manobras como essa, Stacy conseguiu fazer a volta.
Ela despiu o casaco e enxugou o suor do rosto. Ento, com um suspiro profundo, soltou o freio e iniciou a descida. A neve cobria completamente o rastro dos pneus, portanto ningum saberia que havia passado por ali e no poderiam procur-la caso se perdesse.
S ento ocorreu-lhe que talvez devesse ter telefonado para Gareth, avisando-o de que levaria os documentos.
Os pneus derraparam numa curva mais fechada. Ela virou a direo com fora na direo oposta, ficando frente a frente com as rvores que contornavam a beira da estrada. Os pneus da picape aderiram novamente. Virando outra vez a direo, reiniciou a curva, rezando para que dessa vez o veculo no derrapasse.
O suor brotava de seus poros e secava em sua face, fazendo-a sentir-se, ao mesmo tempo, pegajosa e com frio. A temperatura caa, e a tempestade estava piorando. Finalmente, chegou ao local onde tinha virado  direita. Stacy deu uma olhada no relgio e gemeu em voz alta. A viagem j durava duas horas, e ainda no chegara a seu destino. Talvez fosse melhor voltar para casa enquanto as estradas ainda estavam em condies de trfego...
Uma dor estranha a atingiu. Comeou como uma pontada na parte baixa da coluna, para em seguida envolv-la por completo. Ela sufocou um grito e colocou a mo sob a barriga. Levou quase um minuto at que a dor passasse. Stacy ficou ali sentada, aturdida. Parecia que algum a havia imobilizado e apertado com fora suas vsceras.
Com as mos trmulas, prosseguiu viagem at que, um quilmetro e meio adiante, foi novamente forada a parar. Freando bruscamente, parou a picape no meio da pista, sem nem ao menos reparar se havia ou no outro carro vindo pela estrada. Pousou a cabea no encosto do banco e abraou o ventre com as mos, enquanto outra contrao a atingia. Dessa vez, no conseguiu conter um gemido. A dor fora mais forte. Stacy sentia-se pesada e sem foras quando, finalmente, tudo terminou.
De uma coisa ela estava certa: precisava encontrar logo o chal. Se as contraes no eram um alarme falso de parto, ento necessitaria de ajuda imediata.
Com esse pensamento em mente, engatou a marcha e seguiu em frente.
Quando estava prestes a ficar desesperada, viu uma placa indicativa: "Pine Valley". Graas a Deus!, pensou.
O chal de Gareth ficava a quatro quilmetros dali. Ela fez a volta, zerou o marcador de quilometragem e dirigiu novamente pela estradinha, aliviada por estar chegando ao fim daquela extenuante viagem.
Alguns minutos mais tarde, deparou-se com uma descida em curva e, consultando o marcador, notou que j havia percorrido a distncia necessria para encontrar a alameda que levava ao chal. Procurou, portanto, a estrada  esquerda.
Gareth dissera a verdade. A entrada era difcil de ser encontrada. A alameda s podia ser vista quando j se estava quase passando por ela. Stacy deu uma guinada para a esquerda e, automaticamente, pisou no freio. Por um segundo, achou que conseguiria. Deveria ter adivinhado. O destino no estava a seu favor. Os pneus de trs foram os primeiros a derrapar. Em seguida, foram os dianteiros. A picape foi escorregando' pela pista at cair numa vala rasa, como se estivesse patinando no gelo. Com um chiado estridente, bateu em um poste telefnico e, por fim, parou.
Stacy no conseguiu se mexer. Uma nova e forte contrao fez com que se agarrasse  direo. Tentou lembrar-se de como deveria respirar, entretanto as instrues simplesmente desapareceram de sua mente. Procurou manter-se firme e esperou que a dor passasse. Um minuto e vinte segundos. No estava um pouco demorado demais para um alarme falso? No podia ser... No podia estar dando  luz um ms antes do esperado, em uma estrada no meio do nada e durante uma tempestade de neve. Isso no podia estar acontecendo!
Ela tirou o p do freio e acelerou bem devagar. O veculo deu um pequeno tranco, mas no saiu do lugar. Stacy mordeu o lbio e tentou novamente. Os pneus giraram em falso, incapazes de aderir ao solo coberto de neve.
Vestindo o casaco e as luvas, saiu do carro, a fim de avaliar melhor a situao. Seu corao bateu descompassado. A picape estava atolada na lama at o eixo.
Bem, pelo menos uma coisa tinha a seu favor: sabia agora que estava no caminho certo. Ao derrapar, derrubara uma haste de madeira, que ficara semi-enterrada na lama, sob o veculo. Ao lado, havia uma caixa de correspondncia onde se lia: "G. Clelland ", em letras de forma. Stacy endireitou a haste e recolocou a caixa no lugar, usando uma pedra para martelar, at que estivesse fixada com firmeza.
Deu uma olhada nas roupas que estava usando. Ainda bem que vestira cala de l e, quanto aos sapatos, sempre guardava um par de botas de neve no carro, durante os meses de inverno, para uma eventual necessidade. E esta parecia ser uma dessas ocasies, pois teria de ir caminhando at o chal de Gareth e, ento, de l, poderia chamar um guincho para desatolar a picape.
Aps vestir as botas sobre os sapatos, colocou um gorro de l, que lhe cobria as orelhas, fechou o casaco at o ltimo boto e pendurou a bolsa em um dos ombros. Com a pasta na outra mo, trancou a picape e iniciou a caminhada. Com a sorte que estava nesse dia, provavelmente o chal ficaria a uns quinze quilmetros da estrada.
Quase vinte minutos depois, ainda no vira uma casa sequer.
Ah, o que no daria para avistar uma chamin exalando fumaa, como um sinal de boas-vindas!
Uma nova contrao obrigou-a a parar e, assim, com as mos sobre os joelhos, semi-agachada, esperou que a dor passasse. Se realmente j estava em trabalho de parto, caminhar s apressaria as coisas.
Pobre beb! Com todo esse azar, acabaria nascendo em um banco de neve. Era como dizia o ditado: "Se no fosse pela m sorte, eu no teria sorte alguma". Ela riu alto, e o som de sua voz pareceu por demais estridente. No podia deixar-se levar pela histeria. Precisava manter-se calma, pois a vida de seu filho dependia dela. E quem mais haveria de ajud-la? Ningum. Mas, ficaria bem, s tinha de continuar a andar... As palavras ecoavam em seu crebro a cada novo passo. Tentou concentrar-se no movimento dos ps, um  frente do outro, um de cada vez. No podia esquecer de procurar o chal. Passar reto seria uma tolice... mais do que ter empreendido aquela viagem, em primeiro lugar.
O cheiro de fumaa foi o que lhe chamou a ateno. Ela parou e aspirou o ar, como um animal da floresta, tentando encontrar o caminho. A neve caa sobre ela e os pinheiros a sua volta. Tudo o que podia ouvir era o som da prpria respirao. Imaginou-se completamente s, a ltima pessoa na face da Terra. O silncio do bosque tornava a fantasia quase real. Com um arrepio, forou-se a continuar a caminhada, seguindo, dessa vez, o aroma de madeira queimada.
Finalmente, chegou a uma clareira, e ali estava a casa. Stacy parou, boquiaberta. No era, de modo algum, o simples chal que havia imaginado. Painis de vidro elevavam-se em direo ao ponto mais alto do telhado, formando uma espiral, enquanto que a imensa porta de madeira mais parecia sada de um castelo medieval. O andar inferior fora construdo de pedras e o superior, de vigas de madeira. Da chamin, tambm de pedras, saa a fumaa acinzentada que lhe servira de orientao no bosque.
Ela subiu alguns degraus e bateu a aldrava de bronze que pendia no meio da porta macia. Cinco segundos depois, a porta foi aberta. Seu chefe a encarou, carrancudo.
	Ol  disse ela, tentando parecer despreocupada. Porm, assim que lhe estendeu a pasta, mais uma contrao fez com que se encolhesse toda.
	O que foi?  indagou Gareth, ainda aturdido com sua presena.
Era difcil falar com os dentes cerrados.
	Acho que o beb est nascendo.
	Meu Deus!  ele exclamou, colocando a pasta no cho.
	Ele  esperto em ficar l no cu, porque hoje aqui em baixo est uma noite terrvel!
Sob as circunstncias, at que ela no achou a piada ruim, porm seu chefe no moveu um s msculo. Assim que a dor diminuiu, Stacy endireitou o corpo, embora as pernas ainda estivessem trmulas.
Num movimento rpido, Gareth pegou-a no colo e a carregou para dentro, como um heri de romance. Fraca demais para protestar contra o comportamento incomum, ela apoiou o rosto nos ombros largos. O calor do corpo dele a fazia perceber quanto estava gelada, e os olhos frios, quanto no era bem-vinda.
	Vou descansar s um minutinho e depois irei embora  ela afirmou.
Gareth fechou a porta com o p, enquanto uma expresso indecifrvel tornava seu rosto sombrio.

CAPTULO II

Segurando firmemente Stacy nos braos, Gareth praguejou em voz baixa. Por que eu?, pensou. No havia reposta. Nunca haveria. O destino acenava com suas garras perversas, e a calamidade os atingia. Ao ser humano no cabia retrucar, nem havia como evitar os reveses do destino. Ele praguejou novamente. Em seguida, desejou ter permanecido calado.
Stacy mantinha o olhar fixo no dele. Os olhos, normalmente cor de chocolate, pareciam agora dois poos de escurido, refletindo dor e... Seria medo o que via em suas profundezas? Franziu a testa, achando difcil associar uma mulher de esprito to audaz a um sentimento como o medo.
No instante seguinte, porm, ficou surpreso que tal pensamento lhe houvesse passado pela mente. Se algum lhe perguntasse, diria que sua assistente era competente, bonita e organizada. Fora isso, no sabia quase nada a respeito dela. No, no era verdade. Ele ficara a seu lado durante o funeral do marido, pronto para ampar-la, caso desmaiasse, ou segur-la, se ela, em desespero, tentasse se jogar na cova aberta. Mas nenhum desses atos hericos fora necessrio. Stacy permanecera calada e firme frente  tragdia. Tirara os trs dias de folga de praxe e retomara, ento, o trabalho e a vida. A nica vez que testemunhara uma atitude descontrolada por parte dela fora quando o mdico telefonara, confirmando que ela estava grvida. Ao ouvir um barulho estridente, vindo da sala ao lado, Gareth desligara o telefone na cara de um cliente, imaginando que algo terrvel houvesse acontecido. S quando chegara perto   que percebeu que ela ria. Uma risada histrica, mas era
uma risada.
	. Estou grvida  ela gritou, com os olhos brilhando. Grvida! Oh, meu Deus, grvida!
Naquela ocasio, ele tivera dvidas sobre a alegria de Stacy. E, estudando-lhe as feies agora, ainda duvidava que estivesse feliz.
O restinho de batom que ficara nos lbios dela contrastava com a palidez do rosto normalmente corado. Gareth no conseguia entender. O que ela estava fazendo ali?
Stacy ajeitou a cabea, e uma mecha de cabelos umedecida pela neve enroscou-se na barba por fazer de Gareth. Um aroma invadiu suas narinas, uma mistura de baunilha e canela, com toques de limo e a doura do mel. Ele inspirou fundo, deixando que a fragrncia feminina preenchesse seus pulmes.
O som abafado, no exatamente um gemido, que escapou dos plidos lbios entreabertos de sua assistente, provocou-lhe uma sensao estranha no peito, uma espcie de apreenso e doce agonia.
Carregando-a para o andar de cima, deu-se conta de como o corpo delicado se acomodava ao dele, de como ela parecia leve se comparada a seu prprio corpo musculoso, embora fosse uma mulher de quase um metro e sessenta e cinco de altura, cheia de curvas. E grvida, lembrou-se, chocado, ao sentir que seu corpo respondia  proximidade do dela.
Chegando ao quarto, deitou-a sobre a cama king-size e inclinou-se para tirar-lhe as botas. Stacy estendeu uma das mos, pedindo-lhe para parar.
	Espere  ela gemeu, fechando os dedos sobre a mo dele, apertando-a cada vez mais forte, a fim de suportar a contrao.
Com os dentes enterrados no lbio inferior, ela procurou no extriorizar quaisquer sons que pudessem revelar a intensidade de seu sofrimento.
O suor cobria o corpo de Gareth, que contraa involuntariamente os msculos, como se pudesse ajud-la a expulsar a criana.
	Precisamos de uma ambulncia  ele murmurou.
	No d mais tempo.  Stacy expirou e soltou a mo dele. 
Ficando em p, ela tirou o gorro e o casaco, e os entregou a Gareth, que, por sua vez, atirou-os de qualquer jeito sobre uma cadeira que havia num canto do quarto.
Ela vestia cala marrom de l e uma tnica de mangas compridas rosa-clara. Uma echarpe multicolorida circundava-lhe o pescoo, presa ao ombro por um bonito broche.
	Voc tem algum tapete de borracha?  indagou Stacy.
Que pergunta estranha!, ele pensou.
	Devo ter um pedao de plstico que usei quando pintei a casa no vero passado.
	Ento  melhor ir busc-lo para cobrirmos a cama. E traga um lenol extra. Ah, e toalhas!
	Certo.
Aliviado por ter algo para fazer, ele correu em direo  porta e desceu as escadas.
Encontrou um pedao grande de plstico, que servira para proteger o assoalho contra respingos de tinta. Ao chegar de volta  base da escada, parou e pegou o telefone. Necessitavam de ajuda. Ele no tinha a menor idia de como fazer um beb vir ao mundo. O telefone, entretanto, estava mudo. Gareth insistiu vrias vezes, mas tudo o que ouviu foi o barulho de esttica do "outro lado da linha. Ficou ali parado, olhando para o aparelho, at que um som vindo l de cima forou-o a largar o telefone e subir depressa as escadas.
Na entrada do quarto, ele parou. Sua assistente executiva estava despindo a meia-cala. O desejo, urgente e intenso, invadiu seu corpo, como se descobrisse naquele instante que ainda pudesse se sentir atrado por uma mulher. Em seguida, limpou a garganta e entrou no quarto.
Stacy havia alinhado os calados como soldadinhos de brinquedo contra a parede. A cala fora dobrada e colocada sobre a cadeira, onde ele jogara o gorro e o casaco. Estes tambm haviam sido arrumados.
	Ai...
Gareth voltou os olhos para Stacy, que, inclinada para a frente, abraava a barriga. Ele ficou ali, olhando, fascinado e horrorizado ao mesmo tempo, enquanto mais uma contrao a atingia. O sangue corria com rapidez por suas veias, e Gareth no conseguia entender por que estava to perturbado com a presena de uma mulher em seu quarto. Uma mulher prestes a dar  luz! Era muito estranho...
Xingou a si mesmo em voz baixa, mas nem isso serviu para afastar as sensaes que invadiam seu corpo. Dar  luz fazia-o lembrar-se de como os bebs eram feitos. Um processo muito agradvel, por sinal, se  que ainda se recordava de como faz-lo...
	por favor... ajude-me  ela pediu, num tom ofegante.
Gareth voltou a pensar no problema atual, muito mais srio do que o seu prprio.
	Como? O que quer que eu faa?
	Eu preciso... me sentar.
Com todo o cuidado, ajudou-a a erguer-se e a colocou sobre a cama. Ela estava ofegante.
	Calma  ele sussurrou, ajoelhando-se e tomando-lhe as mos entre as suas.  Devagar... respire fundo... expire...isso, assim.
Aos poucos, a respirao de Stacy foi voltando ao normal, e ento ela relaxou, soltando as mos de Gareth.
	Precisamos arrumar a cama.  Linhas de preocupao surgiram no rosto tenso, e ela suspirou, como se estivesse no limite de suas foras.
	Est bem  ele respondeu.
Gareth a ajudou a sentar-se na cadeira e, depois de afastar o lenol de cima at os ps da cama, esticou o plstico sobre o lenol de baixo, cobrindo-o, ento, com o outro limpo.
	Voc tem um ferro?  ela indagou.
	Um o qu?
	Um ferro de passar roupa, para passar os lenis. Isso matar os germes.
	Ah...  Ele tinha quase certeza de que havia um guardado em algum lugar da cozinha.  J volto.
E, como se estivesse disputando uma gincana, Gareth correu at a cozinha e voltou rapidamente.
	Achei!  ele exclamou, empunhado o ferro como se fosse um trofu.
Stacy estava nervosa demais para sorrir com a brincadeira. Ligue na potncia mxima e passe toda a superfcie do lenol.Ele seguiu as ordens, obediente, como se sua vida dependesse daquilo.
A dela depende, pensou Gareth, sobressaltando-se com tal pensamento. Mulheres davam  luz a todo instante, no mundo inteiro, sem ajuda mdica. Algumas tambm morriam. E, s vezes, at nos melhores hospitais, assistidas pelos melhores mdicos. Balanou a cabea, procurando afastar o pensamento nefasto. No havia tempo para mais nada, apenas para tentar solucionar, da melhor forma possvel, o problema que estavam enfrentando.
	Como est se sentindo?  ele indagou.
	No muito bem  Stacy respondeu, enquanto abria o broche e retirava a echarpe do pescoo. Em seguida, colocou ambos sobre a mesinha-de-cabeceira.  Sinto muito, nunca pensei... E que eu estava to inquieta e achei... De qualquer maneira, sinto muito por tudo isto.
Gareth fez um sinal com a mo, indicando que estava desculpada.
	O que veio fazer aqui, afinal?
	No consegui contatar nenhum servio de entregas disponvel, e ento achei que um passeio de carro me faria bem. As montanhas so lindas. Na cidade, at esquecemos que esto to prximas.
	Sim, deve ser bem diferente do Wyoming, onde se pode andar at dois segundos sem encontrar uma montanha...  Ele ficou contente ao ver que sua piadinha trouxera um sorriso aos lbios de Stacy.
	Voc tem alguma camiseta para me emprestar? Uma bem grande?
	Claro.  Gareth caminhou at a cmoda e pegou a pea de roupa.
Aps lhe entregar a camiseta, ele ficou parado a alguns metros da cama, aguardando as prximas instrues. No que dependesse dele, Stacy teria todo o conforto que fosse possvel naquela situao.
	Voc se importaria...
Gareth levou alguns segundos para entender que ela no queria tirar a blusa na frente dele. O calor correu sob sua pele, le e ele se sentiu como um garoto pego em flagrante, ao espiar uma vizinha pela janela. Ento, virou-se de costas. 
No entanto, em sua mente, podia v-la, frgil e incrivelmente bonita. Ps-se a imaginar por que, durante todos os meses em que trabalharam juntos, nunca havia reparado na curva dos lbios dela, no contorno suave do nariz, na marquinha no queixo, que no chegava a ser uma covinha. Claro que a achava uma moa bonita, mas havia se passado um ano, e ele nunca a observara direito.
	Pode se virar.
Ao voltar-se, deparou com Stacy j deitada na cama, vestindo apenas a camiseta. Ela empilhara os travesseiros contra a cabeceira e puxara o lenol sobre o corpo. Os joelhos dobrados formavam uma espcie de tenda, que o impedia de ver as formas arredondadas. Os cabelos compridos estavam sedutoramente espalhados sobre os travesseiros.
Ento, algo muito estranho aconteceu. Por um instante, no maior que o intervalo entre uma batida e outra de seu corao, pareceu perfeitamente natural a Gareth que se juntasse a ela sob o lenol e fizessem amor. Apertando as mos, ele lutou contra o forte impulso que o fez recear agir antes de perceber o que estava fazendo.
	Eu realmente sinto muito por estar lhe causando tantos problemas  ela se desculpou de novo. Os olhos castanhos se desviaram, e ele notou o quanto Stacy estava embaraada.
No havia como repreend-la naquele momento. No em seu estado. Adotando um tom de voz suave, Gareth falou:
	De certo modo, tambm me sinto responsvel.
	Acho melhor chamar uma ambulncia  ela disse, fechando os olhos e apoiando a cabea com fora contra os travesseiros.
Uma expresso de dor transformou o pedido de Stacy em um apelo de socorro. Gareth percebeu que ela passava por uma nova contrao. Quanto tempo teria decorrido desde a ltima? Ser que no era necessrio algum contar o intervalo entre elas? Sim,  claro, ele  quem deveria ter se encarregado disso!
Stacy encarou-o. Os olhos dela pareciam possuir a textura do veludo. Gareth poderia mergulhar na profundidade deles e... O medo estampou-se nos abismos cor de chocolate. Ele engoliu em seco e procurou se concentrar.
	O telefone no est funcionando. Eu tentei ligar, mas ele no d linha  Gareth explicou, enquanto caminhava at a mesa-de-cabeceira e pegava a extenso.  Continua mudo  informou, procurando manter a voz serena. Algum ali precisava manter a calma.
	Provavelmente a culpa  minha. Atingi o poste telefnico antes de cair na valeta. Derrubei tambm a caixa de correspondncia, mas essa j coloquei no lugar. Onde est seu telefone celular?
	Em meu apartamento. Esqueci de traz-lo.  Ele no podia acreditar no que ela acabara de dizer.  Voc disse que bateu o carro?
Stacy, entretanto, no conseguiu responder. Ela esticou a mo, procurando um apoio.
Sentado-se a seu lado, na cama, Gareth segurou-lhe as mos, enquanto os tremores causados pela contrao pareciam atingir a ambos. O suor cobria tanto o rosto de Stacy quanto o dele.	
	Essa foi longa  ela gemeu.
	Sim, eu sei.  E, olhando no relgio, acrescentou:  Durou quase um minuto e meio. Espero que Deus nos ajude!
	Vai precisar de uma tesoura e um fio de linha grossa  Stacy falou, enquanto enxugava o rosto suado numa toalha.  Limpe tudo muito bem com lcool ou gua quente, como nos filmes  concluiu, sorrindo.
Para Gareth, era como se a qualquer momento fosse despertar daquele sonho estranho e intranqilo. Ele olhou pela janela. A noite j havia cado, porm, ainda tinham muito tempo at o raiar do dia. Definitivamente, aquilo no se tratava de um sonho.
A realidade implacvel o atingiu. Isso tudo estava realmente acontecendo. Stacy, sua competente assistente, iria dar a luz a um beb em sua casa. Em sua cama.
	Mais alguma coisa?  ele perguntou.
O rosto dela novamente se iluminou num sorriso corajoso. 
Gareth sabia que era apenas para lhe dar algum alento, e isso tambm lhe causou uma estranha sensao.
	Passe uma toalha a ferro bem quente para embrulharmos o beb. Ele vai se chamar Billy.
	Billy  Gareth repetiu.
O pai do beb era conhecido como Bill, apelido de William, e Billy era mais um diminutivo do mesmo nome.
Deixando os pensamentos de lado, Gareth saiu, apressado, para realizar as ltimas tarefas.
Quando tudo estava limpo e cuidadosamente arrumado, de acordo com a vontade de Stacy, ele lavou as mos at se certificar de que estavam bem limpas e sentou-se ao lado dela, na cama.
	Segure minha mo  disse, ao notar que as linhas
suaves do rosto dela comeavam a se transformar.
Ela agarrou as mos fortes, como se no pretendesse solt-las nunca mais. Inspirando profundamente, comeou a respirar como a mdica havia lhe ensinado, em pequenos arquejos. Em seguida, soltou as mos de Gareth e dobrou os joelhos para cima novamente.
	Ai...  gemeu baixinho.
Ele se ajoelhou ao lado da cama e checou o progresso.
	J estou vendo o beb  informou, engolindo em seco, a fim de afastar o n que se formava em sua garganta.
	J pode ver a cabea dele?  ela perguntou, voltando a respirar de maneira ofegante.
	Sim.  Pelo menos Gareth achava que aquilo fosse a cabea. Ento, exclamou:  Est vindo!
Stacy gemeu e fez fora.
	Isso mesmo. Est indo muito bem.  A emoo na voz
dele era yisvel.  A cabea j saiu e est virada para baixo.
Ela inspirou profundamente, relaxando um pouco, e respondeu:
	Acho que  assim mesmo. Veja se o cordo umbilical no est enrolado no pescoo do beb.
	No estou vendo o cordo.
	timo.
Stacy parecia estar descansando, e Gareth, embora aliviado por tudo ter corrido bem at ento, no tinha idia do que teria de fazer em seguida.
Os minutos se passavam. Ele notou como o silncio podia ser eloqente. O rudo do vento, o bater da neve nas janelas, os sons caractersticos da noite lembravam-lhe quanto estavam isolados.
Ela recomeou a gemer. Gareth notou como o abdmen se contraa com o incio de uma nova contrao e, levantando o rosto, fitou-a nos olhos.
De repente, algo inslito aconteceu. Era como se algo intangvel estivesse atingindo-o e se infiltrando em sua alma. Feixes de luz pareciam se formar  volta deles, en-volvendo-os por completo, aproximando-os cada vez mais.
Stacy agarrava-se ao lenol e respirava com dificuldade.
	Voc est indo muito bem  ele a incentivou, sentindo uma vontade quase irresistvel de beijar aquela mulher corajosa.
Ela fez fora mais uma vez, e ento a criana nasceu. Escorregando para os braos de Gareth, o beb deu um grito indignado e, em seguida, comeou a chorar.
	E um menino!  ele exclamou, excitado.  Conseguimos traz-lo ao mundo!
	Deixe-me v-lo  pediu Stacy.
Gareth ergueu o recm-nascido.
	Est tudo aqui. Os dedos das mos, os dedos dos ps, os olhos, as orelhas, as partes certas nos lugares certos...  Ele ria como um tolo.
Stacy tambm sorriu.
	Agora corte o cordo umbilical  ela falou.
	Est bem.	
Seguindo as instrues de Stacy, Gareth conseguiu amarrar e cortar o cordo sem desmaiar, e teve certeza de que nunca mais duvidaria da supremacia das mulheres sobre os homens.
	Deixe-me segurar o beb  ela pediu, assim que ele terminou sua tarefa.
Ela estava deitada, apoiada nos travesseiros, plida, no entanto, mais linda do que nunca.
Gareth colocou o beb nos braos ansiosos da me. Depois, retirou o plstico e os lenis sujos da cama e esticou os limpos. Ento, inclinando-se sobre Stacy e o recm-nascido, afastou uma mecha de cabelos da testa dela, com dedos ainda trmulos.
  uma das pessoas mais corajosas que j conheci  ele confessou, em tom reverente, sentindo o corao bater mais forte.
Os olhos castanhos abriram-se ainda mais e fitaram os dele.
Gareth deixou o quarto antes que Stacy pudesse responder.
Aps ter se limpado e colocado a roupa de cama na mquina de lavar, ele tentou novamente usar o telefone no piso trreo, antes de subir. O aparelho continuava mudo.
Stacy repousava de olhos fechados, com o beb cuidadosamente embrulhado na toalha que Gareth passara a ferro a seu lado. Seria preciso arranjar algo que servisse de fralda, mas, por enquanto, era melhor deixar me e filho descansando.
O cansao tambm o dominou. Ele caminhou at o painel de vidro que formava uma das paredes do quarto. Havia mandado construir ali um cmodo todo de vidro, que servia para captar o calor do sol durante o dia e irradi-lo para os aposentos contguos durante a noite.
Abrindo a porta em silncio, atravessou as lajotas aquecidas e parou na frente de uma janela. A neve continuava caindo. J formara uma camada de aproximadamente vinte centmetros, maior ainda nas laterais da estrada, e o veculo que removia a neve no conseguiria chegar at l antes de segunda ou tera-feira.
Tentou concentrar-se nos assuntos de ordem prtica. Bem, pelo menos tinha bastante comida estocada, mesmo contando com hspedes inesperados...
Deus, mal podia acreditar que havia feito um parto e que o beb parecia estar em perfeitas condies de sade. Quantas coisas poderiam ter dado errado!
O sofrimento guardado em seu corao havia muito tempo forou passagem e envolveu-o por completo.
Segurando com fora o batente da janela, Gareth desistiu de lutar contra as lembranas dolorosas e se deixou envolver pelo pesar.
Trs anos atrs, uma emergncia o fizera correr para o hospital. Sua noiva sofrer um acidente. Um motorista bbado invadira a pista contrria a quase cento e sessenta quilmetros por hora e atingira o carro que Ginny dirigia.
	Onde ela est?  perguntara, aflito, ao mdico que vinha em sua direo, por coincidncia, um velho amigo que tratara logo de cham-lo pelo telefone celular.
O mdico apontou em direo  Unidade de Terapia Intensiva.
	Ela est esperando por voc.
S muito mais tarde, Gareth compreendera que o amigo tentara lhe dizer que Ginny havia esperado at que ele pudesse abra-la pela ltima vez. Um ltimo beijo. As ltimas e desesperadas palavras de amor.
E, ento, ela se fora. E, com ela, a criana que crescia em seu ventre havia apenas dois meses.
Isso acontecera uma semana antes de seu casamento.
O desespero o atingira de maneira implacvel. A culpa era toda sua. Se no houvesse telefonado e pedido a Ginny que fosse busc-lo tarde da noite no aeroporto... Estavam longe um do outro havia uma semana, e o desejo de rev-la sobrepujara o bom senso.
Procurou lutar contra a raiva e as outras emoes igualmente inteis naquele momento. Estava vivo. No queria, mas estava vivo.
Balanou a cabea, questionando-se por estar relembrando o passado depois de trs anos.
Lembranas dolorosas no lhe trariam nenhum conforto. Tinha outras coisas mais importantes para fazer. Como, por exemplo, verificar que tipo de estragos Stacy provocara com sua picape.
Retornando ao quarto, parou um pouco para observar a nova me e seu beb recm-nascido dormirem. Uma fenda profunda parecia estar se abrindo em seu peito. Stacy e seu filho de alguma maneira revelavam o vazio que teimava em habitar seu corao. No apreciava a sensao, que, desvendada, doa como um nervo exposto.
Procurou afastar tais pensamentos. Stacy era sua assistente executiva, inteligente, bem treinada, que fazia o trabalho do modo que ele gostava. J havia algum tempo, pensava em incentiv-la a fazer um curso de aperfeioamento na rea legal. Ela possua inteligncia e autodisciplina necessrias. Entretanto, a gravidez o fizera adiar os planos.
O nascimento da criana tambm modificaria a rotina de Stacy. Ele ainda no sabia quanto. No queria nem pensar no assunto. Depois que esse incidente estivesse terminado, no precisaria ver o beb nunca mais. A me j reservara uma vaga em uma creche.
Daria a ela algum tempo de folga, quanto necessitasse. Quando ela retornasse ao trabalho, tudo voltaria ao normal.
Se no, ele a ajudaria a encontrar outro emprego.
Stacy acordou de repente. O beb gemia baixinho.
	Pronto, pronto. Est tudo bem. Ns dois estamos bem. Graas a Gareth  ela falou.
Talvez seu chefe nunca mais se recuperasse do choque de ter tido de fazer um beb nascer. Ele estava, inclusive, plido demais no final, mas fora maravilhoso durante todo o parto.
Com um suspiro, ela mudou de posio. Para sua surpresa, notou que no sentia dores. O parto fora mesmo muito rpido. Da primeira contrao at o nascimento, haviam se passado apenas duas horas.
	Bem, no sei o que devo fazer agora, mas talvez seja melhor aliment-lo, no acha?  indagou, carinhosa, olhando para o filho.
Ento, ajeitou os travesseiros na cabeceira da cama e procurou o interruptor do abajur. A luz suave iluminou o quarto espaoso.
Atravs da janela, alm da saleta envidraada, podia ver que a noite j se instalara. Flocos de neve golpeavam os painis de vidro e amontoavam-se nas bordas externas.
Consultando o relgio sobre a mesinha-de-cabeceira, descobriu que passava poucos minutos das oito horas. Por seus clculos, havia chegado ali s cinco horas da tarde, porm no tinha certeza. O tempo perdera o significado na ltima hora.
Stacy ergueu a camiseta at a altura dos seios e acomodou o filho no colo. Por sorte, nos ltimos tempos, apenas o suti de amamentao lhe proporcionava conforto, portanto foi s abrir a aba e um de seus seios ficou exposto. Ento, levantou o beb e passou os lbios rosados em seu mamilo. Isso pareceu realmente acord-lo. Billy abriu os olhinhos e mexeu a cabea de um lado para o outro freneticamente. Ela o guiou na direo certa, e o beb agarrou o bico com sofreguido.
	Ai!  exclamou, jogando instintivamente o corpo para trs.
O recm-nascido perdeu o bico e reclamou com um gemido. Stacy ajudou-o de novo e, dessa vez, j preparada, no se moveu quando ele comeou a sug-lo.
Uma sensao estranha a invadiu, no era exatamente dor. Vrias outras vezes, Billy perdeu o mamilo, e Stacy teve de ajud-lo, at que, aparentemente satisfeito, o beb adormeceu.
Ela ficou imaginando se ele conseguira mamar alguma coisa. Apertou o bico do seio, mas no saiu nada.
De repente, ela ouviu passos no corredor e logo puxou o lenol para cima, cobrindo inclusive o beb, enquanto tentava, com apenas uma mo, fechar a aba do suti e abaixar a camiseta.
Gareth entrou justamente quando Billy gemeu, contrariado.
	Est tudo bem a?  indagou.
	Sim, claro.  Stacy colocou o beb sobre seu abdmen, agora estranhamente plano, e tentou, mais uma vez, fechar o suti. O beb reclamou alto.
	O que est tentando fazer?  Gareth franziu o cenho, sem entender o que se passava.
O rubor tomou conta da face de Stacy. Sabia que era ridculo sentir-se envergonhada, depois do que passaram juntos havia pouco tempo, mas no podia evitar.
	Bem... eu...  balbuciou, enquanto procurava uma boa resposta.
	O que h de errado com o garoto?  Ele se inclinou sobre a cama, parecendo ameaador, devido a seu tamanho.
Gareth era um homem de constituio fsica grande, com mais de um metro e oitenta e cinco centmetros de altura e ombros largos, como os de um jogador de futebol americano. As mos e os ps eram proporcionalmente grandes.
Ele no se barbeara pela manh, e a sombra da barba cerrada cobria o rosto msculo, dando-lhe a aparncia de um charmoso vagabundo.
A cala jeans, as botas j gastas e a camisa de veludo azul puda nos cotovelos realavam essa impresso. Os cabelos escuros estavam ligeiramente despenteados, o que aumentava ainda mais a diferena entre esse Gareth e o Ga-reth urbano, seu chefe no escritrio.
S uma coisa permanecia a mesma. Os profundos olhos acinzentados continuavam a olhar com firmeza para seu interlocutor, como se pudessem ler o pensamento da pessoa.
Stacy observou as mos pousadas sobre a cama. Eram grandes, porm, ao contrrio do olhar duro que ele lhe lanava, gentis.
Aquelas mos no haviam tremido ao amarrar e cortar o cordo umbilical, e ao colocar uma bacia plstica para os procedimentos ps-parto, de acordo com as instrues de Stacy. Quando levantaram o beb para que ela pudesse ver que seu filho nascera bem, elas haviam sido capazes e muito, muito gentis. Stacy amava aquelas mos.
	Stacy  ele chamou.
Ela piscou, voltando  realidade. Ento, abaixou o lenol e colocou o filho sobre um dos ombros, para ver se ele arrotava.
	Ele est bem. Eu tentei amament-lo, mas ele adormeceu. No tenho certeza se mamou alguma coisa ou no.
Subitamente, sentia-se estpida e desamparada. O que sabia sobre criar uma criana? Nada. No tivera irmos ou irms. Sua me falecera havia muitos anos, e seu pai no primeiro ano de faculdade. Fora a filha nica de dois filhos nicos. No tinha tias, tios nem primos. Nunca ficara a ss com um beb nem trabalhara como bab na adolescncia, como tantas outras garotas.
	Oh!  Stacy exclamou, sentindo um lquido quente
correr sobre seu abdmen.
Gareth seguiu seu olhar.
	Vou procurar alguma coisa para usarmos como fralda.  E, no segundo seguinte, ele j sara do quarto.
Pobre homem, provavelmente estava morrendo de medo que alguma coisa ruim acontecesse em sua casa. Como se fazer um parto improvisado j no fosse difcil o suficiente para um solteiro como ele.
Stacy no pde reprimir uma risadinha. Era muito engraado. Gareth Clelland, um expert em assuntos legais, um dos mais respeitados advogados do pas, que defendia casos frente  Suprema Corte, encontrava-se incomunicvel em um chal, nas montanhas, com uma me inexperiente e um recm-nascido, tendo de fazer o papel de bab.
Quando ele retornou, carrancudo e com ar distante, ela no conteve outra risada. Essa situao ridcula merecia ser colocada no papel. Se tivesse a quem escrever, ela o faria. Entretanto, no tinha ningum no mundo a no ser o filho.
	Pare com isso  ordenou Gareth. Stacy ficou sria.
	Sim, senhor  disse, com vivacidade, e recomeou a rir.
	Voc est histrica?  ele indagou, num tom mais gentil.
Stacy meneou a cabea em negativa, procurando se controlar.
	Desculpe-me.  que me pareceu to engraado voc, um advogado poderoso, fazendo o papel de enfermeiro e bab.
Gareth lhe enviou um olhar zombeteiro e arqueou as sobrancelhas. Quando ele sorriu, pequenas rugas se formaram nos cantos dos olhos acinzentados.
	Sim, esta  uma situao bastante cmica.
Ela adorou o sorriso que Gareth lhe deu. Apesar das palavras repletas de cinismo, parecia genuno, no um daqueles sociais, que ele costumava distribuir no escritrio.
	Tambm me sinto envergonhada.
	No precisa ficar assim.  Gareth estendeu dois panos de prato sobre a cama e um pedao de .saco plstico.  Achei que poderamos usar isto.  Colocando a mo no bolso, ele retirou dois alfinetes de gancho.
	timo. - Ela desembrulhou o beb, secou-o, ento colocou-lhe a fralda improvisada e o saco plstico e prendeu-os com os alfinetes.
Gareth passou a ferro uma toalha limpa e entregou-a para Stacy, que envolveu o filho com o tecido felpudo.
	Acho que de agora em diante no precisa mais passar as toalhas a ferro. Obrigada.
Por alguns segundos, Gareth ficou pensativo, em silncio, depois perguntou:
	Est com fome?
	No sei... ainda estou meio tonta.  O rubor lhe subiu s faces.  Quero dizer, depois de tudo o que aconteceu, nem tive tempo de pensar em comida.
	Preparei uma sopa na hora do almoo.
	Ora, ora  ela falou, sorrindo.  Voc tem mltiplos talentos, e todos eles surpreendentes.  Assim que terminou de fazer o comentrio, teve vontade de morder a lngua. Se no se controlasse, ele a despediria na primeira oportunidade.
	Vou lhe trazer algo para comer  disse, sem esperar que Stacy tomasse uma deciso, e saiu do quarto.
Recostando-se nos travesseiros, ela se ps a pensar em Gareth. Ele j estava com quase quarenta anos de idade. Por que ainda no havia se casado?
J ouvira falar de algumas moas com quem ele sara, a maioria pertencente  alta sociedade do Estado da Virgnia ou mesmo de Washington, onde ficava seu escritrio, mas parecia no ter nenhum relacionamento srio. Algumas vezes, ouvira-o fazer reservas ou comprar ingressos para concertos e eventos no Lincoln Center e lugares como esse.
Deveria ser muito bom sair com um homem como Gareth. Ele sabia ser charmoso quando queria. Certa vez, escutara-o rindo ao telefone com uma de suas acompanhantes habituais. O tom de voz baixo, profundo e repleto de intimidade causara-lhe arrepios.
Isso, entretanto, acontecera quando Stacy comeara a trabalhar no escritrio. Nos ltimos meses, ele estivera to ocupado que no tivera tempo para eventos sociais.
Ou, talvez, tivesse combinado os passeios quando ela no estava por perto. Stacy ficou boquiaberta. Ento era isso! No o ouvira mais falar ao telefone com as namoradas desde o funeral de seu marido. Estaria fazendo isso por considerao a ela?
Quando alguma mulher, eventualmente, ligava para o escritrio, Gareth fechava a porta que separava as duas salas, antes de pegar o fone. Ele deveria imaginar que seria muito doloroso para Stacy ver ou ouvir outras pessoas falando de amor naqueles primeiros meses, aps a perda do marido.
Isso antes de ela descobrir que estava grvida. A partir da, o mundo tornou-se cor-de-rosa novamente.
Tinha de falar desse aspecto de Gareth a Shirley, quando voltasse ao trabalho. Afinal, ele no era a fera insensvel que imaginavam.
Pouco depois, Gareth retornou com uma bandeja em uma das mos e uma camiseta na outra. Colocou a bandeja sobre a cama e estendeu a pea de roupa na direo de Stacy.
	Oh, muito obrigada!  Ela no quisera pedir outra camiseta seca, pois no sabia se ele tinha roupa disponvel.
Ao sentir o aroma da canja de galinha feita em casa, ela percebeu quanto estava faminta. Muito tempo se passara desde a hora do almoo. Ela olhou em volta, procurando um lugar para colocar o beb e acabou resolvendo deit-lo no outro lado da cama.
Gareth pousou a bandeja sobre uma mesinha auxiliar e foi at o armrio, de onde retirou vrios travesseiros. Ento, arranjou-os  volta do recm-nascido na cama king-size, formando uma espcie de ninho para proteg-lo.
	Perfeito!  ela exclamou, enquanto Gareth se inclinava para ajeitar a bandeja em seu colo.
Ele se encontrava muito perto, o rosto no estava a mais que quinze centmetros de distncia do dela. Os olhos acin-zentados eram delineados por um tom azulado, extremamente atraente.
Por um instante, ele parou o que estava fazendo e fixou o olhar no de Stacy. Ela tentou dizer alguma coisa... qualquer coisa.
Gareth, ento, endireitou o corpo, quebrando a magia do momento. Seu rosto voltou a ter a expresso de sempre, de educada indiferena.
Stacy no estava bem certa do que acontecera com eles. Se  que algo havia acontecido.
Ele murmurou alguma coisa que ela no conseguiu entender e, em seguida, saiu do quarto.
Sentindo-se incomodada com a camiseta mida, Stacy tirou-a e vestiu a limpa. Sua mente, no entanto, estava longe.
Havia lido sobre a mudana de hormnios e de humores tpicos do ps-parto que atingia as mulheres durante os primeiros dias ou semanas depois do nascimento da criana, quando o corpo comeava a voltar ao normal. Isso deveria explicar o n que ela sentia na garganta e a acelerao de seu pulso. Isso e o fato de ter colocado seu chefe em uma posio constrangedora, ao vir at seu refgio.
Puxando a bandeja mais para perto, ela desejou que fosse capaz de, num passe de mgica, piscar os olhos e estar em sua prpria cama no incio desse mesmo dia. Com certeza, faria muitas coisas de maneira diferente.
O beb se espreguiou e comeou a chupar o dedo. Uma sensao estranha tomou conta de Stacy, uma mistura de amor e ternura por aquela pequenina criatura, que dependia somente dela.
Continuou a observar o filho enquanto comia. Ele era a nica coisa que no mudaria na comdia de erros que fora seu dia.
Sentindo-se muito cansada, terminou de comer a canja feita por seu chefe.
J estava quase dormindo de novo, quando Gareth voltou ao quarto.
	Terminou?
	Sim, e estava deliciosa  respondeu, com um sorriso. Ele nem percebeu o gesto dela. Com admirvel eficincia,
Gareth j havia apanhado a bandeja e a camiseta molhada, e deixava o quarto.
	Espere  Stacy pediu.
Ele se virou.
	Ser que tem uma caixa de papelo ou algo assim que eu possa usar como bero? Tenho medo de rolar sobre Billy durante o sono.
Gareth hesitou, ento fez um gesto afirmativo com a cabea e saiu.
Ela pensou sobre aquela hesitao. Um msculo saltara em seu maxilar, antes que ele concordasse com um movimento de cabea. E, em seus olhos... Stacy devia estar imaginando a estranha sensao de vazio, dor e desespero. Sim, eram seus hormnios agindo. Era ela a vtima dos altos e baixos emocionais, no Gareth. Esperou ansiosamente, at que ouviu os passos dele na escada.
Ele entrou e ps um bero de madeira ao lado da cama.
	Acha que isto servir?
Stacy olhou o bero, encantada.
	Claro.  Ela esticou o brao e correu os dedos sobre a madeira acetinada.   lindo! Foi feito  mo?
	Sim.
	Deve ser uma antigidade.
	 uma rplica  ele afirmou, saindo rapidamente, como se tivesse um assunto muito importante a ser resolvido e ela o estivesse retardando.
Voltando o olhar para o lado oposto, Stacy pegou o beb adormecido, com imensa ternura.
Minutos depois, Gareth retornou, enchendo o cmodo com sua masculinidade. Forrou o bero com uma toalha limpa e o colocou ao alcance das mos de Stacy.
Ela acomodou o pequeno Billy e, ento, examinou a pea. As laterais eram feitas de hastes, porm, tanto a cabeceira quanto os ps haviam sido manufaturados em madeira slida. Uma cena intrincada com rvores, gramados, riachos, rochas e flores selvagens fora entalhada em cada extremo do bero.
Por que um solteiro convicto teria um bero de madeira feito  mo em seu refgio nas montanhas?, ela imaginou.
Olhando para a expresso carrancuda no rosto de Gareth, Stacy teve receio de perguntar.

CAPITULO III

Stacy acordou vrias vezes durante a noite, e o beb tambm. Mantivera a luz do abajur acesa para que pudesse checar se tudo ia bem com seu filho durante as longas horas de escurido. Tentou no pensar nas coisas ruins que poderiam ter acontecido. Alm do mais, no adiantava nada ficar preocupada, precisava acostumar-se a enfrentar os acontecimentos conforme eles se apresentavam. Billy parecia ter gostado do bero. Ao despertar novamente, a luz de um novo dia, embora nublado, iluminava o quarto. O recm-nascido se encontrava de olhos abertos, porm, em vez de choramingar como fizera durante a noite, ele olhava tudo, como se apreciasse o mundo a sua volta.
	Bom dia. Gosta do que est vendo?  perguntou Stacy, pegando-o no colo e iniciando uma nova sesso de amamentao.
Seus mamilos estavam doloridos, devido s inmeras tentativas frustradas do dia anterior. Os bebs, apesar de nascerem com o instinto de suco, precisavam aprender a mamar. Ela esperava que o filho aprendesse o mais rpido possvel.
	Calma, calma  murmurou, assim que ele comeou a sugar-lhe o peito com determinao. Seus seios estavam inchados e bastante sensveis.  Voc no pode ser mais delicado comigo?
	Ele aprender l pelos vinte e um anos  uma voz masculina afirmou, em um tom gozador.
Gareth estava parado  porta, com as mos nos bolsos, observando me e filho. A no ser pela barba feita recentemente, parecia o mesmo da noite anterior. Usava botas, cala jeans e uma camiseta por baixo da velha camisa de veludo azul, puda nos cotovelos.
	Para mim j ser um pouco tarde, no acha?  queixou-se, s ento percebendo a malcia que havia por trs daquelas palavras.
De repente, uma onda de calor enrubesceu o rosto de Stacy.
	Deve ser bastante dolorido  ele disse, tentando ser solidrio, enquanto colocava alguns panos de prato limpos sobre a mesinha-de-cabeceira.
O gesto de boa vontade do chefe ajudou-a a superar o constrangimento. Ela procurou mudar de assunto.
	O choro de Billy atrapalhou seu sono?  indagou, consciente dos pequenos barulhos que o filho emitia ao sugar-lhe o peito.
Isso para no mencionar o fato de que um dos seios ficava totalmente visvel, j que ela precisava afastar aquele imenso reservatrio de leite das narinas do beb, a fim de que ele no se sufocasse.
	No, dormi bem.
	Onde voc... Posso mudar de quarto se preferir, afinal, este  o seu.
Gareth deu de ombros.
	H trs quartos l embaixo. Estou em um deles. Aqui em cima  mais silencioso para voc e... Billy.
Stacy ps-se a imaginar o porqu da pausa antes do nome do beb. Os olhos acinzentados fitavam o recm-nascido e, logo em seguida, afastavam-se. Veio-lhe  mente que talvez ele no gostasse de crianas.
	O que gostaria de comer?  perguntou Gareth.
	Cereais ou torradas, se tiver  respondeu, procurando dar um tom alegre  voz. Ela fitou as mos fortes e lembrou-se de quanto elas haviam sido gentis, enquanto ajudavam a ela e a seu filho durante o angustiante parto.  Ontem, voc foi simplesmente maravilhoso  falou impulsivamente.
Para sua surpresa, o rosto srio de Gareth ficou corado. Seria possvel que estivesse constrangido?
Bem... s espero no transformar isso em um novo hobby  ele disse e deixou rapidamente o aposento.
O chefe estava de volta. Stacy abaixou o olhar, desapontada. Com certeza, o momento de ternura que pensava ter havido entre eles fora apenas fruto de sua imaginao.
Terminou de amamentar Billy. Pelo jeito, estava bem alimentado, porque adormeceu no mesmo instante. Aps acomodar o filho entre dois travesseiros, ela se levantou da cama.
No banheiro, Stacy umedeceu uma toalha pequena em gua morna e voltou ao quarto, a fim de lavar o beb e trocar-lhe a fralda. Depois, como ele ainda dormia, colocou-o de novo no bero.
Em seguida, decidiu que tambm precisava se lavar. Usando o sabonete e' o xampu de Gareth, alm do desodorante, do talco e da escova de cabelos, ela tomou o banho mais rpido de sua vida e, em poucos minutos, estava de volta ao quarto.
O pequeno Billy dormia profundamente, e sua boca formava um biquinho enquanto continuava a sugar um seio imaginrio.
Stacy vestiu um roupo azul aveludado, que encontrou pendurado atrs da porta do banheiro, e imaginou qual das amigas de Gareth o teria lhe dado de presente. No parecia algo que ele mesmo tivesse comprado.
Ento, calando sapatos de salto baixo, desceu para o andar trreo. Gareth se encontrava na cozinha, fazendo ovos mexidos.
Ele a analisou de cima a baixo, em silncio, depois retirou dois pratos de dentro do forno. Aps colocar os ovos ao lado da lingia e do bacon fritos, ele levou ambos os pratos at a mesa,
	O caf da manh est pronto  informou.
Stacy sentou-se  mesa, e Gareth juntou-se a ela com duas canecas de caf fresco.
	Est delicioso!  ela exclamou, logo  primeira gar-fada.  No pensei que estivesse com tanta fome!
	Voc comeu pouco na noite passada.  Ele ficou imvel por unumstante, ento se levantou, como se tivesse se lembrado de alguma coisa. Retirou um copo do armrio e encheu-o de leite. Ao voltar para a mesa, Gareth colocou o copo ao lado do prato de Stacy.  Beba, mes que ama-mentam necessitam de leite  explicou, ao notar o olhar inquiridor que ela lhe lanava.
	Como sabe disso?
	Tenho uma irm, e ela e meu cunhado tm dois filhos. Stacy se surpreendeu. Durante todo o ano em que haviam
trabalhado juntos, ele no mencionara nem uma vez sequer a famlia, o que a levou a pensar, por algum tempo, que fosse to rfo quanto ela.
Porm, certo dia, a me dele telefonara, e Stacy ficara sabendo que seus pais viviam em uma pequena cidade, a cento e sessenta quilmetros de Arlington. Anotara tambm alguns recados dela, sobre comemoraes e reunies familiares, mas nenhuma outra pessoa da famlia ligara.
Tentara question-lo sobre o assunto, mas depois resolveu que, se ele no falava de livre e espontnea vontade, era melhor ficar calada e guardar a curiosidade para si prpria. Gareth no era dado a jogar conversa fora, pelo menos, no com ela.
Shirley, apesar de estar no escritrio havia mais tempo, sabia ainda menos que Stacy. Nenhuma das duas saberia dizer, por exemplo, qual o nome do meio do chefe. Conheciam apenas a inicial "B".
Talvez tivesse o nome de um dos avs, pensou. Butler, ou Buchanan, ou Beech, ou Barnett. Esses eram alguns dos nomes de famlias antigas da Virgnia, que ela lera nas lpides dos cemitrios que visitara.
Gareth Butler Clelland. Gareth Buchanan Clelland. Se o nome dele fosse Adam, as iniciais seriam A.B.C.
	Do que est rindo?
Inconscientemente, um largo sorriso havia se estampado no rosto de Stacy. Ento, ela explicou sobre a inicial "B".
	 Beauregard.
	Est brincando!  exclamou, aps pensar por alguns instantes.
Ele lhe lanou um olhar solene. Stacy reparou nos olhos dele, e os dois comearam a rir. A expresso no rosto msculo era cnica, porm divertida.
	Ah, voc est brincando comigo!
	No fique to surpresa.
	Bem,  como se uma esfinge egpcia estivesse sorrindo  falou sem pensar e, no mesmo instante, cobriu a boca com uma das mos. Se no aprendesse a se calar, ficaria sem emprego.
Gareth sabia ser charmoso quando queria. Era capaz de dar risadas profundas e sexies, ao falar com as amigas ao telefone. Possua um riso sarcstico, que usava para encobrir as emoes do momento. s vezes, era sombrio e opressivo, porm sempre sedutor.
O sorriso escolhido dessa vez foi o sarcstico.
	 Bainbridge, como o irmo mais novo de meu pai, que morreu na guerra do Vietn.
Gareth Bainbridge Clelland. Stacy pensou no filho adormecido. William Bainbridge Gardenas. Soava imponente, como o nome de algum importante. Ela balanou a cabea afirmativamente. Sim, estava resolvido.
	Preciso da chave de sua picape. Vou ver se consigo desatol-la e traz-la para c agora de manh.
	Poderamos chamar um guincho...  ela comeou a dizer, ento se lembrou de que estavam sem telefone. Suspirou com raiva por ter provocado tanta confuso. Gareth, com certeza, iria despedi-la na primeira oportunidade.  Est em minha bolsa. Vou busc-la.
	Termine de comer primeiro. No h pressa.  Ele olhou atravs da vidraa da janela.  Com essa neve toda, receio que no precisemos ter pressa para nada.
Estaria insinuando que estavam ilhados at que algum apareeesse por l e restabelecesse a coneco telefnica? Ela mesma j havia pensado nisso.
Ao terminar de comer, Stacy pediu licena, levantou-se e ps o prato, a caneca e o copo na mquina de lavar loua. Depois, seguiu para o quarto. Billy continuava dormindo.
Tentando no fazer barulho, ela pegou a chave na bolsa, voltou  cozinha e colocou-a sobre a mesa. O prato de Gareth no estava mais ali, e ele mesmo se encontrava fora de vista. As portas dos quartos no final do corredor estavam todas fechadas, portanto no saberia dizer em qual deles ele se encontrava.
Ela tornou a subir, sentindo-se como uma intrusa invadindo a privacidade alheia, embora achasse que nenhum lugar da casa seria mais privativo do que a sute que ela e o filho estavam ocupando.
Passando pela porta que dava para a saleta contgua, Stacy parou diante dos painis de vidro. Embora as paredes fossem formadas por camadas triplas de vidro, ela ainda podia sentir o frio entrando na casa. A temperatura devia estar abaixo de zero grau.
Frio demais para nevar. Era o que seu pai costumava dizer quando era pequena. Entretanto, ele estava enganado. Grandes e fofos flocos de neve caam do cu, como se jogados por descuido de uma janela celestial.
O mundo todo parecia estar branco, um mundo encantado de glac sobre rvores de chocolate mentolado. Desejou poder permanecer ali para sempre.
O pensamento a deixou chocada. Tratou de voltar para a sute e fechar as portas de comunicao, deixando de lado as fantasias sobre o calor da cama de seu chefe.
Stacy sorriu. Shirley iria desmaiar de inveja quando lhe contasse sobre esse inacreditvel fim de semana.
Gareth trocou a camisa de veludo por uma malha de l e a cala jeans por um macaco velho. Colocou um par de botas impermeveis e um gorro de l. Por cima de tudo, vestiu uma jaqueta  prova d'gua, e ento, finalmente, achou que estava preparado para enfrentar o mau tempo.
Pegando a chave sobre a mesa da cozinha, ele saiu pela porta que dava para a garagem. Ali, deu a partida no velho jipe que usava apenas nas montanhas. Ele fora adaptado com uma lmina especial na frente, prpria para recolher e afastar a neve do caminho. Normalmente, ele deixaria a tarefa cansativa para quando estivesse prestes a ir embora, no entanto, era necessrio checar a picape de Stacy e o poste telefnico.
Logo deu incio  tediosa tarefa de tirar a neve da alameda. Era um trabalho lento, e, na velocidade que a neve vinha caindo, com certeza teria de repeti-lo vinte e quatro horas depois.
A manh passou antes que ele conseguisse chegar ao fim do caminho e, s mais tarde, deparou com o veculo atolado na valeta.
Subitamente, uma dor dominou seu corao, e Gareth estremeceu. Ento, praguejou baixinho at que tudo voltasse ao normal. Stacy e o menino estavam bem, portanto no havia motivo para divagar sobre o que poderia ter acontecido.
Aps tirar a neve da frente da picape, ele prendeu uma corrente em seu pra-choque e enganchou a outra ponta no jipe. Levou trinta minutos cavando, pondo algumas pedras sob os pneus e puxando a picape com seu prprio veculo, at que ela ficasse livre.
A respirao ofegante de Gareth formava densas nuvens de fumaa a sua frente, e ele teve de se encostar na picape a fim de limpar o rosto com um leno limpo. Logo lhe veio  mente a idia de que estava envelhecendo. Deu um sorriso cnico. Tinha apenas trinta e nove anos de idade, mas fazia muito tempo desde que se sentira jovem.
Entrou na picape e ligou a ignio. O motor pegou imediatamente. Engatando a primeira marcha, fez a volta e dirigiu com cautela pela alameda, retornando a casa. Aps estacionar dentro da garagem coberta, inspecionou os danos e ficou satisfeito ao constatar que eram mnimos.
Depois de pendurar a chave no porta-chaves ao lado da porta da cozinha, ele se encostou no batente. Algo estava diferente. Ele inclinou a cabea para o lado e ouviu atentamente. A casa estava quieta, mas sempre havia silncio quando ficava ali sozinho, a menos que a televiso estivesse ligada. No, a falta de barulho no era o que tornava o ambiente diferente.
Era alguma coisa indefinvel, porm encantadora, como uma melodia carregada pela brisa, fazendo um mortal imaginar se aquele som provinha do rudo do vento entre as rvores ou das notas fludas de uma dana de fadas.
O barulho da gua correndo no pavimento superior o fez perceber qual era a diferena. A casa no se encontrava mais vazia. Ele retirou as botas e atravessou a cozinha apenas de meia. L em cima, abriu a porta da sute e espiou. Stacy estava no banheiro.
Levado por foras que no soube definir, caminhou at a cama e olhou para a criana que dormia. Billy havia tomado banho e parecia contente. Gareth reparou que os cabelos do beb eram negros e espessos. Ficou imaginando se ele parecia com o pai. Os cabelos de Stacy tambm eram escuros, mas de um tom castanho, sem reflexos loiros nem avermelhados, possuam apenas um brilho natural, que traduzia a limpeza e a sade de sua dona.
De repente, o beb comeou a fazer movimentos, como se estivesse sugando o ar. Billy esticou os bracinhos para a frente e tentou colocar a mo na boca. Como no conseguiu, o rostinho se transformou em uma careta, pronto para cair no choro.
Sem pensar no que fazia, Gareth esticou o brao para ajud-lo. O beb agarrou seu dedo, levou-o  boca e sugou-o avidamente. Gareth no se moveu, as emoes conturbadas enchiam seu peito e tiravam-lhe a respirao. Por um momento, ele ficou ali, incapaz at de pensar.
Ento, a dor foi diminuindo. A terrvel dor de amor e perda, diferente de qualquer outra que j experimentara. A dor que no sentia desde a morte de Ginny.
Procurando controlar as emoes, ele tirou o dedo da boca do recm-nascido e deixou o quarto abruptamente, caminhando na direo da cozinha. Ali, vestiu as botas e seguiu para a alameda quase correndo... Mas, naquele momento, no havia como fugir da dor da lembrana... da dor do amor...
Stacy abriu a porta do banheiro devagar. Ela pensara ter ouvido passos. Olhou em volta e viu qe o quarto estava vazio. Provavelmente, Gareth estava l embaixo. Talvez estivesse preparando o almoo. J passava da uma hora da tarde, e ela estava morrendo de fome.
Aps olhar o filho, ela desceu at a cozinha. No havia ningum por ali. Ficou imaginando o que deveria fazer. Caminhou, ento, at uma das portas no final do corredor e bateu. Ningum respondeu.
 Gareth?
Novamente no obteve resposta. Tentou nas duas portas seguintes, e ningum respondeu a seu chamado.
Incapaz de conter a curiosidade, abriu furtivamente um dos dormitrios e espiou. Para sua surpresa, no havia nada l dentro. O cmodo se encontrava completamente vazio.
Sem compreender direito por que ficara to surpresa, voltou ao corredor e parou em frente  porta do segundo quarto, abrindo-a de uma s vez. Este tambm estava vazio. O quarto tinha propores muito boas. Era pintado em um tom de pssego, adornado com trabalhos de madeira pintada de branco. A lareira era ladeada por lajotas de cermica pintadas  mo e tomava quase toda a extenso de uma parede. Estantes para livros e armrios no mesmo trabalho de madeira formavam um canto bonito, interessante e til.
O local daria uma perfeita sala de estar ntima, quente e confortvel nas noites frias de inverno. Uma famlia poderia ler, assistir  televiso ou, simplesmente, ficar observando o fogo, enquanto a neve caa l fora. Exatamente o que acontecia naquele momento.
Onde estaria Gareth?, pensou.
Caminhando at a janela, pde ver por entre as rvores a figura solitria, com a cabea baixa, os braos cados ao longo do corpo, enquanto caminhava rapidamente pela alameda. Provavelmente, estava resolvendo os estragos que ela fizera com a picape.
Em seguida, saiu daquele aposento e caminhou em direo ao ltimo quarto. Dessa vez, ficou chocada com o que viu. Esse dormitrio tambm no possua moblia, apenas um saco de dormir encostado  parede, sobre o qual havia um travesseiro e um cobertor.
Ela pressionou os dedos contra os lbios, angustiada. A cama improvisada, os cmodos sem moblia... demonstravam o vazio, a solido.
As lgrimas inundaram seus olhos, distorcendo as imagens a sua frente. Stacy fechou a porta e encostou a cabea contra o batente. O desespero que sentira aps a morte de Bill tornou a invadi-la, s que dessa vez a dor era por seu chefe.
Respirando profundamente, procurou afastar o desespero, sentindo-se tola por ser to emotiva.
Caminhou ao longo do corredor e parou no meio da sala de estar. Ali, analisou a moblia.
A sala possua peas caras e extremamente confortveis. O sof e a poltrona eram forrados com couro verde-escuro. Uma escrivaninha antiga estava atulhada de trabalho. Lustres brilhantes de bronze e castiais refletiam a luz do dia.
Stacy retornou  cozinha, observou a mesa de refeies, as duas pias, o forno duplo e o microondas. Aquela casa fora construda para uma famlia.
Gareth, porm, no tinha famlia. No possua esposa ou filho para encher a casa de risadas e sons habituais do dia-a-dia.
As lgrimas surgiram novamente, ento ela cobriu o rosto com as mos e chorou por ele, pela dor de viver, de amar, pelos sonhos que no se tornariam realidade.
Ao ouvir o som de um veculo se aproximando, correu pela escada, grata por o dormitrio de cima ser isolado do restante da casa. Assoou o nariz, lavou o rosto e tentou se recompor. Assim que se sentiu melhor, ela voltou  cozinha.
As mudanas hormonais numa mulher aps o parto podiam levar a imprevisveis instabilidades emocionais. Com certeza, essa fora a causa das lgrimas inexplicveis. Gareth Clelland, evidentemente, no precisava que tivessem pena dele.
Stacy abriu a porta da geladeira e procurou algo que pudesse preparar para o almoo. Achou apenas rosbife fatiado e queijo, portanto resolveu fazer sanduches quentes. Enquanto eles eram aquecidos no forno, vasculhou os armrios at encontrar um pacote de batatas fritas para servir como acompanhamento.
Ouvindo o motor da porta da garagem sendo acionado, percebeu que o chefe j chegara, ento colocou rapidamente a comida nos pratos e levou-os at a mesa. A porta se abriu. Ela olhou para Gareth e sorriu.
O almoo est pronto  informou.  Prefere cerveja ou refrigerante?
Ele a analisou dos ps  cabea, reparando que Stacy ainda vestia seu roupo.
	Cerveja.
Ela se apressou em pegar a bebida, enquanto Gareth tirava as botas e o casaco. Stacy apanhou a cerveja e um copo de leite e sentou-se  mesa.
	Se voc for muito pudica,  melhor fechar os olhos  ele a avisou, j soltando as alas do macaco, que deslizou pelos quadris estreitos. Gareth usava uma cala de l fina.
	Meu av tambm costumava usar esse tipo de cala.
Gareth deu de ombros.
Olhando de soslaio, Stacy pde ver parte das coxas firmes e musculosas cobertas pelo tecido azul-claro, antes que ele vestisse novamente a cala jeans e a abotoasse. Ento, caminhou at a lavanderia, que ficava prxima, e lavou as mos no tanque.
	Eu no esperava encontrar o almoo pronto  disse, sentando-se ao lado de Stacy.
	 s um sanduche, e, alm do mais, eu estava morrendo de fome  confessou, dando uma grande mordida.
Era estranho ter de novo um homem  mesa. Ultimamente, sentia muita falta da companhia masculina.
	Sua picape j est na garagem  ele falou, aps tomar um grande gole de cerveja.
	Conseguiu tir-la da valeta?
	Sim, pensei em voltar l esta tarde e ver se consigo ajeitar o poste telefnico. O poste em si est perfeito. Voc no o arrancou, talvez seja apenas um problema de cabos soltos.
	Ah, que bom! Estou me sentindo terrivelmente culpada. Foi uma tolice de minha parte trazer os papis pessoalmente.
	No, o erro foi meu  ele disse, num tom de voz baixo e profundo.  Deveria ter me lembrado do feriado e imaginado que no haveria ningum disponvel para entregas.
	Eu tambm queria sair. E um passeio pelas montanhas me pareceu uma excelente idia. Se no fosse pela neve... Stacy estremeceu, relembrando que o que a detivera fora algo mais srio que a neve.  De qualquer maneira, sinto muito.
Gareth fez um gesto com a mo, dispensando os pedidos de desculpa.
	Eu... hum...  Ela fixou os olhos na batata que tinha na mo e pensou na melhor maneira de abordar o assunto.
	Vi o saco de dormir. Imaginei que estivesse dormindo em uma cama  falou, em tom de acusao.
Gareth mastigou e engoliu a comida, sem tirar os olhos de Stacy, fazendo-a sentir-se incomodada. Ela no tinha o direito de ficar espiando nos quartos vazios.
	Estou confortvel  ele respondeu por fim. Ento, olhou pela janela e mudou de assunto.  A neve est quase parando. Vou sair assim que terminar o almoo.
Evitando qualquer conversa, Gareth acabou a refeio.
Stacy comeu mais devagar. Quando ele se levantou, ela no fez nenhum comentrio. Gareth pegou o macaco e o casaco e foi se trocar no quarto.
	Ficarei fora por algumas horas  ele a avisou, ao surgir na cozinha novamente.  Se o veculo que remove a neve j tiver passado pela estrada principal, descerei at a mercearia e trarei um pouco de leite. Precisa de mais alguma coisa?
Ela podia pensar em inmeros itens.
	Fraldas, uma escova de dentes... Ah, como est seu estoque de camisetas?
	Tenho vrias, e ainda h a mquina de lavar roupas, portanto, pode usar tantas quantas forem necessrias. Esto na terceira gaveta da cmoda.
Stacy meneou a cabea em agradecimento.
	Algo mais?
	S mais uma coisa...  comeou a dizer, mas logo em seguida desejou ter ficado de boca fechada.
Ele aguardou.
	E pessoal  ela acrescentou.
	Est bem  respondeu, comeando a ficar impaciente.
	E um item de higiene feminina...
Gareth franziu o cenho, e ento compreendeu do que se tratava.
	J sei do que se trata.  Por mais estranho que fosse, ele parecia bastante  vontade para falar do assunto.
Um sentimento parecido com cime invadiu-a. Stacy meneou a cabea, perplexa com as prprias emoes. Naturalmente, o corpo feminino no era nenhum mistrio para um homem cosmopolita, experiente e vivido como Gareth.
No momento seguinte, ouviu-o dar a partida no jipe. O som foi se afastando, enquanto ela terminava de comer e colocava os pratos para lavar.
De volta ao quarto principal, parou, olhando atravs da janela por alguns instantes. Depois, tentou ler, conversou com Billy enquanto ele estava acordado e tirou uma longa soneca. Quando o filho a acordou, a tarde j estava quase no fim. Stacy sentou-se na cadeira de balano e amamentou o beb, que parecia faminto.
Depois ela o colocou sobre o ombro e bateu levemente em suas costas at que ele arrotasse, deixando-a surpresa com o barulho e fazendo-a rir.
Stacy levantou o apoio de pernas da cadeira, dobrou os joelhos e apoiou o beb contra suas coxas. Ficou olhando para ele, encantada e orgulhosa por ter sido a responsvel por seu nascimento.
	Eu te amo  disse, sentindo-se forte e terna ao mesmo tempo. Sorriu e ps-se a imaginar se todas as mes sentiam o mesmo.
	 o beb mais lindo e mais esperto do mundo. E eu te amo.  Quando inclinou-se para beij-lo, Billy agarrou seus cabelos com ambas as mos e os puxou.  Ai! Voc  forte, hein?  indagou, tentando soltar os cabelos.
Assim que endireitou o corpo, viu Gareth parado no batente da porta. A expresso no rosto msculo a fez calar-se. Ele estava ali, olhando para ela e o beb, mas seus pensamentos estavam muito longe, presos a alguma imagem que s ele podia ver. Ela no sabia quais memrias o incomodavam, porm podia reconhecer uma alma torturada quando a via.
Percebeu, ento, que Gare th Clelland era capaz de sentir emoes profundas e que ele, algum dia, amara algum do fundo do corao, perdera esse amor e nunca conseguira superar a perda.
Num gesto abrupto, ele se virou e saiu, sem uma palavra.

CAPITULO IV

O sbado amanheceu to claro e ensolarado que Stacy precisou colocar os culos de sol, antes de olhar pela janela. A luz refletia em todos os lugares, realando as rochas cobertas de neve, as rvores, as campinas... O mundo, literalmente, brilhava.
Aps tomar um banho, ela vestiu a cala comprida de l e a tnica rosa. Depois, colocou duas toalhinhas dentro do suti, a fim de conter o leite que teimava em molhar sua roupa nos momentos mais inconvenientes. Cada vez que o beb chorava era como se seus seios reconhecessem o sinal para a produo de leite.
 Talvez fosse melhor eu trabalhar numa indstria de laticnios  disse ao filho, ao amament-lo, mais tarde.
Sentada na cadeira de balano, observou, atravs da janela, um passarinho  procura de alimento entre os galhos de um pinheiro.
De repente, ouviu o barulho de uma porta se fechando. Gareth devia estar de volta.
Sem razo aparente, seu corao comeou a bater mais forte, como se estivesse assustada. O que era ridculo. No tinha medo do chefe, e j havia superado o embarao por ele t-la ajudado no parto.
Poucos minutos depois, escutou passos abafados na escada. Ele, provavelmente, estava s de meia, pois notara que Gareth normalmente deixava as botas na cozinha. Seja l quem houvesse educado aquele homem merecia os parabns.
Stacy no podia se imaginar sugerindo que ele retirasse os calados enlameados, antes de entrar no resto da casa. Seu falecido marido no gostava de ser lembrado desses pequenos detalhes...
Percebeu, ento, que estava comparando Bill com Gareth e que Bill estava perdendo a disputa. Tentou fixar a memria nas coisas que amara no jovem marido, quando se conheceram, como, por exemplo, o sorriso franco e a risada fcil, mas tudo parecia ter acontecido havia muito tempo.
Gareth surgiu na porta e analisou Stacy e o beb por um longo minuto, antes de falar:
	As estradas ficaro livres daqui a uma hora. O veculo que remove a neve j est trabalhando e o telefone, funcionando. Se quiser, pode ligar para seu mdico.
	Ah, que tima notcia!  exclamou, acomodando Billy no colo.
	Se acha que est bem para viajar, posso lev-la para casa esta tarde. O tempo melhorou, mas deve cair mais neve na segunda-feira.
	Estou tima. Ns dois estamos bem, e, realmente, eu gostaria de ir para casa.  Ter apenas uma muda de roupa e nenhum objeto de higiene pessoal era um bocado inconveniente.
Gareth no conseguira chegar ao mercado no dia anterior, e estava sendo bastante difcil para ela ficar sem alguns itens essenciais.
Ele concordou com um movimento de cabea e saiu.
Quando Billy j estava devidamente alimentado e voltara a adormecer, Stacy colocou-o no bero e dirigiu-se at o telefone. Discou o nmero de sua mdica, dra. Kate, mas apenas a secretria eletrnica atendeu. Ento, aps uma breve explicao sobre o que acontecera, deixou seu nome e o nmero do telefone da casa de campo de Gareth.
A mdica retornou a ligao dez minutos mais tarde.
	Que histria  essa de ir para s montanhas e ter o beb sem que eu soubesse de nada? Est tentando se livrar de meus honorrios?  A dra. Kate riu.
	No foi nada planejado, posso lhe assegurar isso.  Stacy contou  mdica tudo o que havia acontecido, detalhando com orgulho a participao de Gareth.
		Diga-lhe que vou reclamar na Associao dos Mdicos Americanos. Praticar medicina sem licena  um crime srio.
 Ela, com certeza, considerava o episdio hilariante.  Pelo jeito, no foi um parto difcil.
De acordo com o que Stacy lhe contou, a dra. Kate garantiu que ela e o recm-nascido poderiam empreender a viagem de volta e recomendou que a procurasse no consultrio na tera-feira pela manh.
Aps desligar, Stacy hesitou um instante, depois resolveu ligar para Shirley. A secretria eletrnica atendeu, e ela, mais uma vez, teve de deixar uma mensagem.
	V jantar em minha casa amanh  noite e conhecer meu filho  convidou-a.
Shirley iria ficar mais do que surpresa com o recado.
Em seguida, desceu ao piso trreo e comunicou a Gareth que estava em condies de viajar. Ele se encontrava sentado  mesa da cozinha e segurava uma caneca de caf fumegante enquanto olhava pela janela.
	Quando quiser partir,  s dizer. J estou pronta  informou, dirigindo-lhe um sorriso sincero.  Ser que eu poderia pegar o bero emprestado para levar Billy para casa? Eu o devolvo na semana que vem.
	Pode ficar com ele  respondeu Gareth. Sua voz adquirira novamente aquele tom profundo que soava perigoso e fascinante ao mesmo tempo.  Para sempre  acrescentou.
	Oh, no! Ele  to lindo! Voc poder us-lo quando se casar e tiver filhos.
Gareth sorriu e a surpreendeu com a ironia de sua resposta.
	Acha mesmo que isso  possvel?
Casamento ou filhos? Stacy no sabia a qual dos dois ele se referia. Entretanto, de uma coisa tinha certeza: se ele nunca se casasse, seria por vontade prpria, e no pela falta de mulheres interessadas.
O olhar de Stacy correu para o par de botas emparelhadas ao lado da porta da cozinha. Alguma mulher teria, um dia, muita sorte em t-lo como marido. Era um homem sensual demais para viver sozinho. O pensamento deixou-a chocada.
Mas era verdade. O chefe srio, no muito dado a sorrisos e demonstraes de afeto, possua talentos inesperados. Ela o admirava. Aprendera a gostar dele e respeit-lo durante o ano em que trabalharam juntos. Agora, surpreendia-se avaliando-o por algo mais que os aspectos profissionais. Via-o como homem, um homem repleto de paixo e carinho para oferecer...
Ao levantar o rosto, encontrou o olhar firme de Gare th. Ele a observava com uma expresso sria e intensa. Mais uma vez, viu-se presa pelo feitio dos olhos penetrantes.
	Quer um pouco de caf?  Gareth perguntou, quebrando a magia.
	Sim, obrigada.
Ento, ele se levantou e foi at a pia buscar a cafeteira.
	Pensei em lev-la de volta em sua picape e depois passar a noite em meu apartamento. Pedirei a algum amigo para me trazer de volta amanh de manh.
Pobre homem! Mal podia esperar para ficar sozinho!
	Eu mesma posso dirigir. A dra. Kate falou que no haveria problema algum, desde que no me sentisse tonta ou fraca. Para falar a verdade, nunca me senti melhor.
	Voc parece...  ele se interrompeu, como se, subitamente, tomasse conscincia do que estava para dizer.
Stacy desejou que ele houvesse completado a frase.
	Horrorosa, no ?  Ela deu uma risada nervosa.  No tenho nenhuma maquiagem aqui, apenas batom.
	No precisa de maquiagem  respondeu, oferecendo-lhe uma caneca com caf.  Farei o almoo antes de partirmos.
Pelo jeito, ele estava determinado a v-la bem longe dali. Stacy nem replicou. Embora se sentisse bem, inquietava-se com a perspectiva de ficar sozinha com o recm-nascido. Estava cansada, e a viagem seria longa.
Imaginou a noite que teria de enfrentar. E se dormisse e no ouvisse o filho chorar? E se o beb se sufocasse durante o sono?
	O que houve?  ele indagou, franzindo o cenho.
	Nada.  Parecia-lhe bobagem revelar seus medos.  Sndrome de me inexperiente, eu acho.
Ele concordou com um movimento de cabea.
	Est preocupada em no saber cuidar dele, de no ter capacidade?
Ela o encarou, surpresa.
	Como adivinhou?
	Certa vez, conheci uma pessoa que tinha os mesmos temores.  Por alguns instantes, os olhos acinzentados foram tomados por emoes que Stacy no soube definir, mas sabia que vinham do fundo de sua alma.
Quem ele teria conhecido to intimamente?
	Minha irm tambm passou por isso  ele disse, caminhando at a geladeira.  Mas, assim que o beb completou algumas semanas, j achava que ningum, exceto ela e o marido, sabia cuidar da filha.
Gareth estava mentindo. Stacy sabia que procurava distra-la. Houvera, sim, uma mulher. Algum que ele amara. Talvez ela tivesse se casado com outro. Seu melhor amigo, quem sabe?
Tudo isso era pura fantasia. No sabia nada sobre ele. E, alm do mais, j tinha problemas suficientes para ocup-la. No precisava se preocupar com o trgico passado do chefe, se  que havia algo de trgico ali. Tinhas algumas dvidas.
	Bem, garanto-lhe que ficarei muito feliz quando estiver perita em bebs. Talvez quando Billy tiver vinte e um anos...
Gareth deu uma risadinha.
	Sim, se voc conseguir afast-lo das drogas e das bebidas alcolicas na adolescncia, poder se sentir orgulhosa.
	Amm  ela concordou.
O almoo consistiu em sopa enlatada e sanduches. Stacy limpou a cozinha, enquanto Gareth trazia o beb para baixo, com o bero e tudo. O rosto msculo permanecia impassvel, ao fitar o recm-nascido.
Ele dirigiu a picape, enquanto ela aproveitou para admirar a paisagem, mantendo sempre um brao protetor sobre o bero, firmemente preso no banco entre eles. Mal podia acreditar que haviam se passado apenas dois dias desde que dirigira por aquela estrada, pensando apenas em aproveitar o passeio, antes de voltar para o apartamento vazio.
Isso parecia ter acontecido havia sculos. Agora, ela era uma pessoa diferente.
Olhou para o filho e, em seguida, para o homem que, apesar de dirigir o veculo com destreza, aparentava estar com o pensamento a quilmetros de distncia. As mos sobre o volante pareciam relaxadas, porm alertas. Stacy colocaria de bom grado sua vida naquelas mos.
Com um suspiro, voltou a observar a paisagem e, procurando afastar as emoes confusas, comeou a planejar o restante do feriado. Teria de sair para comprar comida, utenslios para o beb...
Ao chegarem ao edifcio onde ela morava, Gareth entrou na garagem subterrnea e estacionou a picape. Depois, pegou o bero e carregou-o at o elevador.
Assim que desceram no andar certo, depararam com os novos vizinhos de Stacy, um casal que acabara de se mudar para o prdio. Ela os cumprimentou, mas entrou rapidamente em casa. Sentia-se exausta, e as lgrimas ameaavam rolar a qualquer instante. Suas emoes estavam tumultuadas.
So os hormnios, pensou, tentando manter a pose. Havia tanta coisa para fazer, e s podia contar com ela mesma.
Aps entrar, Stacy colocou-se de lado para que Gareth pudesse passar com o bero.
Ele a questionou com o olhar...
	Pode coloc-lo ao lado do sof, por favor.  Ela forou um sorriso.  Muito obrigada por sua ajuda. No sei como agradecer...  interrompeu-se, incapaz de expressar-se. As palavras no eram suficientes para demonstrar a gratido que sentia pela pacincia e a bondade de Gareth para com ela e o filho.
Ele acomodou o bero cuidadosamente no local indicado e caminhou at a porta.
Num impulso, Stacy se ps na ponta dos ps e beijou Gareth no rosto. Na verdade, conseguiu acertar a parte inferior do queixo dele. Foi o mais alto que conseguiu alcanar. Depois, ela deu um passo para trs.
	Obrigada  sussurrou.
Ele levantou a mo e passou os dedos de leve sobre o local do beijo. Seus olhos se escureceram e fixaram-se em Stacy, como se ela fosse uma estranha.
	Quer que eu chame um txi?  ela indagou.
	No, vou caminhando. Meu apartamento no fica muito longe daqui.
Gareth saiu e fechou a porta atrs de si. Stacy deu um suspiro profundo. No saberia explicar por qu, mas sentia-se extremamente s.
	Ele  lindo!  Shirley exclamou, sentando-se no sof, ao lado do bero.  Quero lev-lo para casa comigo.
	Ah, ento espere at ele a acordar pela terceira vez durante a noite e depois me conte o que acha disso!  Stacy deu um bocejo e se espreguiou.
A noite anterior fora muito cansativa. Billy parecia no compreender que aquela era a casa deles e que a estada na casa de Gareth fora apenas temporria. Est certo que ele era apenas um recm-nascido, mas ficara agitado a noite inteira e s pegara no sono quando j era bem tarde. Stacy continuava cansada.
	Madrinha  igual av. Quando o beb fica chato, a gente devolve para a me.  Shirley consultou o relgio de pulso.  Tenho de ir. Meu novo namorado ficou de telefonar quando chegasse.
	Pensei que houvesse desistido de homens que esto sempre viajando...  Stacy lembrou a amiga, com um sorriso.  Um piloto de avio no  do tipo que fica em casa todas as noites.
	 que foi paixo  primeira vista.  Shirley ficou em p e pegou a bolsa e a jaqueta.  Mal posso acreditar que Gareth Clelland fez o parto!  exclamou, meneando a cabea.
	E o que mais ele poderia fazer? Deixar-me l fora na neve?^ indagou, arrumando a blusa sobre o abdmen j bem desinchado.  Por que ser que um homem solteiro como ele teria um bero?
	Talvez j estivesse l quando ele comprou a casa.  Shirley estudou a expresso no rosto da amiga.  Ei, no fique imaginando bobagens s por causa disso, est bem?
	Claro que no.  Stacy fingiu-se indignada com a idia.  No entanto, Gareth foi maravilhoso comigo e com Billy. To gentil!  O rubor cobriu suas faces, e ela notou o olhar incrdulo de Shirley.
	Stacy, conheo um caso perdido quando vejo um. Nenhuma mulher conseguir conquistar o corao daquele homem. Tenho-o observado em ao nos ltimos trs anos. Ele nunca se envolve com apenas uma mulher. Nunca! E, se alguma delas demonstra querer algo mais, ele a afasta de sua vida definitivamente, sem compaixo.  Shirley deu de ombros.  Corao de pedra deveria ser
seu nome do meio.
Stacy sorriu.
	Na verdade  Bainbridge. Vou colocar esse nome em Billy tambm. William Bainbridge Gardenas. O que acha?
A amiga apoiou ambas as mos na cintura e estudou o rosto de Stacy.
	Garota, est numa enrascada.
Stacy balanou a cabea, negando qualquer envolvimento com o chefe.
	Ele no  como voc pensa... S porque Gareth  srio e reservado no escritrio, no quer dizer que no possua senso de humor ou que no saiba ser gentil.
	Voc pode se decepcionar.  Shirley vestiu a jaqueta de couro e fechou o zper.
Stacy sorriu e deu de ombros. Quando Shirley punha uma idia na cabea, era melhor mudar de assunto do que tentar dissuadi-la.
	Tenho de ir. Eu a verei... quando mesmo? Vai voltar a trabalhar na semana que vem?  Shirley indagou, parando junto  porta.
	No sei. Primeiro preciso encontrar uma creche para Billy.
	Est bem. Telefone-me se no for voltar.
Aps a sada da amiga, Stacy foi at a escrivaninha e examinou a lista de creches que preparar algumas horas antes. Estava contando com o dinheiro de mais um ms de trabalho, antes de tirar uma breve licena maternidade. Gostaria de ficar em casa com o filho, especialmente enquanto estivesse amamentando. Como isso seria impossvel, teria de fazer outros planos. Na tera-feira, antes de ir ao consultrio da dra. Kate, telefonaria para algumas creches e perguntaria a partir de que idade eles aceitavam crianas.
O ambiente est terrvel aqui  Shirley disse, em voz baixa, ao telefone.  E o caos absoluto. Janine comeou
a chorar, quando Gareth a repreendeu. E claro que ela j havia errado trs vezes, antes que ele lhe falasse no tom
frio e assustador que usa conosco, pobres mortais, ao dizer que sua sobrinha de nove anos faria melhor. Janine jogou os papis sobre a mesa e foi embora.
Stacy gemeu, imaginando a cena. Como assistente executiva, supervisionava as quatro digitadoras do escritrio de advocacia, agindo como espcie de escudo entre o chefe e as moas. No ltimo ms, estivera to concentrada em adaptar-se  maternidade e s obrigaes com o filho recm-nascido que quase se esquecera de que o escritrio continuava funcionando.
	Ontem  noite, depois que todos j haviam ido embora, menos eu, Peter e Gareth tiveram uma briga. Gritaram como loucos e quase chegaram s vias de fato  Shirley acrescentou, tambm em voz baixa.
Stacy concluiu que Gareth se encontrava por perto.
	Eu j no sabia mais o que fazer. Ento, Gareth saiu a passos largos, batendo a porta. Nunca o vi daquele jeito. Corri para ver como Peter estava, e ele me contou que est muito preocupado, porque Gareth vem agindo de maneira estranha nos ltimos dias. Peter nunca o vira explodir desse jeito. E olha que eles se conhecem desde a faculdade.
	Sobre o que discutiram?  Stacy estava curiosa. Gareth, embora fosse srio, agia sempre como um cavalheiro. Nunca o ouvira alterar a voz.
	No-^enho a menor idia.  Fez-se, ento, uma longa pausa.  E voc, quando voltar a trabalhar? Espero que seja antes que algum acabe ferido aqui.
	Ainda no sei. Telefonei para algumas creches e disseram-me que s aceitam bebs com, no mnimo, cinco quilos. Como Billy nasceu prematuro, ele tem pouCo mais de trs.
Shirley suspirou.
	Na semana que vem, Gareth estar no tribunal, quem sabe a situao fique mais tranqila por aqui.
	Sim, quem sabe?
Stacy lembrava como ele ficava quando levava um caso ao tribunal. Com seu tom de voz frio como ao, podia provocar medo na mais destemida das pessoas.
Stacy e a amiga conversaram por mais algum tempo, depois combinaram de jantar juntas qualquer dia, j que o novo namorado da secretria estaria fora da cidade, pilotando um vo fretado para o Mxico.
Aps desligar o telefone, Stacy terminou de dobrar e guardar as pequeninas roupas de Billy, que lavara naquela manh. A mquina de lavar roupas que ela e o marido haviam comprado de segunda mo quebrara de vez.
Aps vrias idas  lavanderia, carregando em um brao Billy e toda a parafernlia que acompanhava o beb, e em outro as roupas sujas, ela decidira, relutante, comprar uma nova mquina de lavar roupas. Alm do mais, as mquinas que utilizavam moedas, acabavam saindo mais caras. Aps alguns clculos, concluiu que poderia comprar uma mquina nova a prazo e pagar em menos de um ano.
Entretanto, tivera de utilizar seu fundo de emergncia, e isso a deixava nervosa.
A pediatra dissera que levaria, pelo menos, mais um ms at que Billy alcanasse o peso mnimo exigido pelas creches. Stacy no podia se dar ao luxo de passar mais um ms de folga. A licena maternidade que a firma proporcionava era bastante generosa, mas, uma vez que a funcionria tivesse utilizado os respectivos dias em caso de doena, a licena maternidade passava a ser no remunerada. Ela, que trabalhava l havia apenas um ano, tirara todas as folgas logo nas primeiras semanas de trabalho.
E se levasse o beb junto com ela?
A idia a deixou animada. Alguns escritrios permitiam que as mulheres levassem seus bebs enquanto eram pequenos, e Billy era bonzinho, calmo e estava sempre bem-humorado.
O que estava pensando? Gareth serviria sua cabea numa bandeja se ousasse sequer tocar no assunto. Era uma idia insensata, mas, com certeza, resolveria todos os seus problemas. Se as coisas estavam to tensas e complicadas no escritrio quanto Shirley dizia, sua presena era necessria. E, j que ele ficaria no tribunal...
Aquele seria um caso demorado. Era um problema de patente, envolvendo uma companhia rival contra o cliente de Gareth. Poderia levar semanas ou meses. Com certeza, tempo suficiente para que Billy engordasse dois quilos.
Era uma idia louca, entretanto permitiria que amamen-tasse o beb por mais algumas semanas...
Tentou tirar uma soneca, porm seu crebro continuava revendo todas as possibilidades. Ora, o beb no incomodaria ningum. Stacy ps-se a pensar quem ela estaria tentando enganar, a seu chefe ou a si mesma.
	Bom dia, Clelland e Davidson  disse Stacy, ao telefone, ao mesmo tempo que abria um envelope, checava o contedo e o depositava em uma pasta a sua frente intitulada: "arquivo".
	Stacy?  uma voz grave indagou.
O corao dela disparou dentro do peito, enquanto as mos apertavam com fora o aparelho.
	Sim, ol, Gareth.
	O que est fazendo a?  A surpresa no tom de voz fora substituda pela cautela, quem sabe at, hostilidade.
Ela decidiu contar a verdade.
	Shirley me telefonou na sexta-feira e disse que Janine pedira demisso e que as coisas por aqui estavam caticas. Ento, achei melhor vir ajudar.
Fez-se uma longa pausa, antes que ele falasse:
	Sua mdica concordou?
	Claro. Foi um parto to fcil que eu j poderia ter voltado ao trabalho h bastante tempo. Infelizmente, as creches no aceitam bebs com menos de cinco quilos.
Nesse momento, ela percebeu que quase mencionara o fato de que Billy estava ali com ela, dormindo em seu ber-cinho, debaixo da escrivaninha. Como sempre acontecia quando estava nervosa, sentiu uma pontada no estmago e levou a mo ao ventre.
	Bem, estou precisando de um relatrio e de alguns documentos  Gareth prosseguiu, ignorando o assunto.
Stacy anotou as informaes necessrias e prometeu enviar tudo imediatamente por um portador.
	Ou voc pode trazer os papis pessoalmente  ele falou, em tom jocoso.
Stacy levou alguns segundos para compreender que o chefe estava fazendo uma brincadeira.
	S entrego documentos durante tempestades de neve.
	Tambm s fao partos nas mesmas condies.  O riso clido pareceu penetrar nas entranhas de Stacy, dissolvendo o n que se formara em seu estmago.
Aquele fim de semana nas montanhas fora muito estranho, repleto de emoes intensas e pensamentos no confessados.
Ao compartilharem o nascimento de seu filho, haviam dividido tambm algo mais primai e instintivo, reservado geralmente a parentes prximos. Alm do mais, pudera descobrir que o chefe sisudo era dono de um grande senso de humor. E de uma gentileza e uma doura que enchiam seus olhos de lgrimas cada vez que se lembrava.
	Vir ao escritrio hoje  tarde?  ela perguntou.
	S  noite. Tenho um jantar marcado com um cliente e, mais tarde, passarei para checar a correspondncia. Se precisar de algo, deixe-me um bilhete.
Stacy ficou aliviada. Ela e Billy j estariam bem longe, quando ele chegasse.
	Certo. Estava abrindo a correspondncia, quando ligou.
	Est tudo atrasado.
	Eu notei.  Ela nem ousou comentar que o problema no existiria se ele no tivesse sido to duro com Janine.
	Acha que a culpa  minha por Janine ter pedido demisso?
	Se a carapua lhe serviu...
	Veja se consegue convenc-la a voltar, est bem?
Ao desligarem, Stacy refletiu sobre a conversa. Mal podia acreditar que tivera coragem de provoc-lo e que Gareth respondera  brincadeira.
Ao ouvir um gemido, ela afastou a cadeira, abaixou-se e puxou o bero. Depois, trancou a porta, desabotoou a blusa e pegou o filho faminto no colo. Se seu chefe pudesse v-la agora...
Mais uma semana havia se passado. Stacy suspirou, aliviada, enquanto arrumava a escrivaninha na noite de sexta-feira. Gareth e ela se corresponderam por meio de memorandos e telefonemas durante o dia. Ele passava no escritrio, porm seguia para o tribunal, antes que ela chegasse, e s voltava bem tarde.
At agora tudo ia bem.
A sorte parecia estar de seu lado. Ligara para uma creche, e a diretora, enfim, concordara em aceitar Billy, quando ele tivesse seis semanas de idade, no importando seu peso.
	Como voc est, meu anjo?  Conversando com o filho, ela se acomodou na cadeira e preparou-se para amament-lo, antes de sair e enfrentar a fila do supermercado.
A amamentao no lhe causava mais dor. Ainda assim, era algo estranho. Toda vez que entrava no chuveiro, o leite flua durante alguns segundos.
	 bom para seu filho e para voc  informara a dra. Kate, ao saber que ela continuava amamentando.  Ajuda a retomar a antiga forma mais rapidamente.
Stacy voltara a fazer ginstica havia duas semanas, sem dificuldade alguma. Na verdade, nunca se sentira melhor. Aps mamar  meia-noite, Billy dormia direto at as seis horas da manh, portanto ela conseguia descansar durante a noite toda.
Entretanto, cada vez que pensava em ter de deixar o beb na creche, experimentava uma sensao de angstia. Como Gareth mesmo predissera, sentia-se como a nica pessoa qualificada para tomar conta do filho.
Stacy ofereceu-lhe o outro seio e cantarolava, enquanto aguardava que ele terminasse.
Um barulho na recepo fez a pele de seu brao se arrepiar. Sabia que Shirley havia trancado as portas ao sair.
A luz foi acesa na sala de Gareth. Stacy ficou imvel, observando o feixe de luz que entrava pela porta de comunicao. Mal notara que ela ficara entreaberta.
Abaixou os olhos para o filho que mamava. A boquinha rosada trabalhava com avidez, ento pareceu diminuir o ritmo. Se retirasse o seio antes que estivesse satisfeito, Billy comearia a chorar, e Gareth, com certeza, ouviria o barulho.
Sua mente trabalhava  procura de uma soluo. Poderia dizer que pegara o filho na creche e que voltara para o escritrio para apanhar alguns papis que esquecera. Ou que Billy estava resfriado, e no tivera coragem de deix-lo.
Os passos na sala ao lado pareciam mais prximos. Oh, no, ele estava vindo para sua sala!
Apertou com mais fora o beb, que soltara o peito e agora dormia profundamente. Pensou em escond-lo debaixo da mesa, mas e se Gareth ficasse at tarde, terminando algum servio ou checando a correspondncia? Talvez pudesse...
	O que...  Os olhos acinzentados escureceram, ao v-la com o beb no colo.
Stacy enfrentou o olhar frio e vislumbrou por alguns segundos paixo e dor. Os olhos dele correram pelo rosto ainda surpreso da assistente e tornaram-se cheios de desejo.
Ela seguiu a direo daquele olhar. Um de seus seios estava completamente visvel, uma gota de leite ainda pendendo do mamilo rosado.
Uma onda de calor e vergonha apossou-se dela, enquanto lutava para ajeitar o suti e abaixar a blusa com os dedos trmulos.
	Posso explicar  disse, em voz baixa, como uma criana pega fazendo alguma travessura.
	Ento explique  ele replicou, com a emoo e o desejo esvanecidos.
Enquanto fazia uma explanao concisa da situao, rezava interiormente por algum sinal de compreenso da parte dele.
	Por que no ficou de licena at que a creche o aceitasse?  Gareth questionou, como se estivessem no tribunal, e ela fosse uma testemunha hostil.  Mandei que ficasse em casa pelo tempo necessrio.  claro que sabia que o trabalho ficaria atrasado.
	A situao estava catica aqui  defendeu-se.
	Eu deveria despedir Shirley por t-la chamado.  Ele parecia grande e ameaador, e Stacy temeu que ele cumprisse a ameaa.
	A deciso foi minha. Eu precisava do dinheiro  acrescentou, odiando ter de admitir uma fraqueza humana a algum que, obviamente, no as possua.
Aquelas palavras o chocaram. Uma emoo peculiar surgiu no rosto carrancudo.
	Por que no falou antes? Vou mandar o contador fazer um cheque...
	No! Recebo meu salrio pelo trabalho que realizo.
	Voc vai ficar em casa mais um ms e aceitar o dinheiro sem argumentar  ordenou.  Isto aqui no  um berrio. Volte a trabalhar quando seu filho tiver condies de ficar na creche.
	No posso aceitar um salrio sem trabalhar.  O orgulho falava mais alto, e, alm do mais, no aceitaria caridade da parte dele nem que morresse de fome.  No sei por que no podemos continuar como estamos. Deu certo esta semana. Billy no criou nenhum problema, dormiu a maior parte do tempo...
Gareth deu dois passos  frente e inclinou-se sobre ela e o beb.
	V para casa. No quero mais ver voc ou seu filho por aqui. Fui claro?
Stacy empalideceu.
	Perfeitamente claro.
Ele a despedira! No podia acreditar. Nunca fora mandada embora de um emprego.
Gareth a encarou por mais alguns instantes, ento saiu, batendo a porta de comunicao.
Fora'despedida! O medo ameaou invadi-la.
Aps pegar a bolsa e os objetos pessoais, deu uma ltima olhada pela sala para ver se no esquecera nada. Os vasos de plantas que trouxera podiam ficar. Pediria para Shirley reg-las at que Gareth contratasse outra pessoa.
Despedida. A palavra em si era uma vergonha, embora continuasse achando que no fizera nada to grave. Virou-se para sair e bateu o p no bero de madeira. Parou e ficou olhando-o por um bom tempo.
O bero era a chave dos sentimentos conflitantes de Ga-reth, porm ela no sabia quais segredos ele escondia. O bero e o fato de ele ficar irado ao v-la com o beb apontavam para algum acontecimento dramtico em seu passado. Ser que ele, ou algum a quem amava, havia tido um filho? Se a resposta fosse sim, onde estaria a criana?
Era um mistrio que jamais desvendaria.
Depois de pegar os lenis e o cobertor, e guard-los na bolsa, colocou o bero no cho, bem em frente  porta da sala de Gareth. Ele o encontraria e o levaria de volta s montanhas.
Ainda tonta com os ltimos acontecimentos, dirigiu at seu prdio e estacionou a picape na garagem. Ento, segurou a direo com ambas as mos, apoiou a cabea sobre ela e deixou os pensamentos vagarem.
J se sentira assim anteriormente, ao ter de enfrentar a morte do pai e, depois, do marido. A solido acenava a sua frente.
Como se sentisse o sofrimento da me, o pequeno Billy acordou e se ps a chopar.
 No ser o fim do mundo  disse, pondo de lado os prprios temores.  Ficaremos muito bem.
A frase soou como uma terrvel mentira.
CAPITULO V

Gareth andava de um lado para o outro na sala de seu apartamento de cobertura na cidade. Ele parou por um instante, fixou os olhos no bero e ps-se a caminhar novamente.
 Coragem  disse a si mesmo. Ferira os sentimentos de Stacy sem motivo algum. Nenhum motivo mesmo! Precisava pedir-lhe desculpas.
Ele fechou os olhos e massageou a nuca. Sentia como se uma caldeira estivesse pronta a explodir dentro de sua cabea. Dirigiu-se  cozinha e engoliu duas aspirinas com um copo de suco. Tornou a encher o copo e encostou-se na pia, imaginando se Stacy j estaria acordada.
Era provvel. Os bebs costumavam acordar bem cedo.
No podia compreender o que estava acontecendo. Sempre via mulheres com bebs, e isso nunca o incomodara. Mas o fato de ver Stacy com o filho causava-lhe uma dor inexplicvel.
O fim de semana na casa da montanha dera incio a uma batalha dentro dele. Antes, sua vida era perfeita. Bem, no exatamente perfeita, mas, com certeza, era uma vida tranqila. 
Retornando  sala de estar, voltou a andar de um lado para o outro. O sol j estava alto, espalhando seu calor radiante pelo mundo. As cerejeiras resplandeciam cheias de brotos, que logo floresceriam. Ento ele lembrou que aquele era o primeiro dia de primavera.
No havia como fugir da prpria conscincia. Tinha de se desculpar com Stacy pelas palavras duras do dia anterior.
Ele agarrou a chave do carro e o bero que, silenciosamente o acusava da indescritvel brutalidade, e caminhou em direo  porta.
Havia pouco trnsito naquela manh de sbado, e ele chegou ao prdio dela em dez minutos. No elevador, ensaiou o que dizer.
Ao sair, encontrou o mesmo casal de vizinhos que o vira chegar com Stacy e o filho no ms anterior. Olharam-no, espantados, ao v-lo outra vez com o bero nos braos. Com certeza, pensavam que o filho era dele e que se recusara a se casar com a me.
A imagem de Stacy, com os cabelos escuros espalhados sobre o travesseiro, a coragem sobrepujando o medo enquanto lhe dizia o que fazer durante o parto, tomou conta de sua mente. Ali estava outra faceta estranha daquele fim de semana. Ele a desejara.
Quando a vira deitada em sua cama, o desejo brotara em seu corpo, como um fluxo de lava quente. Mesmo nos momentos de maior dor, quando uma contrao lhe tirava o flego, ela parecia linda a seus olhos, linda e desejvel, o epteto da feminilidade.
O problema era que continuava desejando-a. Quando entrara no escritrio e a encontrara com o beb nos braos, todo o desejo contido voltara a atorment-lo. Queria deitar-se com ela. No necessariamente fazer amor, embora a idia fosse muito tentadora. Queria, principalmente, abraar Stacy e o beb, e... cuidar deles? Viver com eles?
Algum instinto bsico fora despertado dentro dele, e agora Gareth no sabia como faz-lo adormecer novamente.
Emoes diversas misturavam-se em seu interior. Culpa, por exemplo. Stacy e o filho estavam sozinhos no mundo, e ele agira como um carrasco. Precisava desculpar-se.
Tocou a campainha, e o som ecoou dentro do apartamento. J estava quase indo embora, quando ouviu o barulho da chave girando na fechadura.
Assim que ela abriu a porta, Gareth tomou conscincia de que Stacy estivera parada o tempo todo do outro lado, observando-o pelo olho mgico e decidindo se deveria ou no deix-lo entrar.
Voc esqueceu o bero  ele falou, fitando a massa de cabelos castanhos, presa em um rabo-de-cavalo, a blusa solta no corpo, a cala comprida, chegando at o esmalte cor-de-rosa que ela usava nas unhas dos ps. Stacy estava descala e parecia uma menina.
No entanto, ele sabia, da maneira mais inequvoca possvel, que ela era uma mulher. E uma mulher muito desejvel.
Ora, o que estava pensando? No tinha a menor inteno de se envolver com uma mulher do Wyoming. No tinha inteno de se envolver com ningum! No tinha nada a oferecer a uma mulher, no desde que...
	Ele pertence a voc.  Ela no o convidou a entrar.
	Poderia me servir uma xcara de caf?
Uma expresso de surpresa surgiu no olhar de Stacy. Dando um passo atrs, ela permitiu que Gareth entrasse.
Aps fechar a porta, Stacy lhe indicou o caminho. Ele colocou o bero no cho da sala e seguiu-a at a cozinha.
	Gosto de sua casa  ele disse, sentando-se  mesa. Janelas duplas abriam-se em direo ao sul. Prateleiras de vidro eram suspensas por um trabalho artesanal de macra-m e pendiam do teto a sua frente. Vasos de flores enfeitavam as prateleiras, adicionando um colorido agradvel s paredes brancas e aos armrios de pinho. O piso era ornado com tapetes de linleo bege, salpicado em tons de verde, amarelo, azul e vermelho. O apartamento era bem decorado e confortvel.
	Por que veio at aqui?  Ela se sentou na frente dele e lhe entregou uma caneca de caf:
	Para me desculpar por meu comportamento de ontem.
Gareth esperou para ver como ela reagiria. Stacy nem mesmo piscou.
Continua irritada, ele pensou.
	Espero que volte a falar comigo na segunda-feira, seno teremos de nos comunicar por intermdio de Shirley.  Ele sorriu.
Stacy permaneceu sria.
	No estarei no escritrio na segunda-feira. Gareth sentiu uma pontada de aflio.
	Por qu?
	Voc me despediu.  Ela fez um gesto em direo ao jornal aberto sobre a mesa.  J estou procurando outro emprego.
Ele teve de se controlar para no bater a caneca com fora sobre a mesa.
	Eu no a mandei embora. Por que eu despediria a melhor assistente que j tive?
	Por eu ter levado Billy para o escritrio.  Ela sustentou o olhar dele corajosamente. Sua mo, entretanto, tremia ao levar a caneca aos lbios.  Voc disse que no queria tornar a nos ver.
	Eu disse isso?  No recordava exatamente o que dissera, mas, com certeza, no se esquecera da viso do seio desnudo. Naquele momento, desejara estender a mo e toc-lo.
	Sim  ela respondeu friamente.  Foi exatamente isso que falou.
Gareth forou-se a desviar o olhar da parte da frente da blusa de Stacy e fitou-a nos olhos. Ela no o perdoaria com facilidade.
	Desculpe-me, no foi isso o que eu quis dizer. Fiquei... surpreso ao v-la com' o menino.
O olhar ctico que ela lhe enviou o fez corar at as orelhas.
	Pelo jeito, este ser um ano cheio de surpresas  ela murmurou, desviando o olhar para a janela.
	Espero v-la de volta ao escritrio na segunda-feira  Gareth falou, com firmeza.
	Eu no irei. A creche ainda no aceita Billy.
	Leve-o com voc.  Ele mesmo no acreditou no que acabara de dizer.
Os olhos castanhos demonstraram espanto. Gareth tentou sorrir.
	Tambm estou chocado com o que eu disse. Mas acho que vai dar certo. Pode levar o beb com voc durante o tempo que quiser, at que ele comece a engatinhar.
	Est falando srio?
	Sim.
	Mas voc odeia crianas!
Ele a olhou, surpreso.
	Claro que no! Voc s me pegou num mau dia.
Como podia explicar algo que ele mesmo no compreendia? V-la segurando o filho com amor e carinho abrira uma ferida que no gostaria nunca mais de ver exposta.
	Voc e Billy me fizeram lembrar de coisas que eu preferia esquecer.
	Oh, Gareth, sinto muito!
A doura em sua voz o fez imaginar at onde ela iria para confort-lo, e at onde ele a deixaria ir.
Quando Stacy murmurou outras palavras de conforto, ele notou que aquela voz, da qual gostara desde o primeiro momento que ouvira, fazia-o sentir-se calmo, quente, confortvel.
	J faz muito tempo  Gareth informou.
	Mas ainda machuca. A dor parece nunca nos deixar completamente, no ? Ainda resta o arrependimento por todas as coisas que poderiam ter sido feitas e a culpa por aquelas que no deveriam ter acontecido.
Era inacreditvel ouvi-la dar voz s mais profundas dvidas que o atormentavam.
	Sim, ainda resta a culpa  ele repetiu, quebrando o silncio que se seguiu.
	Temos de aprender a deixar a culpa de lado tambm. Devemos nos libertar do que no fz mais sentido.
	Voc conseguiu?  Ele no pde evitar o tom cnico na voz.
	Acho que sim. Dar a luz a Billy ajudou muito. No sinto mais aquele vazio dentro de mim.
	A dor no lhe incomoda mais?
	No  mais insuportvel como antes.
Ele bebericou o caf e refletiu sobre o que ela dissera. O vazio, que tambm o atormentava havia muito tempo, agora parecia mais suportvel. Ele suspirou profundamente. S o tique-taque do relgio preenchia o silncio que se instalara na cozinha. Paz. Sim, era parte do que sentia quando se encontrava ao lado de Stacy.
	Sua presena me acalma  ele confessou.  Senti isso na primeira entrevista.
Ela pareceu satisfeita.
	Foi por isso que me contratou?
	No, voc  inteligente, e suas referncias eram timas. Para falar a verdade, seu antigo patro disse que poria o filho policial atrs de mim se eu no a tratasse bem.
Ela riu.
	O filho dele trabalhou com meu marido. Fiquei muito contente quando voc me contratou, aps o sr. Anders ter se aposentado. Ele me contou que voc era um dos melhores advogados que j conhecera.
	E, ento, vai continuar a trabalhar em meu escritrio?
	Se voc desejar... A tenso se desfez.
	 o que quero.
O estmago de Gareth roncou, ele no havia comido nada no caf da manh.
Que tal algumas panquecas?  ela perguntou.
Gareth hesitou, consciente de que deveria ir embora. Porm, desejava ficar.
	Est bem,  uma boa idia.
Enquanto Stacy preparava o desjejum, conversaram sobre assuntos gerais. As mulheres que ele conhecia no sabiam cozinhar. Quando necessrio, contratavam um servio de buf. Uma das coisas que apreciava em sua casa nas montanhas era poder preparar a prpria comida. Refeies simples para uma alma simples.
Stacy lanou-lhe um olhar de soslaio.
	Do que est sorrindo?
	Da vida  ele respondeu.
	Incomoda-se em me explicar?
Ela levou os pratos at a mesa e colocou as panquecas na frente dele. Em seguida, voltou ao fogo. Gareth reparou nas curvas suaves dos quadris de Stacy, marcadas pela cala justa.
	Quando eu era criana, os domingos l em casa eram uma festa. Meus pais sempre convidavam alguns de seus amigos artistas para almoar conosco. Ficvamos todos na cozinha conversando e ajudando a fazer a comida. J havia me esquecido de quanto apreciava aqueles dias de domingo.
	Ento tambm tem coisas boas para lembrar?  Ela lhe lanou um sorriso encorajador.
	Sim, muito boas.  Ele pensou nos dias que passara com Ginny a seu lado e em quanto a me dele perguntara sobre quando planejavam ter um filho.  Minha me adora bebs. Provavelmente, se pudesse, iria lhe dar milhes de conselhos sobre como criar Billy.
	Ela sabe que foi voc quem fez o parto?
S ento Gareth notou que Stacy ainda se sentia embaraada com o fato. Ele no estava constrangido, e sim irritado com as noites agitadas que vinha experimentando desde aquele final de semana e com o sonho recorrente, onde chegava em casa e encontrava Stacy em sua cama. A diferena  que no sonho ela abria os braos para ele, con-vidando-o a compartilhar o leito.
Stacy olhava-o, curiosa. Ele no respondera  pergunta.
	No, porm mencionei que voc teve um menino.
Ele aguardou pela dor que as lembranas do passado lhe trariam. Mas eram outras memrias que agora preenchiam seus pensamentos: Stacy segurando sua mo em busca de apoio, Billy agarrando seu dedo e tentando sug-lo...
Stacy ficou em silncio, para que ele pudesse pensar no passado. A psicloga da polcia lhe dissera que era preciso reviver as coisas boas e deixar o resto ir embora. Ela conseguira superar essa fase, mas o fato de ter dado  luz uma criana a ajudara muito. Gareth, por sua vez, no tivera esse conforto.
Ela voltou a ler o jornal, enquanto terminavam a refeio. Que alvio saber que no precisaria procurar outro emprego! Realmente gostava do que fazia no escritrio de advocacia. Pouco depois, levantou o rosto e viu que Gareth a observava. Mais uma vez, pensou ter visto o desejo expresso nos olhos acinzentados. No, no era imaginao...
	Gareth  sussurrou, num protesto. Ou seria uma splica?
Ele piscou os olhos, e, no momento seguinte, a expresso de desejo dissipou-se.
	Sim?
Ela o encarou, confusa. Ser que ele no percebera?
No  nada  respondeu.
Inquieta, ligou o rdio, tentando preencher o silncio que se estabelecera entre eles. A bonita melodia encheu o ambiente. Parecia combinar com seu estado de esprito, com a inquietao que ela sentia, pelos desejos que no ousava expressar.
Caminhou at a janela e contemplou o pequeno parque do outro lado da rua. Desde a nevasca, o tempo vinha se mantendo quente e firme. Cada novo dia de sol trazia-lhe uma nova esperana. Ela fechou os olhos e lutou contra a melancolia.
Quando, finalmente, voltou-se para Gareth, surpreendeu-se, ao reconhecer a enorme tristeza estampada no rosto msculo.
	Gareth?
	Beethoven, no ?  Ele deu um meio sorriso.
	Sonata ao luar.  uma de minhas favoritas.  No mencionou que a paixo transmitida pela msica capturava sua alma, fazendo-a ansiar por algo mais do que a existncia cotidiana. Sentia falta de alguma coisa...
Gareth se ps em p, como se tivesse decidido, subitamente, ir embora. Em Vez disso, foi postar-se ao lado dela, na janela.
	Uma vez conheci uma pessoa que tambm adorava essa msica.
O corao de Stacy pareceu dar um pulo dentro do peito. Ele estava compartilhando um pequeno pedao de seu passado com ela. Instintivamente, sabia que Gareth falava de uma mulher e que a amara. O que teria acontecido com ela? Stacy no ousava perguntar.
O que houve em seguida deixou-a ainda mais surpresa. Ele passou a mo pelos sedosos cabelos castanhos de Stacy.
	Ela se parecia muito com voc. Clida, adorvel e...
Quando se interrompeu, consciente de que falara demais, Stacy ficou desapontada. Havia menos de dois palmos de distncia entre eles. Um s passo e poderiam se tocar.
O calor que emanava do corpo msculo parecia acarici-la. Ela deu um longo suspiro, que pareceu fundir-se com a msica.
Gareth retirou a mo dos cabelos castanhos e passou o dedo pelo canto da boca macia. Ela permaneceu imvel, enquanto ele explorava seus lbios, enviando correntes de eletricidade por todo seu corpo.
Ento, ele abaixou a mo e, devagar, inclinou a cabea e encostou os lbios nos dela, num toque to leve e suave quanto o de um beija-flor  procura de nctar.
Mil sensaes diferentes a atormentaram ao mesmo tempo. Algumas doces, outras dolorosas, todas, porm, exigentes.
	E melhor pedir que eu saia  ele murmurou.
	No.
Ela ps a mo na nuca de Gareth e ficou na ponta dos ps para alcanar os lbios dele. Pousou um beijo leve na boca carnuda. Um beijo que a fez ansiar por mais, e um desejo urgente tomou conta dela. Aproximou-se ainda mais, procurando instintivamente o calor do corpo forte e rgido. Ele era como o sol, irradiando calor.
	Voc me faz sentir viva novamente  sussurrou, depositando pequenos beijos no rosto msculo, sentindo a tenso crescente nos msculos da mandbula e do pescoo dele. Notou que Gareth travava uma luta interna.
	E voc me deixa louco  ele confessou, com voz rouca. Ento, segurou-a com ambas as mos pelos ombros, impedindo-a de chegar mais perto.
	Sabe o que est fazendo?  indagou, com a voz carregada de desejo.
	No.
A sinceridade de Stacy excitou-o ainda mais. Ele a olhou durante um longo instante, ento falou:
	Se acontecer algo entre ns, ser apenas sexo, est claro?
Ela tentou pensar, controlar o prprio impulso, mas era impossvel. Uma parte dela, forte e insistente, queria absorver o calor maravilhoso que o corpo dele exalava. A outra parte queria entregar-se a ele, a fim de que o vazio que lhe causava tanta dor pudesse ser preenchido e apaziguado.
No sabia como expressar tais sensaes em palavras. Sabia, apenas, que ele agora precisava tanto de seu toque quanto ela de seu calor.
	E, para voc, est bem claro?  ela perguntou, imaginando se ele compreendia as prprias necessidades ou se, por
neg-las por tanto tempo, no conseguia mais reconhec-las.
Ela inclinou a cabea para trs, procurando identificar a expresso nos olhos sombrios.
	Muito claro.
Ele a encarou como se as respostas para suas dvidas estivessem guardadas nas profundezas dos olhos castanhos. O corao de Stacy batia descompassado, e seu corpo todo tremia enquanto esperava que Gareth desse o prximo passo. Naquele instante, ela soube que, seja l o que houvesse entre eles, seria algo muito mais forte que um desejo momentneo e que havia esperado por isso toda sua vida.
As mos de Gareth correram pelos braos dela at chegar aos pulsos, ento passaram pela cintura e subiram at encontrar os seios voluptuosos.
Stacy deu um gemido e apertou o rosto contra o peito msculo. Fazia tanto tempo desde que ela experimentara pela ltima vez as delcias de uma paixo, que se deixara levar sem se preocupar com responsabilidades e cobranas.
	Somos dois loucos  ele afirmou, ao inclinar o rosto e depositar um beijo mido na base do pescoo dela.
E, no momento seguinte, ele a envolveu em um abrao. Stacy agarrou-se trmula aos ombros fortes, e Gareth a puxou para mais perto, acomodando cada canto, cada ngulo de seu corpo ao dela.
Seus lbios se encontraram, mas dessa vez no foi um beijo tmido, hesitante. A lngua dele explorava a boca de Stacy com intimidade, exigindo da parte dela a mesma entrega e paixo. Todo desejo reprimido eclodiu naquele beijo, e Stacy soube que, mais do que o encontro de dois corpos ansiosos, aquele era o encontro de duas almas.
A doura com que ela se entregava provocou em Gareth uma exploso de fogo e paixo. Por um momento, ele tambm se entregou, depois, com um movimento sbito, afastou-a ligeiramente.
Ficaram ali abraados, as respiraes entrecortadas preenchendo o silncio e testemunhando os desejos no satisfeitos.
Gareth  ela murmurou.
A voz suave despertou-lhe novamente a volpia. Parecia impossvel afastar-se de Stacy. Precisava dela como do ar que respirava.
	No  ele disse, com a voz rouca, cheia de luxria e
desejo.
Um sorriso escapou dos lbios de Stacy. Ela inspirou fundo e os seios fartos e macios acariciaram o peito de Gareth.
Procurando se afastar, ela deu um passo para trs. Em seguida, escorregou as mos pelo peito forte e, ento, deixou-as cair ao lado do corpo. Os olhos castanhos, termmetro de suas paixes, mostravam seu desapontamento.
Gareth apertava as mos nervosamente, procurando controlar a vontade de beij-la mais uma vez. Ele tambm deu um passo atrs e colocou ambas as mos nos bolsos da cala jeans.
	Sinto muito  ele falou. A dor de cabea retornara.  Isso no devia ter acontecido.
	Deve ter sido por causa do que passamos juntos no fim de semana nas montanhas  ela tentou encontrar uma explicao.
	Ser mesmo?  O tom de voz sarcstico erguia uma barreira de defesa contra os sentimentos que ele no queria admitir. Se fossem continuar a trabalhar juntos, teria de encontrar uma maneira de no ficar mais a ss com a assistente.
	Pessoas que enfrentam juntas uma crise geralmente acabam se sentindo mais prximas  Stacy concluiu.
A seriedade dela, to doce e repleta de boa-f, fez Gareth envergonhar-se de seu cinismo.
	Tenho de ir  ele falou e virou-se para sair.
Stacy acompanhou-o at a porta.
Gareth a olhou fixamente antes de partir, aborrecido por razes que ele mesmo no conseguia explicar.
	Eu deveria ter imaginado que isto poderia acontecer. Sua voz, seu sorriso, sua alegria... estava tudo ali em minha frente. Voc  real, e eu a quero  ele disse de repente.
	Sinto o mesmo...
	No  para concordar comigo.  Sentia-se selvagem, prestes a explodir. Ele precisava sair dali.
	Desculpe-me.
	O mais estranho  que eu no havia percebido isso at hoje de manh. Durante o parto, v-la em minha cama despertou-me o desejo de possu-la, mas no era uma coisa real. Agora, com voc aqui...  Ele meneou a cabea, sem entender os prprios sentimentos. Ento, virou-se e foi embora.
Durante todo o caminho, no conseguiu esquecer a imagem dos olhos escuros, que pareciam enxergar sua alma. No gostava da sensao, sentia-se como se estivesse encurralado, sem ter para onde fugir.
Pior, no tivera a menor vontade de afastar-se dos braos de Stacy. Fora arrebatado pela msica e pelo bater frentico de seus coraes.
O desejo quente, doce e urgente tomou conta de seu corpo.
Gareth bocejou preguiosamente e acomodou-se numa das cadeiras do ptio da casa de seus pais. Tivera uma pssima noite. Era o aniversrio de sua me, e ele viera almoar e trazer-lhe uma pulseira de ouro de presente. Ela a usava agora, junto com os brincos de diamantes que o marido havia lhe dado.
	Ento, o que acham?  ela perguntou, dando uma ltima pincelada de tinta branca na tela que pintava. Afastou-se ligeiramente e olhou, ansiosa, para os dois homens.
	Muito interessante  o marido elogiou-a.
Gareth estudou o quadro.
	Gosto da maneira como retratou o estbulo, assim meio inclinado para o lado.
	Oh, est inclinado?  Ela se aproximou, examinando melhor o trabalho.
	Quem sabe se voc usasse os culos...  O pai de Gareth riu.
	J tentei us-los, mas o mundo me pareceu surrealista, cheio de linhas rgidas e cores bem definidas. Prefiro ver tudo enevoado,  mais romntico.  Ela comeou a limpar os pincis e a palheta.  Como est Stacy e o beb?  perguntou ao filho, mudando de assunto.
		Bem.
Como a me esperasse mais algum comentrio, ele prosseguiu:
	Quase no nos vemos. Temos muito trabalho no escritrio.
	Falei com Shirley na sexta-feira. Gareth ficou tenso.
	Ela me contou que Stacy deu  luz em sua casa durante a nevasca!
Como uma criana pega fazendo traquinagens, ele foi obrigado a contar toda a histria. Falou do modo mais conciso e rpido possvel.
	Ento, vocs ficaram presos pela neve durante trs dias?
Ele sabia que a me no se contentaria at conhecer todos os detalhes.
	De quinta  noite at sbado pela manh, quando a estrada foi liberada.
	Sei...  ela murmurou, lanando um olhar significativo ao marido.
	No aconteceu nada de mais  Gareth insistiu, com modstia.
	Lembro quando levei sua me ao hospital, para dar  luz voc  o pai interveio, com um sorriso nostlgico.  Foi durante um concerto para levantar fundos para o programa de bolsas de estudos da orquestra sinfnica. Ela se recusou a sair antes do intervalo.
	Recordo que voc ficou muito irritado, querido, mas eu no podia simplesmente me levantar no meio de um concerto. Seria muita falta de educao!
Os dois homens trocaram um olhar e caram na risada. Ela olhou de um para o outro, e o cenho franzido atenuou-se, transformando-se numa expresso repleta de afeio.
	Estou pensando em tomar aulas de arco e flecha  ela informou, mudando de assunto novamente.  Como uma daquelas divindades gregas. Como era mesmo o nome?
	Diana, a caadora  respondeu Gareth.
	No essa, aquele outro...
	Cupido tambm era arqueiro  o marido falou.
	Esse mesmo!  Ela bateu palmas, excitada.
Durante todos esses anos, Gareth fora testemunha dos sorrisos carinhosos trocados pelos pais, evidenciando toda uma vida de companheirismo e amor. Sentiu como se uma flecha penetrasse seu corao. Seus pais compartilhavam uma relao maravilhosa, e ficava feliz por eles. Isso no queria dizer que queria o mesmo para si.
O rosto de Stacy surgiu em sua mente. Seu sorriso en-corajador ao dizer-lhe que se lembrasse dos bons tempos e deixasse as tristezas para trs. No era assim to fcil...
Ento, recordou-se de como fora fcil tom-la nos braos, beij-la e receber toda a doura que ela oferecia em troca. Conseguira esquecer o passado naqueles momentos insensatos que passara nos braos dela.
Ele se ps em p, inquieto com as emoes que teimavam em reviver em seu peito. No gostava disso. Paixo... amor... tudo fazia parte do passado, e ele no queria se lembrar disso.
	J vai embora? Ainda  cedo!  a me disse.
S ento notou que estava parado no meio do ptio, com os punhos fechados, parecendo pronto para uma briga.
	Sim  respondeu, procurando parecer menos tenso.  Tenho de estudar um caso, antes de ir para o tribunal amanh. Obrigado pelo almoo.  Ele beijou a me no rosto e apertou a mo do pai, antes de partir.
Ao dirigir de volta para casa, deu-se conta de que quem no o conhecesse bem diria que estava fugindo. Fugindo de uma mulher e um beb? Ora, imagine!


CAPTULO VI

	Ainda no acredito que Gareth tenha deixado voc trazer Billy ao escritrio!  Shirley exclamou.
Stacy balanava o bero com os ps. Seu filho dormia profundamente debaixo da escrivaninha.
	Billy j pesa cinco quilos, vou matricul-lo na creche.
	Ser melhor para ele continuar perto de voc. Aproveite enquanto pode.
	E voc, quando vai sossegar, casar-se e ter filhos? Por falar nisso, como vai o piloto?
Shirley passou a mo pelos cabelos loiros.
	Terminamos.  Ela fez uma careta.  Deve ter alguma coisa errada comigo. Quando o" sujeito comea a se mostrar interessado, desisto. Ele me convidou para conhecer os pais dele. Fiquei apavorada!
	Quando o homem certo aparecer, no pensar duas vezes  Stacy falou, rindo ante a expresso de dvida da amiga.
	Tomara!
Stacy pensou nos prprios problemas. Gareth ganhara a causa para seu cliente, aps um julgamento tenso e rduo. Agora, comparecia ao escritrio todos os dias. Eles mal se falavam. Na maioria das vezes, ele usava o intercomunica-dor, em vez de falar diretamente com ela, e mantinha a porta entre as salas fechada.
Com certeza, era uma atitude sbia. Daria a ambos tempo para refletir sobre aquela loucura.  claro que havia a possibilidade de no superarem o fato, ento, o que aconteceria?
Tenho de ir.  Shirley ficou em p e espreguiou-se.
Stacy sentiu-se tentada a contar para a amiga que Gareth a visitara no apartamento, porm lhe pareceu um assunto muito ntimo para compartilhar com algum. Alm do mais, no queria ouvir a risada de Shirley, quando confessasse o que acontecera.
Aps a colega ter sado, Stacy relembrou aqueles momentos pela centsima vez. Passou de leve os dedos sobre os lbios, lembrando-se de como se sentira ao ser beijada por Gareth. No podia apaixonar-se pelo chefe, no seria correto...
A campainha do telefone tirou-a de seus devaneios. Voltou a balanar o bero com o p, a fim de que o beb no acordasse.
	Bom dia, Clelland e Davidson.
	Al, Stacy?  Era a me de Gareth.
	Sim, como vai sra. Clelland?
	Estou pssima. Sabia que eu torci o tornozelo? Imagine, bem agora que estou organizando um leilo para sbado.
	Oh, que azar!  murmurou Stacy, em solidariedade.
	 um desastre. - Na verdade, a voz da senhora soava bastante animada.   por isso que estou ligando. Gostaria de saber se voc poderia me ajudar nesse fim de semana. Eu no pediria se no estivesse to desesperada! No tenho outra pessoa a quem recorrer.
	Nesse final de semana?  repetiu Stacy, enquanto procurava uma desculpa.
	O dinheiro do leilo ir para o programa de literatura infantil do bairro. Teremos coisas muito boas. Um amigo de Gareth doou at um automvel antigo. No  excitante?
	E, sim.
	Ento, concorda em passar o fim de semana aqui em casa? Sei que no deveria estar solicitando sua ajuda, mas meu filho contou que  muito eficiente... Por favor, diga que vir.
	Bem, eu...  Stacy no sabia o que responder.
	Gareth est a?  a me dele perguntou.  Quero falar com ele. Seria timo se voc pudesse vir amanh.
O dia seguinte seria sexta-feira, e Stacy vinha esperando por aquele fim de semana ansiosamente. Ela, com certeza, no tinha inteno de pass-lo na casa da me de Gareth.
	Sinto muito sra. Clelland, mas eu tenho um beb para cuidar.
	Sim, eu sei. E  claro que esperamos que ele venha tambm. Agora, diga-me, meu filho est a? Deixe-me falar com ele  a senhora ordenou, sem esperar por uma resposta.
	Vou passar a ligao.  Stacy, sentindo-se presa numa armadilha, chamou o chefe pelo intercomunicador.
Cinco minutos mais tarde, ele entrou em sua sala.
	Que tal passar um longo final de semana no campo?  indagou.  Vamos amanh e voltamos na segunda-feira.
	No sei.  Ela tentou identificar a expresso nos olhos dele.
At que, pensando bem, Stacy gostaria de ver o lugar onde ele crescera. Entretanto, durante essas duas ltimas semanas, haviam conseguido recuperar o equilbrio interior necessrio para continuar a trabalhar juntos. Talvez fosse melhor no arriscar.
	No precisa temer. Controlarei meus instintos selvagens.
	No estou com medo.  s que... com o beb...
	Se ele fica bem aqui no escritrio, tambm ficar na chcara.  Ele hesitou.  Mame necessita mesmo de ajuda.
Stacy considerou os prs e os contras e decidiu que no havia nada a temer, com os pais dele e o beb na mesma casa.
	Est bem. Se acha que poderei ser til.
	Certamente. Mame a far trabalhar bastante. Aconselho-a a levar sapatos e roupas confortveis. Alm disso, nossos convidados se sentiro mais  vontade se as anfitris usarem roupas menos formais.
Ela se sentiu tentada a lembr-lo de que no era uma anfitri, e sim uma empregada. Mas, s vezes, at ela ficava confusa quanto ao papel que comeava a desempenhar na vida dele.
Gareth observou Stacy de soslaio, enquanto guardava as malas dela no porta-malas do carro. Ele fixara a ca-deirinha do beb no banco detrs. Stacy colocara o cinto de segurana em Billy e agora procurava no parecer uma superme preocupada.
Logo se juntavam ao trfego intenso de carros que tentavam deixar Washington.
	Levaremos umas duas horas para chegar l  informou Gareth.  Geralmente, levo a metade do tempo.
	O congestionamento est maior do que eu esperava.  Ela no conseguiu pensar em nenhum outro assunto, ento permaneceu em silncio, observando os carros que tentavam escapar para o campo.
Cinco quilmetros adiante, conseguiram desenvolver uma velocidade maior.
Algumas casas podiam ser vistas atravs das cercas. Stacy ps-se a imaginar como seria a casa dos pais de Gareth. Seria mesmo uma chcara ou a idia que um casal rico tinha de uma propriedade no campo? Vinte acres de terra, com uma piscina e alguns cavalos?
A tenso entre eles crescia, ou seria apenas sua imaginao? Estava ali como empregada, no como convidada, amiga ou algo mais. No havia motivo para ficar animada com a viagem.
Quando Gareth contornou a entrada circular, que dava em frente  residncia da famlia Clelland, Stacy ficou atnita. Aquilo que eles chamavam de chcara era praticamente uma fazenda, dominada por uma manso de tijolos aparentes, com dois andares.
	Esta casa ... deslumbrante!
	Tem cento e cinqenta anos. Meus avs a compraram e passaram a maior parte da vida restaurando-a. Minha av at hoje manda alguns objetos que compra em viagens, e mame fica louca sem ter onde guard-los. Acho que  por isso que todo ano ela faz um leilo, s para se livrar de algumas peas.
Stacy no disse uma palavra. Pegou Billy no colo, enquanto Gareth retirava a bagagem do porta-malas. Um homem magro e alto, vestido de preto, desceu os degraus da frente da casa.
	Sr. Gareth, bem-vindo! Deixe-me ajud-lo com isso  falou, pegando as malas.
	Stacy, este  Jacob. Ele providenciar qualquer coisa que precise.  Gareth se voltou para o homem mais velho.  A sra. Gardenas veio ajudar mame com o leilo. Ser que sua sobrinha poderia cuidar de Billy para ns?
	Kim vai adorar. Na verdade, a sra. Clelland j conversou com ela.
Quer dizer que eles haviam arrumado uma bab sem consult-la? Stacy no estava de acordo. Billy ficaria a seu lado!
	A sra. Gardenas certamente dar a ltima palavra. Pea para Kim vir v-la mais tarde.
	Sim, senhor.
	Ela tem experincia com bebs pequenos, no ?
	Claro, a irm mais velha tem trs crianas, e Kim ajudou a cri-los. Alm disso, est estudando psicologia infantil na faculdade.
	E est indo bem? Parece que teve problemas com um professor no ano passado  indagou Gareth.
	Ela s tira notas altas!  o tio exclamou, orgulhoso.
	timo.  Gareth voltou-se para Stacy.  Vamos?
Ela assentiu com um movimento de cabea e seguiu-o em direo a casa. O interior da manso era como imaginara. Havia mrmores, bronzes, lustres de cristal... Os sofs eram antigos, as cadeiras possuam o encosto trabalhado com formato de lira e algumas mesas de poca completavam a decorao. Uma empregada de uniforme preto mantinha-se parada junto ao corredor lateral.
	Sua me sups que a sra. Gardenas ficaria mais bem instalada nas dependncias infantis.  Jacob inclinou a cabea em direo ao largo corredor, indicando que Stacy deveria seguir na frente.
	Vou procurar mame  Gareth disse.  Voltarei a me encontrar com voc dentro de meia hora.
	Est bem.  Ela se apressou em direo aos aposentos.
	 a ltima porta  direita  Jacob informou.
Ela abriu a porta do quarto e entrou. As paredes eram pintadas num tom verde-claro, enfeitadas com frisos de madeira, pintados de branco. Os mveis tambm eram brancos, e as cortinas e as almofadas confeccionadas com tecido de estampa floral rosa e verde faziam o quarto parecer um jardim.
Perto da janela, havia uma rea com piso de lajotas, repleta de plantas ornamentais e flores. Margaridas brancas e amarelas, arrumadas com destreza em vasos de cermica natural, decoravam as trs mesinhas do quarto. A volta da cama com dossel, pendia um mosquiteiro de gaze branca, adornado com um drapeado do mesmo tecido da colcha. Do lado oposto, havia uma porta aberta, que dava para o quarto do beb. O bero de madeira pintado de branco e o trocador ficavam junto  parede. A cadeira de balano e uma mesa estavam colocadas junto  janela, que dava vista para o gramado e a piscina. A distncia podia-se ver um estbulo e alguns cavalos pastando. Um grande trator estava estacionado ao lado, e, mais alm, avistava-se uma extensa plantao de milho. Era uma fazenda produtiva, e isso a fazia sentir-se mais  vontade.
	Mandarei Maudie trazer sua bagagem  afirmou Jacob, com um sorriso, e afastou-se.
Stacy colocou a bolsa sobre uma das mesas, ento levou Billy at o quarto de beb e trocou-lhe a fralda. Ele dormira o caminho todo, portanto estava bem desperto. Ela se sentou na cadeira de balano e ficou brincando com o filho.
Instantes depois, a empregada de uniforme preto, que Stacy vira na sala, bateu  porta e entrou.
	Meu nome  Maudie, vim arrumar suas coisas. Se disser o que gostaria de vestir para o jantar, providenciarei para que seja passado a ferro. A famlia geralmente se rene na biblioteca entre seis e sete horas da noite.
Como aquele seria um fim de semana de trabalho, Stacy trouxera roupas formais.
	Usarei o conjunto preto  respondeu.
Maudie guardou as roupas com extrema eficincia. Aps separar o conjunto pedido por Stacy, ela selecionou uma blusa de seda branca.
	No h necessidade de vestir o casaco, a biblioteca  bem aquecida  a empregada a avisou.  A senhora trouxe alguma jia? Ficaria muito bem com a saia e a blusa. A sra. Clelland disse que pode lhe emprestar qualquer coisa de que precise.
Stacy encarou-a de queixo erguido.
	Trouxe minhas prprias coisas, obrigada.  No tinha a menor inteno de pegar seja l o que fosse emprestado,
como uma parente pobre em visita.
Aps tomar um banho rpido e trocar de roupa, Stacy se maquiou com um pouco mais de capricho que o habitual. Esperava que ningum notasse que suas mos estavam trmulas. Sorriu ao ver o prprio reflexo no espelho.
No estava l para impressionar os futuros sogros, e sim para trabalhar. No deveria se esquecer disso.
Quando Gareth bateu  porta, exatamente s seis horas da tarde, o estmago de Stacy se contraiu. Ela pegou o filho no colo e segurou-o fortemente, como um escudo.
	Entre.
Gareth abriu a porta. Ele vestia cala preta e camisa azul, que fazia seus olhos pareceram pedacinhos do cu de vero.
	Gostaria de juntar-se a ns?  ele a convidou de maneira formal.
Ela concordou, com um movimento de cabea.
Billy sorriu para Gareth e esticou as mozinhas, surpreendendo a ambos. Stacy observou, com a respirao suspensa, enquanto Gareth deixava o beb pegar seu dedo indicador e lev-lo  boca.
Aps experiment-lo, Billy largou o dedo e balanou os braos alegremente. Queria que ele o pegasse no colo. Felizmente, Gareth pareceu no entender o gesto da criana.
	Mame est louca para conhecer Billy  disse, voltando-se para Stacy e pousando, imediatamente, o olhar sobre os-lbios convidativos.  Ela acha que a estou privando, deliberadamente, do direito natural de ser av.
Stacy umedeceu os lbios, lembrando-se da sensao da boca de Gareth sobre a sua. s vezes, parecia-lhe mais um sonho do que realidade.
	A maioria das mes se sente assim.
	Voc tambm?  Ele sorriu, sarcstico, como sempre fazia quando a conversa tomava rumos pessoais.
	Provavelmente, quando Billy crescer.
	Mame tambm tentar bancar o cupido. No se deixe impressionar.  E, com essas palavras, ele fez um sinal para que ela o acompanhasse.
Concentrando o olhar nos ombros largos, espantada demais para comentar qualquer coisa, Stacy sentia o peito apertado. Por um breve momento, desejou que Gareth fosse o pai de Billy. E, se ele fosse o pai de seu filho, seria tambm seu marido...
Os pais de Gareth aguardavam-nos na biblioteca. Gareth fez as apresentaes.
	Esta senhora, com o tornozelo machucado e convenientemente plida,  minha me. O cavalheiro de smoking  meu pai.  o nico homem que conheo, fora os atores de cinema, que pode vestir um smoking sem ser confundido com um garom.
Stacy examinou o casal de idade, curiosa para ver como reagiriam  brincadeira do filho. Eles sorriram.
	Estamos satisfeitssimos por ter aceito nosso convite  afirmou a sra. Clelland.
O marido, por sua vez, adiantou-se e, aps apertar a mo da convidada, indicou-lhe uma cadeira ao lado da esposa, que permanecia reclinada como uma musa de cinema. Stacy tinha a impresso de que a qualquer momento ouviria um diretor gritar: "luzes, cmera, ao!".
	Oh! Olhe s para esse beb. Que lindinho!  A sra. Clelland passou o dedo pelo rosto de Billy. Ele, como de costume, agarrou-lhe o dedo e se ps a chup-lo.  Parece voc quando era criana  falou", rindo, dirigindo-se ao filho.
Gareth ficou surpreso, ento comeou a rir.
	Tenho a impresso de que a maioria dos bebs se parece nos primeiros meses de vida.
	Nada disso  insistiu a me.  Molly, por exemplo, sempre teve aquele ar teimoso, desde' que nasceu. Nossa filha se casou com um fazendeiro vivo e mora na costa oeste. Tm duas meninas.
	Que timo!  exclamou Stacy, com sinceridade, ouvindo atentamente enquanto a anfitri lhe contava a histria da famlia.
	Como meu genro no quer mais filhos, nossa esperana de ter um neto repousa em Gareth.
	E o que diz Molly disso tudo?  Gareth interveio.
	Por ela, j teriam uma dzia de crianas.  A sra. Clelland riu alto e bateu palmas.
O barulho assustou o beb, que prendeu a respirao e comeou a chorar.
	Oh, eu assustei o pequenino... Deixe-me segur-lo.  A sra. Clelland tomou Billy dos braos de Stacy e segurou-o junto ao peito com carinho.
Stacy ficou preocupada, pois o filho poderia babar no elegante vestido de seda da me de Gareth.
	Deixe-me pr esta fralda em Billy.  Ento, Stacy prendeu o tecido de algodo sob o queixo do beb.
O rumo da conversa mudou para assuntos gerais. Falaram sobre o tempo e o efeito que tinha sobre os animais e as plantaes.
	No jantar, teremos verduras de nossa prpria horta  prometeu a dona da casa.
Stacy aproveitou para lhe perguntar sobre suas obrigaes naquele fim de semana.
	Preciso que voc coloque um nmero em cada pea e depois anote o preo de venda ao lado do nmero na lista do caderno.
O jantar foi anunciado. Stacy pegou o filho de volta, que, a essa altura, brincava com o colar de prolas da sra. Clelland.
	Tomei a liberdade de pedir que trouxessem o velho carrinho de beb do poro  a anfitri disse, enquanto se sentava na cadeira de rodas, ajudada pelo marido.  Pensei que, assim, eu poderia ajudar tomando conta de Billy, enquanto vocs jovens terminam os preparativos para o leilo.
Ao entrarem na sala de jantar, Stacy deparou com um carrinho limpo e bem-arrumado, forrado com lenis de algodo e um cobertor azul, com cavalinhos bordados.
	Que lindo!  exclamou, encantada com a considerao da anfitri.
	Foi de meus filhos.  to prtico! Voc v, ele se encaixa sobre rodas, portanto podemos us-lo como cesto ou como carrinho.
	 muito bonito  foi tudo que Stacy conseguiu dizer.
	Quanto ao leilo  a senhora prosseguiu, enquanto se sentavam ao redor da mesa oval de madeira polida , voc ficar no comando. Gareth e os empregados faro o que voc mandar.
Stacy deu uma olhada para o chefe para ver como ele reagia. Um sorriso preguioso surgiu nos cantos dos lbios sensuais. Quando ele falou, sua voz soou divertida:
	Mame acha que os homens foram criados apenas para seguir ordens.
	Claro que sim!
	Quem recolher o pagamento das peas?  Stacy indagou.
	Jacob ou Maudie. Eles entregaro para voc, que ir conferir o valor e guardar. A maior parte dos pagamentos ser feita em cheque. Gareth por tudo no cofre.
	E papai, no vai ajudar?
A me dirigiu-lhe um olhar altivo.
	 claro que sim. Ele cuidar de mim.  Ento, voltando-se para Stacy, continuou:  Mais tarde, haver um buf. S preciso que voc verifique se os convidados esto sendo bem servidos.  Ela fez uma pausa.  Bem, acho que  tudo. Se surgir alguma dvida faa como achar melhor. Tenho certeza de que no haver problemas.
Stacy desejava sentir-se to confiante quanto a anfitri. A sra. Clelland parecia crer que ela costumava organizar leiles de caridade em seu tempo livre. Fez questo de esclarecer que aquela era a primeira vez.
	Estarei por perto para aconselh-la no que for preciso  a me de Gareth tranqilizou-a.
O sr. Clelland sorriu para Stacy. Ela retribuiu o gesto, instintivamente gostando do homem mais velho. Ele aceitava a personalidade dominante da esposa como uma de-ferncia que de maneira alguma o diminua como homem. Parecia compartilhar a mesma inteligncia e a sabedoria do filho, sem, no entanto, utiliz-las como barreira para seus sentimentos. A noite foi bastante agradvel, e, por volta das dez horas, Stacy sentiu-se cansada e ansiosa para ficar sozinha em seu quarto. Maudie j havia levado Billy e o colocado no bero.
Acho que Stacy quer descansar  Gareth falou, num intervalo da conversa.  Ela j respondeu perguntas demais por uma noite.
	Estou to encantada por ter novamente um beb nesta casa! Amanh, gostaria de tomar conta dele, posso?
	 claro que sim.
	Esta casa ficou to alegre no Natal, com nossas netas... Se ao menos Gareth compreendesse como eu e o pai ficaramos felizes se ele tivesse filhos...
Stacy no pode evitar o rubor que tomou conta de suas faces ante o olhar que a senhora lhe dirigia. Gareth caiu na risada, claramente divertido com a situao.
Bem que ele a alertara, mas, com certeza, a dona da casa no estava realmente pensando que ela seria um bom partido para o filho. Stacy procurou os olhos acinzentados, porm Gareth j havia se virado para a janela, a fim de admirar o cu estrelado.
	Bem, se me do licena, vou me retirar. Boa noite a
todos  Stacy disse e comeou a deixar a sala.
Gareth fez o mesmo e a alcanou no final do corredor. Caminharam em silncio pelo piso de carvalho at chegar s dependncias reservadas  visitante.
	No deixe mame se intrometer em sua vida. Se necessrio, seja dura com ela.
Stacy duvidava que a sra. Clelland pudesse ser impedida de dar sua opinio acerca de qualquer assunto. A mulher parecia fazer as prprias leis e normas de educao, embora fosse muito agradvel e gentil.
	Ela  uma pessoa adorvel. Meio autoritria, mas, mesmo assim, adorvel.
	Sim... Ela gosta das pessoas, porm tem uma certa tendncia-a envolv-las em seus projetos, e a fica to difcil nos livrarmos quanto escapar de um furaco. Minha irm se mudou para o oeste, e eu fugi para a cidade.
Stacy ficou encabulada ao ouvi-lo comentar um assunto to ntimo. Ele riu e ps a mo debaixo dos fartos cabelos castanhos, massageando-lhe a nuca.
	No se preocupe, estarei por perto para salv-la, se necessrio.
Ela sorriu, mais segura com aquelas palavras, e entrou no quarto. Ao fechar a porta, imaginou quem a salvaria de Gareth. Rapidamente, tirou a roupa e vestiu uma camisola de algodo, abotoada na frente. Sentou-se na cadeira de balano e amamentou o filho, com a mente concentrada no homem que deixara no corredor.
Havia perguntas demais sem respostas. Se conseguisse ficar sozinha por alguns momentos com a me dele, ser que ousaria perguntar sobre o passado? E, caso o fizesse, ser que a sra. Clelland lhe contaria algo? Gareth era to fechado que ela duvidava que algum dia ele houvesse confessado a algum estar apaixonado. Mas, com certeza, j estivera. Aquela casa nas montanhas fora construda para uma famlia. Sim, se tivesse oportunidade, ela faria algumas perguntas  me de Gareth.
Aps alimentar o filho, trocou-lhe a fralda e colocou-o de volta ao bero. Billy agarrou o cobertor com uma das mos e ps o dedo na boca, fechando os olhinhos em seguida. Para Stacy, aquele era o beb mais lindo do mundo.
Retornando a seu prprio quarto, ela se deitou e deixou os pensamentos voarem livremente, enquanto esperava o sono chegar.
Imagens de como seria a vida ao lado de Gareth povoavam seu crebro. Por um momento, deixou-se levar pela fantasia, porm a realidade intrometeu-se, antes de chegar  parte em que era beijada e abraada at ficar sem flego. Balanando a cabea a fim de afastar os pensamentos inconvenientes, ela fechou os olhos e tentou dormir.
O sbado amanheceu ensolarado. Stacy vestiu uma cala comprida e uma blusa rosa e, aps colocar sandlias confortveis, saiu do quarto. Maudie indicou-lhe o caminho para o ptio, onde a mesa estava posta para o desjejum.
A sra. Clelland j se encontrava acomodada em sua cadeira de rodas, com a perna esticada para cima, a fim de diminuir o desconforto devido ao tornozelo torcido.
	Dormiu bem?  a senhora indagou.
	Sim, obrigada  mentiu Stacy, que acordara diversas vezes durante a noite, sem motivo aparente, a no ser os sonhos ardentes em que Gareth a acariciava com paixo.
	Os homens esto jogando tnis. Daqui a pouco, viro juntar-se a ns.
Stacy j reparara na figura atraente e forte que se encontrava na quadra junto com o pai. O que faltava em juventude ao mais idoso, sobrava em estratgia, obrigando o filho a correr de um lado para o outro.
	Eles jogam muito bem  Stacy elogiou-os, afastando o olhar com dificuldade do corpo msculo de Gareth.
	E verdade.  A sra. Clelland observou-a, enquanto Stacy servia-se de um copo de suco de laranja e caf, no aparador.
O rubor subiu s faces de Stacy, e ela temeu que a me de Gareth tivesse notado sua reao, ao v-lo de short na quadra. Pegando o copo e a xcara nas mos, foi sentar-se na frente da anfitri.
	Acho que voc seria a mulher perfeita para meu filho.
	Desculpe-me!?  Stacy no tinha certeza de ter ouvido corretamente.
	Eu a deixei chocada.  A sra. Clelland riu, divertida.  Todas as mes gostam de bancar o cupido. Espere s at Billy crescer. Voc ter uma opinio veemente sobre qual  a garota certa para ele.
Stacy procurou deixar o assunto bem claro.
	Gareth  meu chefe. Posso afirmar-lhe que no h, quer dizer, que ns no...
	Oh, tenho certeza de que nada aconteceu.  A expresso da dona da casa era afetuosa.  Meu filho  to circunspecto que s vezes desejo que seja capaz de fazer algo ilegal ou indecente.
	Ontem, ele ultrapassou o limite de velocidade na estrada  ela o defendeu.
	E mesmo?  Os olhos da sra. Clelland brilharam.  Poderia servir-me outra xcara de caf, querida?
	Claro.  Stacy encheu a xcara e voltou a se sentar.
O vento afastava as mechas de cabelos castanhos de suas faces e refrescavam o calor provocado pelos olhares astutos da anfitri. Ele tambm carregava as palavras dos homens que se cumprimentavam ante uma jogada particularmente bem executada.
	No Natal passado, completou trs anos que a noiva de Gareth morreu  a me dele disse, como se falasse consigo mesma.
Stacy olhou-a, surpresa.
	Ele ficou desesperado. Faltava apenas uma semana para o casamento, e ela estava esperando um beb, o que fora uma surpresa, j que Ginny pensava que no podia ter filhos. Naturalmente, estvamos todos imensamente feliz. Naquela poca, eu ainda no tinha netos.
	Como ela morreu?
	Acidente de carro. O outro motorista dirigia bbado.
	Que horrvel!  Stacy pressionou a mo contra o ventre, sentindo uma pontada de agonia.
Ento, era esse o motivo da solido de Gareth. A noiva grvida e seu filho haviam morrido, e ele nunca conseguira superar. Seu corao se condoa por ele.
	Foi terrvel, mesmo. Gareth tornou-se um solitrio. Eu j comeava a pensar que nenhuma mulher conseguiria romper a barreira qe ele ergueu, ento voc apareceu.  Ela sorriu alegremente.
	Sra. Clelland, acho que est imaginando coisas  Stacy falou, to gentilmente quanto possvel.
	No. Vi como ele a olhou na noite passada. Ele a v como mulher, e no como simples amiga ou funcionria.
	A senhora no entende. Ele me ajudou com o nascimento de Billy, e isso fez com que nos sentssemos mais prximos, mas foi apenas uma loucura temporria.
	A primeira desde que Ginny morreu.
	Mas ele j saiu com outras mulheres, eu o ouvi ao telefone.
	Sim... concordo. Ele  um homem sadio. S que com voc existe algo mais. H tambm carinho.. Riu, deleitada.  Eu no teria planejado nada melhor do que voc ter dado  luz praticamente nos braos dele.
A conversa estava ficando fora de controle.
	Oua, realmente a senhora est enganada.  A voz de Stacy falhou. Gareth dissera que a desejava, e os beijos que haviam trocado...
	Case-se com meu filho. Ele precisa de voc e de Billy. Precisa confiar de novo na vida, mas tem medo.
Gareth com medo? No podia acreditar nisso.
	Estou parecendo uma velha intrometida.  A sra. Clelland suspirou.  Provavelmente,  o que sou, mas prometa que o aceitar se ele a pedir em casamento... Meu filho  um homem honrado e tomar conta de vocs, se permitir. Estou lhe pedindo como me.
	No sei o que dizer.
	Diga que sim.  A me de Gareth olhou-a fixamente.   a nica pessoa que pode salv-lo da solido que o devora dia a dia. Faa-o sorrir novamente, Stacy, por favor.
	Eu... tentarei.  Stacy no via mal algum em prometer que o faria sorrir outra vez. No era como se estivesse prometendo seduzi-lo ou algo assim.
No momento em que os homens se juntaram a elas, a sra. Clelland era toda charme e sorrisos. Tudo parecia to irreal que Stacy teve dvidas se a conversa anterior havia mesmo acontecido. Talvez fizesse parte das fantasias que seu subconsciente estava produzindo nas ltimas semanas.
	Que tal uma partida de tnis?  Gareth perguntou a Stacy, ao terminar o desjejum.
	H anos que no fao isso. Voc ficaria entediado com o jogo.
	V, querida  a me dele a encorajou.  Maudie trar o beb para c, logo que ele acordar.
Sem mais argumentos, Stacy foi trocar de roupa e seguiu para a quadra de tnis, onde procurou lembrar-se do que aprendera.
	Voc joga bem  ele a cumprimentou, aps um ponto particularmente disputado.
Ela se sentiu orgulhosa por ao menos manter o jogo interessante.
	Mas voc  muito melhor que eu.
	Concordo  ele respondeu, ganhando o jogo por uma margem no muito grande de pontos.
Ao caminharem de volta a casa, Stacy notou como cada clula de seu corpo parecia revigorada. Quando levantou os olhos para Gareth, ele a observava, com uma expresso sexy e misteriosa nas profundezas dos olhos acinzentados. Ela tentou disfarar que ficou perturbada com o interesse dele.
	 sempre tmida assim ou s comigo?
	S com voc.
Nesse momento, Maudie surgiu com Billy nos braos. Stacy correu para pegar o filho, contente por ter uma distrao enquanto procurava voltar  realidade novamente. A conversa com a sra. Clelland levara seus pensamentos a direes proibidas.
	Fique aqui conosco  a anfitri convidou Stacy, notando que ela iria se retirar para amamentar o beb.  A amamentao  um ato natural e, atualmente,  aceito nos melhores crculos sociais com espontaneidade. Posso depois faz-lo arrotar?
	E melhor fazer o que ela diz, ou no a deixar em paz  advertiu Gareth.
	Bem, se no se incomodam.
A fim de deix-la mais  vontade, pai e filho se levantaram e se afastaram da mesa, passando a conversar sobre o milho que amadurecia nos campos. Stacy ouvia a conversa, enquanto o beb mamava avidamente. Lembrou-se de como seu pai e o av discutiam os detalhes do rancho onde viviam da mesma maneira.
Uma propriedade no campo era o melhor lugar para se criar uma criana. Gareth tivera uma infncia feliz, com certeza, cercado de cavalos e muitos amigos. Seus pais podiam ser um pouco excntricos, mas o amavam. Ele tambm amara uma mulher, e ela havia morrido.
Stacy admirou o perfil msculo, enquanto ele conversava com o pai e lembrou-se do ar desolado que tomava conta do rosto atraente quando Gareth baixava a guarda. A vida podia ser triste, quando a dor era a nica companheira. Ela sabia; j passara por isso.
Era bobagem pensar que um dia poderia preencher o lugar vazio que havia no corao de Gareth. Era o que ela desejava, mas apenas ele poderia abrir a porta de seu corao e deix-la entrar. Entretanto, prometera que o faria rir novamente, talvez essa fosse a chave de tudo. Abaixando os olhos, ela observou o filho, com doura. Com certeza, haveria uma maneira de conquistar o corao de um homem teimoso.

CAPITULO VII

Stacy s comeou a perceber os estratagemas usados pela sra. Clelland quando compreendeu que toda a tarefa de catalogao e etiquetagem poderia ter sido feita por ela mesma, da cadeira de rodas. Aps trs horas de trabalho ininterrupto, Stacy, Gareth, Jacob e o filho do administrador terminaram a tarefa.
Ela parou no meio da antiga garagem para carruagens e olhou a sua volta. Assim como a casa principal, esse local tambm fora restaurado.
O aroma de cera e.leo para madeira enchia o ar. Cada pea, aps ter sido limpa e polida, fora disposta como em uma sala de estar. Os objetos encontravam-se expostos sobre mesas e armrios, como se fizessem parte de uma cena domstica.
L fora, a empresa encarregada montara uma enorme tenda, sob a qual fora armada a mesa do buf. Mesinhas e cadeiras haviam sido dispostas sob as rvores frondosas. Champanhe, ponche de frutas, caf e ch, juntamente com uma grande variedade de biscoitos e sanduches, seriam servidos durante todo o dia.
 J est tudo pronto!  exclamou Gareth, sorrindo, satisfeito.
Ele parecia incrivelmente bonito de brmuda, tnis e camisa de algodo azul, que no se preocupara em abotoar. O suor brilhava no peito msculo, e algumas gotas ficaram presas nos plos escuros e anelados.
Stacy ansiava por passar as mos sobre eles, provar o sabor de sua pele, beijar os lbios que sorriam...
Vamos pedir a opinio de sua me?  Ela procurou afastar os pensamentos libidinosos.
	Tenho certeza de que ela vai adorar.
E foi o que aconteceu.
	Est perfeito, Stacy, perfeito! Voc fez um trabalho maravilhoso.  A sra. Clelland apertou a mo de cada um dos ajudantes em agradecimento. Aps Jacob e o filho do administrador terem sado, ela se voltou para o jovem casal.
	Nossos convidados j devem estar chegando.  melhor vocs tomarem banho e se arrumarem.
Enquanto percorriam o caminho pavimentado at a casa. Stacy deu uma olhada na cala bege que vestia, definitivamente inapropriada.
	Algumas pessoas viro para o jantar e outras, s para coquetis. Seis casais ao todo passaro a noite aqui.  A anfitri fez um sinal com as mos como se doze pessoas a mais na casa no fosse incomum.
Stacy levou a mo ao estmago, nervosa.
	Acho que vou jantar no quarto  disse.
	Nem pense nisso. Preciso que me ajude a receber os convidados. Sabe que no posso me mover com facilidade.
Gareth no pde conter uma risada. Seus olhos encontraram os de Stacy, enquanto abria a porta para o pai passar com a cadeira de rodas.
	Mame precisa muito de ajuda  ele sussurrou, depois que o casal mais velho entrara na casa.  Voc j deve
ter notado.
Stacy tentou conter o riso, mas foi impossvel, com aqueles olhos zombeteiros sorrindo para ela.
	Ah, j vi que notou  ele continuou.
Ela correu para dentro, antes que explodisse numa gargalhada.
	A que horas devemos nos apresentar, mame?
A sra. Clelland consultou o relgio de pulso.
	Deixe-me ver. So trs horas. Tomaremos os aperitivos no ptio s cinco, depois assistiremos ao pr-do-sol. Antes que me esquea, o jantar de hoje ser a rigor, mas amanh podem se vestir de maneira casual.
Stacy sentiu um aperto no corao. O que deveria usar numa noite formal? Ela mal havia chegado ao quarto, quando ouviu uma batida na porta. Abriu, esperando encontrar Maudie.
Era Gareth.
Ele entrou e fechou a porta.
	Sim?  perguntou, ansiosa para dar uma olhada no filho.
	Pode ir v-lo primeiro  ele respondeu, como se pudesse ler sua mente.
Ela saiu em direo ao quarto do beb e abriu a porta. Billy dormia junto a um ursinho marrom e branco, obviamente novo. Maudie lia uma revista na cadeira ao lado.
	Ol! Billy  mesmo um anjo, dormiu a tarde toda. Se no precisa mais de mim, irei at a cozinha ajudar com o jantar.
	Pode ir, Maudie, obrigada.
A moa se retirou, e Stacy ficou observando o filho por sobre a grade do bero. Como sempre, seu corao parecia derreter ao olhar para o beb.
	E um timo garoto  Gareth elogiou-o, em voz baixa, parando a seu lado.
	Obrigada  ela sussurrou, virando-se para sair.
Juntos, deixaram o recinto e fecharam a porta. Ficaram parados no meio do quarto de Stacy, um olhando para o outro. Gareth deu dois passos  frente e ficou bem prximo do corpo dela.
Incapaz de resistir, ela colocou a mo sobre o peito nu e passou os dedos sobre os plos encaracolados, procurando sentir cada msculo.
Gareth pegou-lhe a outra mo e colocou-a tambm sobre seu peito, ento fechou os olhos enquanto ela explorava o torso msculo. Stacy umedeceu os lbios e inclinou a cabea, tocando-o com a lngua. Ele prendeu a respirao e ficou imvel. Movendo os lbios at encontrar o mamilo, ela o lambeu e mordiscou-o.
Um tremor percorreu o corpo de Gareth. Ento, Stacy levantou o rosto e viu que os olhos acinzentados estavam escuros, com as pupilas dilatadas de desejo.
	Gareth?
	Sim  ele gemeu.  No sei o que quer de mim, mas a resposta  sim. .
Ela o abraou, colando o corpo no dele, acomodando-se como se suas vidas dependessem da combinao exata de curvas e ngulos.
	Cruze as pernas em volta de minha cintura  ele pediu.
E foi o que ela fez, enquanto Gareth a amparava.
Uma corrente eltrica pareceu explodir ante o contato
ntimo. Stacy podia senti-lo atravs do tecido da bermuda, rgido, firme, pronto para ela. Ele deu dois passos para trs e acomodou a ambos numa cadeira.
Gareth passou as mos pelas costas de Stacy, massa-geando-a e excitando-a ao mesmo tempo, sem deixar de fit-la nos olhos.
	Voc precisa descansar.
	No, estou bem  ela afirmou, com a respirao entrecortada.
Um leve sorriso surgiu nos lbios de Gareth.
	Eu nunca pensei que pudesse me sentir assim novamente. Esta tarde, foi um inferno. V-la, ouvir sua voz...
Ele trouxe as mos para a frente e envolveu os seios macios.
	Di?  perguntou, acariciando-os com gentileza.
	No... eu gosto.
	Eu tambm.  Ele hesitou, antes de pedir:  Posso provar?
Os seios de Stacy pareceram dilatar-se sob o suti.
	Sim.
Observou por um momento o suti de amamentao, ento abriu uma das abas.
	So lindos!  exclamou, num tom de voz doce e profundo.
Uma 'gota de leite formou-se no bico, e Gareth a apanhou com o dedo, levando-a a boca. Abaixou o rosto e esfregou a ponta da lngua sobre o mamilo.
A sensao penetrou pelo seio de Stacy, passou pelo abdmen e alojou-se no centro de seu prazer. Ela segurava a nuca de Gareth com uma das mos enquanto apertava-lhe o ombro com a outra.
	No foi para isso que vim aqui  ele murmurou, recostando-se na cadeira, sem, no entanto, afastar a mo do seio encantador.  Tem alguma roupa formal para vestir?
	Eu trouxe uma saia longa de veludo e uma blusa de renda  sussurrou.
	timo... Quero sentir seu gosto mais uma vez.
Ele esperou que ela fizesse um sinal em concordncia, antes de abrir a outra aba do suti. Em seguida, passou a acarici-la com a lngua. Stacy arqueou as costas instintivamente.
Segurando-a pelos quadris, Gareth a puxou para mais perto. Atravs do tecido de suas roupas, Stacy podia sentir que ele a queria tanto quanto ela. Moveu o corpo contra o dele, arrancando-lhe um gemido.
Ela segurou o rosto moreno nas mos e pousou os lbios nos dele. Beijaram-se e acariciaram-se de mil maneiras diferentes... Quando ela tentou deix-lo de torso nu, Gareth ajudou-a, jogando a camisa no cho, e ficaram ali, abraados um ao outro.
Era a experincia mais maravilhosa da vida de Stacy.
	No se mexa  ele pediu, enterrando o rosto nos cabelos castanhos.
Ela no moveu o corpo, exceto pelas mos que se entrelaavam nas mechas midas e sedosas dos cabelos de Gareth.
Quando ele, enfim, levantou o rosto, encarou-a em silncio por um longo tempo. Ela retribuiu o olhar da maneira mais firme possvel. Com dedos trmulos, Gareth afastou alguns fios de cabelos que cobriam o rosto de Stacy.
	Desculpe-me  ele murmurou.
	Tudo bem.
Ele deu um sorriso, zombando de si mesmo.
	No, no est tudo bem.  Gareth suspirou, irritado pela falta de controle.  Estou pior que um adolescente. Parece que penso com meu corpo, no com o crebro.
	Eu tambm  ela confessou.
	Precisamos conversar.  Consultou o relgio.  Mas agora no temos tempo. Daqui a pouco, a casa estar cheia de convidados. Na verdade, vim aqui para dizer que no se preocupe com a roupa. Os amigos de meus pais viro vestidos das maneiras mais diferentes possveis.
	Obrigada por me avisar. No tinha muita certeza do que usar.
Veio-lhe  mente que aquela era uma conversa estranha para se manter na posio em que se encontrava. Stacy permanecia sentada no colo de Gareth, os seios roando contra o peito moreno, os braos em volta de seu pescoo, enquanto as mos grandes e fortes continuavam a massagear-lhe as costas. O mesmo pensamento deve ter passado pela cabea dele.
	Que loucura!  ele exclamou e deu um beijo doce nos lbios ainda midos de Stacy.
Ficaram ali mais alguns minutos, perdidos num abrao, ento, separaram-se.
Quando Stacy se levantou, Gareth parou a sua frente e, com um s dedo, obrigou-a a erguer o rosto e encar-lo.
	Esta foi a experincia mais excitante que j tive na vida. Da prxima vez, quero ter certeza de que ser inesquecvel para voc tambm.
Ela o encarou.
	Cobrarei a promessadisse, tentando parecer sofisticada.
Os olhos acinzentados de Gareth tornaram-se mais escuros e profundos, e, por um momento, ela pensou que ele a carregaria para a cama e cumpriria a promessa naquele exato instante. Porm, com um suspiro, ele pegou a camisa e, aps uma ltima carcia, saiu.
Stacy sentou-se na cadeira, incapaz de permanecer em p por mais um minuto que fosse. As dvidas a assaltavam. Ser que ele a amava? Ou aqueles beijos haviam sido apenas um impulso de momento?
De repente, ela se conscientizou de que j era tarde. Correu para o chuveiro e tratou de se aprontar para o jantar.
Stacy, voc est encantadora  a sra. Clelland elogiou-a, assim que ela entrou no ptio, poucos minutos depois das cinco horas.  Billy est acordado? Deixe-me v-lo.
Ela levou o carrinho at a anfitri, passando por Gareth, que se encontrava sentado na mureta de tijolos aparentes que cercava o ptio, com um copo de bebida na mo. Ele a examinou da cabea aos ps, como que para ter certeza de que ela estava bem, aps o trrido encontro daquela tarde. A sra. Clelland entregou a Stacy um copo de ponche.
	Este beb  mesmo adorvel, no acham?  A mulher mais velha olhou para o filho e depois para Stacy, com malcia.  Vocs dois teriam filhos lindos!
Stacy quase engasgou.
	Mame, est encabulando nossa convidada  Gareth repreendeu-a, virando-se, ento, para Stacy.  Voc est mesmo linda.
Ela vestira uma saia de veludo vermelho-escura, a blusa de seda creme, bordada com rendas, dava um toque de elegncia. Stacy murmurou um agradecimento e sentou-se perto do beb. Algo estava errado. No sabia bem o qu, mas podia sentir. Gareth retomara a expresso educada, porm distante, que costumava usar no escritrio. A frieza voltara aos olhos acinzentados.
Ela tinha vontade de protestar, mas o que poderia dizer? Esquea a mulher que amou? Esquea que ela carregava seu filho no ventre? No havia o que fazer. Ele se refugiara num lugar onde era impossvel alcan-lo.
Aproximou-se dele, porm Gareth permaneceu com o olhar perdido nas nuvens que emolduravam o pr-do-sol. Podia sentir as barreiras que se ergueram entre eles. A. presena dela e do beb despertara certas emoes que Gareth agora procurava novamente esquecer. Decidida a fazer-se notar, Stacy se apoiou no ombro de Gareth e, quando ele ergueu os olhos, sorriu. Embora sorrisse de volta, a tristeza, juntamente com outras emoes, era claramente visvel. Culpa, arrependimento e tristeza.
Uma carga pesada demais para se carregar sozinho.
Era preciso compartilhar o pesar e a dor com algum. Stacy sabia, pois j passara por isso e tivera em Shirley uma boa ouvinte. Agora, com o pequeno Billy, tudo parecia mais fcil.
O som de vozes interrompeu seus pensamentos. Dois casais juntaram-se a eles, e outros vieram logo a seguir. Jacob acendeu os tocheiros quando comeou a escurecer. Maudie servia os canaps, enquanto o sr. Clelland mantinha os copos dos convidados cheios.
Stacy veio me ajudar com o leilo  a sra. Clelland explicou, ao apresent-la.  Ela praticamente me salvou, aceitando o encargo em cima da hora. Este  seu filho Billy. Lindo, no acham?
Curiosos, os convidados olhavam para a mo esquerda de Stacy,  procura de uma aliana. Ela estava bastante consciente dos olhares especulativos.
	Sou a assistente executiva do escritrio de Gareth  interveio, antes que tivessem uma idia errada.
	Stacy controla tudo naquela firma  acrescentou Gareth, colocando a mo sobre os ombros dela.  Inclusive eu.
O grupo todo riu, e a sra. Clelland pareceu bastante satisfeita. Pelo jeito, todos supunham que seu filho e a assistente partilhavam de um relacionamento mais ntimo.
A conversa rumou para assuntos gerais. Mais tarde, jantaram e tomaram caf na biblioteca. Quando Billy comeou a reclamar de fome, Stacy pegou-o no colo e se desculpou com todos.
	Acho que est na hora de levar Billy para o quarto.
	Eu ajudo  Gareth se ofereceu, mantendo a porta aberta para que ela passasse com o carrinho.
Caminharam em silncio pelo corredor at chegarem  porta do quarto. Ela pensava em se despedir ali mesmo, porm ele entrou.
O cmodo estava iluminado apenas por um abajur. A atmosfera era ntima e envolvente. Gareth levou o carrinho at o quarto adjacente e parou-o ao lado da janela.
	Eles pensam que formamos um casal apaixonado  disse, enquanto Stacy trocava a fralda do beb.  Voc se incomoda?
Ela hesitou por um instante, depois deu de ombros.
	No^sou responsvel pelo que pensam.
A risada dele a surpreendeu.
	Mame . Ela est nos empurrando um para o outro. Tenho certeza de que pensa estar agindo segundo um grande plano csmico.  Agora era ele quem hesitava.  Seria melhor se pudssemos continuar fingindo.
	Fingindo?  Ela o encarou, voltando ento a cuidar do filho.
	Ela ficar satisfeita em nos ver juntos, e isso tambm ajudar a manter as outras mulheres a distncia.
Stacy no pde conter um sorriso.
	Sei que parece extremamente vaidoso de minha parte  ele riu tambm , mas  que as mulheres se jogam em cima de mim.
	E compreensvel. Voc  um homem bonito, rico e inteligente.  Pegou o filho no colo.
Gareth permaneceu em silncio, e, quando Stacy tornou a olh-lo, o rosto msculo adquirira uma expresso estranha.
	Imagino que isso no o surpreenda.
	 assim que me v?
	Sim.  Ela puxou a blusa para fora da saia.  Est na hora de Billy mamar.
	Quer que eu saia?
Ela no sabia o que responder. Era bobagem ficar envergonhada depois de ele t-la tocado com tanta intimidade.
	No quero que ache que estou tentando seduzi-lo.  Ela lhe lanou um olhar significativo e comeou a rir.
	Sabe que no vou pensar isso. De qualquer maneira, precisamos conversar.
Stacy tirou a blusa, pendurou-a na ponta do bero e sentou-se na cadeira de balano.
Billy mamou avidamente, a mo pequenina agarrando o dedo da me, enquanto ela pressionava o seio para que no o sufocasse.
	Quer falar sobre o que aconteceu hoje  tarde?  ela indagou.
Era estranho, mas no se sentia embaraada pela paixo incontrolada que compartilharam.
Por alguns instantes, a frieza e a solido desapareceram do rosto de Gareth.
	Sim.
Em vez de falar, ele se sentou numa cadeira e cruzou os braos atrs da cabea. Ficou admirando-a, enquanto amamentava o filho.
	Sua me me contou sobre sua noiva. E por isso que fica to triste quando me v com Billy?
	Sim, isso me traz recordaes.  Foi tudo o que ele admitiu.
	Como ela era?
	Por que quer saber?  Os punhos de Gareth se fecharam com tanta fora que os ns dos dedos ficaram brancos.
	A tristeza precisa ser posta para fora. Se guardada, ela se volta contra voc e se torna amarga e rancorosa. Falar sobre os bons tempos ajuda. Diga-me, o que gostavam de fazer?
	Alm de fazer amor?  perguntou, irritado.
Stacy compreendia a revolta dele. Ele estava ferido e queria se vingar.
	Todos os casais apaixonados gostam disso. Como se divertiam juntos?
Gareth abaixou a cabea e escondeu o rosto nas mos. Aos poucos, foi relaxando. Aps um suspiro profundo, falou.
	Ela gostava de msica, amos a todos os concertos e depois, quando voltvamos para casa...
	Sim, eu compreendo. Eu e Bill costumvamos dar longos passeios pelo campo e depois fazamos amor sobre a grama... era muito especial. At o dia em que ele foi mordido por uma formiga.  Ela comeou a rir, com a imagem que lhe veio  lembrana.
	Ele deve ter ficado mais precavido da para a frente.  Gareth riu tambm.
	Com certeza! Depois desse dia, passamos a nos deitar sobre uma toalha.
Ela fechou o suti e colocou o beb para arrotar. Em seguida, ofereceu-lhe o outro seio.
	A amamentao  um ato lindo. E muito sexy. Mas tambm  terno, carinhoso, no sei explicar.
	Sei o que quer dizer. Significa mais do que alimentar. E oferecer de si prpria,  cuidar de algum.
	Essa ternura e esse carinho podem machucar  ele confessou, suas feies adquirindo novamente uma expresso raivosa.
O rosto de Stacy mostrava solidariedade. Gareth se ps em p, empurrou a cadeira para o lado e caminhou pelo cmodo.
	No precisa ter pena de mim. Minha vida est muito boa deste jeito. Se conseguirmos levar adiante nosso tea-trinho de fim de semana, logo mame nos deixar em paz.
	Est bem.  Ela tentou no mostrar o desapontamento. Por um minuto, pensara ter conseguido afastar a raiva do corao de Gareth. Agora via que no seria to fcil.  Sente-se culpado pela morte de sua noiva, no ?
Ele ficou imvel.
	Foi minha culpa  disse, sem conseguir encar-la.  Pedi que fosse me buscar no aeroporto, e por isso ela morreu.
	Ela morreu por causa de um motorista bbado  Stacy corrigiu-o.  Voc no foi responsvel pelo acidente.
	Mas eu era responsvel por ela. Se no estivesse to impaciente, ela no teria dirigido na estrada tarde da noite. Fui egosta, pensei apenas em mim mesmo, em meus desejos, no na segurana dela.
	Ningum pode controlar os acontecimentos.
	Voc no pode entender...  Ele caminhou em direo  porta e saiu.
Stacy se lembrou do que a psicloga lhe dissera. Ao se deparar com a desgraa, primeiro as pessoas no acreditam, depois se ressentem; em seguida vm a culpa, a raiva e, por ltimo, a aceitao. At que conseguisse superar os sentimentos negativos, no haveria espao para nenhum outro no corao de Gareth.
Os pesadelos haviam retornado.
Gareth assistia  intensa atividade a sua volta, como se no fizesse parte daquele mundo. Exceto por uma pessoa.
Ao ouvir a risada de Stacy, procurou-a em meio  multido at encontr-la. Ela conversava com um dos homens presentes ao jantar da noite anterior, um produtor de documentrios para a televiso. Stacy parecia achar a conversa fascinante.
Sim,  claro, ela gostava de homens ricos, bonitos e inteligentes, e o produtor marcava pontos em todos os trs itens.
Gareth virou-se de costas, seu humor estava to sombrio quanto o da noite passada. Incapaz de conciliar o sono, caminhara durante horas, at que o cansao o forara a voltar  cama.
Ento, os sonhos confusos, cheios de desespero e culpa retornaram.
Num minuto, era Ginny, no outro, Stacy e Billy. Em seu sonho, carros colidiam em cmera lenta, e, como numa fotografia, a cena ficava impressa em sua mente: metal torcido, corpos mutilados, sangue, horror e morte. Stacy e o beb estavam mortos.
A necessidade de ver se Billy estava bem o fez caminhar por entre os convidados que iam e vinham. Parou no gramado e tapou o sol com a mo, procurando o beb. Stacy preferira que Kim tomasse conta de Billy l fora.
A sobrinha de Jacob lia um livro sob a sombra de uma rvore, enquanto o beb dormia a seu lado. Ali perto, o buf era servido, debaixo da tenda branca, enfeitada com bandeirolas nas laterais. A cena lembrava-lhe a histria do rei Arthur e seus cavaleiros e o deixava preocupado. Preferia o mundo das leis e normas rgidas onde atuava, no a torrente de paixes e emoes em que se encontrava agora.
	Ol, Gareth. Viu quanto pagaram por aquela caixa entalhada?  Stacy abaixou a voz e prosseguiu:  As amigas de sua me devem ser muito ricas.  Ela riu, e o som de sua voz fez o corao dele se apertar.
Ele franziu a testa, no gostava nem um pouco da sensao.
	Bem  ela continuou , tenho de amamentar Billy. Kim falou que ele se comportou como um anjo o dia todo.
Quando Stacy se afastou, tudo o que Gareth desejou foi cham-la de volta, dizer uma frase inteligente e faz-la rir outra vez. Cerrou os punhos. No precisava disso. No queria sentir mais nada por ningum.
As lembranas, entretanto, foram mais fortes. Lembranas recentes. Abraar Stacy, toc-la, sentir a doura de seus seios. Tais recordaes no o deixavam em paz at mesmo nos sonhos.
Havia uma coisa que ele no lhe revelara: havia trs anos que no fazia amor com uma mulher. Seu corpo simplesmente no respondia. Com Stacy, porm, as sensaes haviam retornado plenas, como um adolescente tomado pelos primeiros espasmos de um desejo incontrolvel.
Ele a seguiu sem ser percebido at o ptio atrs da casa e l ficou, espiando, enquanto ela puxava uma cadeira e se acomodava com o beb.
Incapaz de desviar os olhos, observou-a amamentar o filho. Seus nervos estavam to tensos que sentia o corpo dolorido.
Ele a desejava... ele queria... no sabia bem o qu. Algo mais do que a vida que levava agora, algo maior, talvez, do que merecia. Fechou os olhos, mas a imagem dela e do filho permaneceram impressas em suas plpebras. E, por trs dessas imagens, havia fogo, desespero e morte.
A raiva retornou. Uma raiva estpida e intil. Nenhuma raiva do mundo seria capaz de trazer Ginny de volta. Queria ser capaz de matar o assassino que acabara com seus sonhos, mas isso tambm no a traria de volta.
Gareth se forou a encarar a realidade. Fora ele quem telefonara pedindo que a noiva fosse busc-lo. Seu desejo egosta a matara. Essa era a verdade, e teria de viver com isso noite aps noite. Era essa a imagem que assombrava seus sonhos e os transformava em pesadelos.
Porm, no era hora de pensar no passado. Forou-se a deixar de lado as memrias e caminhou at Stacy, que j o notara e o observava a distncia.
	Parece que tudo est correndo bem.  Ela deu um sorriso tmido.  Sua me ficou satisfeita com o nmero de pessoas que compareceram.
	Ela sempre fica contente no meio de uma multido.  Imediatamente, ele se arrependeu do tom cnico.  Desculpe-me, eu no queria parecer grosseiro, na verdade, tambm gosto de ter gente por perto. Quanto mais, melhor.
	Por qu, assim, no precisa enfrentar a si mesmo?
	Quem lhe ofereceu o cargo de conselheira?  perguntou, deixando que a raiva tomasse conta dele, antes que pudesse abrir o corao.
	Por que pergunta, est precisando de uma?
	No.  Seus olhos se encontraram, e ele logo se virou, incapaz de encarar a tristeza nos afetuosos olhos castanhos.
	Ento ter de lutar sozinho para superar a dor e perdoar a si mesmo.
	Droga, Stacy...  Gareth ia replicar, porm Billy comeou a chorar, assustado com as vozes alteradas.
Ela levou o filho at o ombro e deu palmadinhas em suas costas, como consolo.
	Pronto, querido, est tudo bem.
Gareth suspirou, tentando conter as palavras iradas. Queria dizer que ela no entendia nada sobre o que sentia ou pensava. No que lhe dizia respeito, podia pegar aquela psicologia de fim de semana e...
Exasperado, ele balanou a cabea, tentando se controlar. O rancor no teria serventia. Aprendera isso trs anos atrs. O vazio era melhor, no precisava sentir nem reagir a nada. Nenhuma emoo, nenhuma paixo. Sim, ele preferia o vazio emocional.
Gareth procurou sorrir. No podia afastar o olhar da figura to feminina com o filho nos braos. A doura que via naquele rosto amoroso rasgava-lhe o peito, abrindo feridas, at que a dor se tornasse insuportvel.
Ele praguejou e se afastou em direo ao leilo e  segurana proporcionada pela multido de convidados.
Engraado, nunca se considerara um covarde. Mas ali estava ele, fugindo de uma mulher e de uma criana outra vez.
CAPITULO VIII

	Hoje  o dia de folga dos empregados, por isso faremos o caf da manh ns mesmos  a sra. Clelland explicou a Stacy, enquanto preparava a massa de waffles e, depois, colocava o bacon e as lingias para assar.  Dormiu bem? E Billy?
	Muito bem, obrigada  mentiu. Ficara acordada por um longo perodo, sentada junto  janela, lutando contra a carncia emocional que julgara adormecida. Enquanto estava ali sentada, no escuro, avistara a figura de Gareth, andando pelo jardim.
A imagem do homem solitrio permanecera em sua mente. Imaginou se ela e Billy fariam parte dos pensamentos com os quais ele lutava na escurido. Com certeza, sim.
Tinha conscincia de que abrira uma velha ferida que ainda no cicatrizara. Antes de ajud-la com o parto de Billy, Gareth vivia em um mundo desprovido de novas emoes e, agora, era para l que tentava desesperadamente retornar.
Embora ningum pudesse voltar ao passado, uma pessoa podia permanecer presa a ele, deixando que a culpa engolisse sua alma e destrusse qualquer possibilidade de voltar a amar. O que seria uma pena. Gareth era um tipo de homem raro, com a firmeza e a constncia necessrias a um casamento feliz, e sexy e charmoso o bastante para inspirar paixo e romance em qualquer mulher.
	Os outros hspedes j foram embora?  perguntou, no querendo ser indelicada ao ficar em silncio.
	Sim, s restou um casal. Esto jogando tnis com nossos homens.
A frase da me de Gareth soou to casual que Stacy quase no reparou na insinuao. Ao compreender o que a outra dizia, ela protestou:
	Gareth no  meu.
	Ser, se voc quiser.
A sra. Clelland pegou uma embalagem de suco de laranja congelado e misturou com gua no liqidificador. Quando ficou pronto, entregou um copo  jovem.
Subitamente, Stacy notou que a anfitri caminhava perfeitamente bem, com o tornozelo machucado.
	Voc o ama, no ?  A sra. Clelland olhou-a de soslaio e continuou a preparar o desjejum.
Se a conversa fosse com qualquer outra pessoa, Stacy a acharia por demais invasiva, porm sabia que, acima de tudo, a me de Gareth queria o bem de ambos.
	Sim  respondeu.  Eu o amo.
	timo. Diga a ele. Os homens so muito fechados nesses assuntos do corao. Ah, aqui esto eles! - Ela abriu um sorriso para as quatro pessoas que entravam na cozinha.  Quem ganhou?
	Eu e Gareth demos uma surra neles.  A moa levantou a raquete num gesto de vitria. Depois, encostou-a contra a parede e foi se servir de um copo de suco.
Os homens fizeram o mesmo, e Stacy sentiu uma pontada de cime, ao reparar que a convidada parecia estar muito  vontade na cozinha da me de Gareth. Ruthie tinha quase a mesma idade que ela, no usava aliana nem tinha o mesmo sobrenome que o homem que a acompanhava.
Os jogadores discutiam o jogo, rindo e brincando uns com os outros. O barulho foi tanto que acordou Billy, e o beb comeou a chorar. Imediatamente, Stacy se levantou.
	Vou lev-lo para o quarto  informou, manobrando o carrinho e seguindo pelo corredor.
Chegando ao quarto, colocou o filho no bero e cantou para ele. Enquanto esperava que Billy adormecesse, decidiu que na manh seguinte telefonaria para a creche e matricularia o filho. Deix-lo todas as manhs para ir trabalhar despedaaria seu corao... tanto quanto largar Gareth e o escritrio de advocacia.
Ela no soube de onde brotara tal pensamento, porm, uma vez em sua mente, teve certeza de que era o que precisava fazer. A paixo entre eles era muito forte para ser negada ou disfarada. No o aceitaria se no fosse por inteiro. Seu amor valia mais do que alguns momentos de prazer.
Suspirando, voltou  cozinha. Parte do grupo j estava sentada, e ela retomou seu lugar. Gareth trouxe um prato com bacon e lingias para a mesa, e, enquanto o pai servia os waffles, a sra. Clelland preparava mais.
A cena parecia sada de uma pintura. "Desjejum no campo" poderia ser o ttulo. Lgrimas afloraram nos olhos de Stacy, e ela procurou disfar-las.
Gareth afastou a cadeira ao lado dela e sentou-se. O brao moreno tocou o dela, enviando uma corrente eletri-zante que fez Stacy estremecer.
	Bacon ou lingia?  ele perguntou, estendendo o prato.
Ela aceitou dois pedaos de bacon. Gareth, por sua vez, serviu-se e passou a comida para o convidado  direita.
O corpo dele irradiava tanta energia que Stacy, mesmo sem perceber, inclinou-se ligeiramente em sua direo, querendo absorver todo o calor possvel.
Em seguida, Gareth colocou um waffle no prato dela e outro em seu prprio prato. Stacy esticou o brao em direo  jarra de suco, necessitando urgente de algo gelado para acalm-la. Ento, seus olhos e os de Ruthie se encontraram.
A moa olhou para Gareth, depois voltou os olhos para Stacy. Num instante, Stacy soube que a outra mulher j o desejara e que havia perdido as esperanas algum tempo atrs. Agora, imaginava o que ele vira em Stacy.
	Voc dormiu muito hoje  Gareth afirmou, em voz baixa, interrompendo os pensamentos de Stacy.  Senti falta de nosso jogo de tnis.
	Voc arranjou uma boa parceira.
	Gosto mais quando jogo com voc.
Stacy prendeu a respirao.
	Precisa tomar leite  ele falou subitamente, levantando-se para servir-lhe um copo.
De repente, todos estavam em silncio. Quatro pares de olhos analisavam o gesto de Gareth, com expresses variadas. A sra. Clelland parecia exultante, e seu marido estava pensativo. Os olhos de Ruthie brilhavam com fria, e seu acompanhante a encarava, surpreso. Stacy manteve o olhar sobre o prato e murmurou algumas palavras de agradecimento.
Quando a refeio terminou, ela se levantou e comeou a limpar a mesa. Gareth colocou a loua suja na mquina de lavar.
	Ns vamos ao museu  informou a sra. Clelland ao casal de convidados.  Gostariam de ir conosco, ou j tm de partir?
	Precisamos ir embora  Ruthie respondeu, sem ao menos esperar pela opinio do companheiro.
Os lbios de Gareth curvaram-se num sorriso discreto. Ele queria ficar a ss com Stacy.
Quando Gareth e Stacy terminaram de arrumar a cozinha, o sr. e a sra. Clelland haviam se retirado para o quarto, a fim de trocar de roupa, e os outros convidados j tinham feito as malas e sado rapidamente.
Gareth serviu duas canecas de caf e sentou-se  mesa. Em seguida, pegou um caderno do jornal e comeou a ler. Stacy fez a mesma coisa.
Depois que os pais saram, ele abaixou o jornal e ps-se a contempl-la. O gesto deixou-a nervosa. Finalmente, desistiu de tentar se concentrar na leitura e, segurando a caneca na frente da boca como um escudo, devolveu-lhe o olhar intenso.
	O que foi?  ela questionou.
	Est to contente de ficar a ss comigo quanto eu?
	Sim.
O olhar de Gareth correu pelo rosto de Stacy, analisando os olhos castanhos e parando nos lbios tentadores.
	O que a estava incomodando?
Surpresa, ela fez um movimento brusco e derrubou caf na mesa. Rapidamente, pegou um pano e comeou a limpar a sujeira.
	No sei do que est falando.
	Sabe, sim  ele contestou, com doura.
Stacy ficou algum tempo em silncio, observando a mancha mida sobre a mesa, ento respondeu:
	No gostaria de ter um relacionamento como o daquele casal. Eles no tm... um compromisso. O fim de semana parecia ser s um encontro inconseqente.
	Pessoas adultas, hoje em dia, no precisam de falsas promessas para apreciar um ao outro.
	Nem eu gostaria de falsas promessas. Mas prefiro amar o homem que faz amor comigo.
	E espera o mesmo dele?  O tom sarcstico deixava claro quais eram seus pensamentos.
	Sim  respondeu, convicta.
Gareth passava o dedo pela borda da caneca, e, pela expresso sisuda em seu rosto, ela notou que ele refletia sobre a situao.
Ela adorava aquelas mos. Grandes, de dedos finos e compridos. Mos fortes de um homem bom.
Virando-se, Stacy se ps a observar o sol da manh, que iluminava a grama mida do jardim, at se certificar de que no se jogaria nos braos dele, implorando que a amasse.
Ao notar que ela desviava a ateno propositadamente, Gareth lutou contra o impulso de alcan-la e obrig-la a olhar em sua direo. Mais do que qualquer coisa, queria punir aqueles lbios sensuais com os seus. Castig-la por faz-lo desej-la com cada clula de seu corpo.
No queria que seus olhos a procurassem, que seus ouvidos s prestassem ateno na voz doce e na risada envolvente em detrimento de todas as outras. E, mais do que tudo, no queria aceitar o fato de que se sentia vivo apenas ao lado dela.
Uma mo macia deslizou sobre a dele, afagando-lhe os dedos at que relaxassem. Gareth permaneceu impassvel, enquanto ela corria a mo por seu brao at chegar ao ombro. Stacy se colocou atrs dele e comeou a massagear-lhe os msculos do ombro e do pescoo.
No me toque, ele queria dizer.
	No pare  Gareth murmurou.
	Seus msculos esto to tensos!  Ela se inclinou para a frente, a voz doce acariciando-o tanto quanto as mos.
Oh, Deus, aquilo doa, era um tormento maravilhoso!
	Por qu?  ele conseguiu perguntar, sentindo-se derreter sob os dedos hbeis.
	Por que o qu?  ela indagou, num sussurro.
	Por que deixou que eu a beijasse?
Stacy ficou tanto tempo em silncio que ele pensou que no teria resposta.
	Voc sabe o motivo.
Virando-se rapidamente, Gareth a sentou em seu colo e abraou-a. J no pensava mais no passado. Precisava toc-la. Precisava dela tanto quanto do ar que respirava.
Stacy sobressaltou-se com o impacto do beijo. A boca exigente explorou a dela, tornando o beijo cada vez mais profundo e exigente. Os dedos de Gareth corriam pela massa de cabelos castanhos, enquanto os braos  volta dela a apertavam cada vez mais, tornando-os incapazes de pensar em mais nada. Havia apenas o desejo feroz e desesperado a queim-los por dentro.
Lgrimas surgiram nos olhos de Stacy e correram livremente por suas faces, atingindo o canto da boca.
Gareth diminuiu a presso dos lbios e, movendo ligeiramente o rosto, provou as lgrimas salgadas, com extrema delicadeza.
Stacy lutou para conter as emoes tumultuadas e recuperar o autocontrole. As lgrimas cessaram.
Ele pousou uma srie de pequeninos beijos sobre as pl-pebras ainda midas, depois ergueu o queixo dela e observou-lhe o rosto.
	Por que est chorando?
	No sei.  Estava claro para Stacy que, na verdade, ele odiava o desejo que sentia por ela. Odiava o homem apaixonado que ela fizera ressurgir. Ser que algum dia viria a odi-la?  Gostaria de ir para casa  pediu, pondo-se de p.
	As emoes podem nos deixar exaustos, no ?
	Bastante.
	Mame j deixou o almoo preparado. Importa-se de esperar at a noite para irmos embora?
Ela procurou reunir o que lhe restava de foras.
	Claro que no.
Ele tocou de leve seu rosto, ento deixou a mo cair ao longo do corpo.
	Voc  um anjo.
	No  assim que me sinto quando estou com voc  Stacy respondeu.
Colocando as mos nos bolsos do short, sem fazer comentrio algum, Gareth caminhou para a porta e se foi.
O olhar de Stacy fixou-se nas pernas musculosas que se afastavam. Sentira os msculos firmes contra suas coxas, conhecia a fora daqueles braos e amava o calor do corpo rgido. Ele era o homem ideal. Capaz de imensa generosidade e paixo. Faltava querer compartilh-las com uma mulher.
	Clelland e Davidson.  Stacy atendeu ao telefone, com os olhos ainda grudados na pilha de correspondncia atrasada.
	Stacy, sou eu, Shirley. Adivinhe onde estou?
	Bem, aqui no escritrio  que no est! Peter est uma fera. Gareth, ento, nem se fala. E eu, atolada de trabalho por sua causa.
	E eu estou casada!
	Voc o qu?  Stacy no pde evitar que a voz soasse estridente.
	Sim, casada. Eu, quer dizer, ns fugimos para nos casar.
	Quem? Shirley, voc est bem?
Ela ouviu as risadas do outro lado da linha.
	Estamos no Mxico. Eu e meu piloto. Diga ao chefe que vou tirar o resto da semana de folga.
	Deus nos ajude  murmurou Stacy.  Gareth ficar ainda mais furioso.
Shirley no parecia nem um pouco preocupada.
	No vai me dar os parabns?
	Claro. Desejo-lhe toda a sorte do mundo. Voc merece.
	Assim vou chorar. Agora tenho de desligar. Telefono de novo quando estiver de volta. Ah, antes que me esquea,  melhor procurarem uma nova secretria. Eu e meu marido nos mudaremos para Houston daqui a algumas semanas.
A porta entre as duas salas se abriu, e Gareth esperou que Stacy desligasse o telefone. Eles mal haviam conversado desde que retornaram da casa dos pais dele, oito dias atrs.
	Shirley se casou  ela informou.  Casou-se no Mxico com um piloto e vai se mudar para Houston  acrescentou de sbito.
	Voc parece surpresa.
	 claro, ela me disse que no queria mais nada com ele!
Gareth deu de ombros.
	Mudou de idia. Uma prerrogativa das mulheres.  Depois, mudando de assunto, perguntou, passando os olhos pela sala:  H alguma coisa diferente por aqui hoje.
	Billy no est. Foi para a creche.
Gareth andou pela sala, olhando para as plantas e os objetos pessoais de Stacy, como se os visse pela primeira vez.
	E ele aceitou bem? No era melhor lev-lo um pouco
por dia at que se acostumasse?
Ela umedeceu os lbios, sentindo-se como se estivesse sentada no banco dos rus.
	Foi o que fiz na semana passada depois do trabalho, para ele ir conhecendo o lugar e as pessoas. Passamos metade do sbado por l, e deixei que acordasse sem que eu estivesse por perto. Ele se comportou bem.
Gareth no parecia convencido.
Ela voltou a abrir os envelopes e separar a correspondncia. J dividira as tarefas de Shjrley entre os outros funcionrios e supervisionara o trabalho dos quatro estudantes de direito que trabalhavam ali como estagirios da Universidade de Virgnia. O escritrio funcionava quase que normalmente.
	Minha me perguntou de vocs  ele falou, parando ao lado da mesa de Stacy.  Disse que a casa fica muito mais alegre com uma criana por perto.
	Por favor, transmita-lhe meus agradecimentos.  Stacy passou os olhos por uma carta, colocou-a sobre a pilha  direita e pegou outra. Aps alguns instantes de silncio, ela perguntou:  Lembra-se do sr. Anders, meu antigo chefe?
	Sim.
	O filho dele, aquele que era policial, est abrindo uma agncia de investigaes.
	Detetive particular? Podemos usar seus servios algum dia.
	Ele investiga fraudes de seguros e pelo jeito est precisando de ajuda. Quer que eu v trabalhar com ele.
Pronto, ela conseguira dizer as palavras que vinha ensaiando havia cinco dias.
	No  Gareth gritou. Aproximando-se mais, inclinou o corpo grande e musculoso sobre a mesa.  No deve se meter nesse tipo de negcio,  muito perigoso.
	Na verdade, ficarei apenas no escritrio, enquanto ele e o scio fazem as investigaes. Parece... divertido. Eu ficaria mais perto da creche e poderia amamentar Billy na hora do almoo.
	Voc pode fazer isso aqui. Amplie seu horrio de almoo. Eu j disse que o beb pode ficar no escritrio at comear a engatinhar. Por que foi coloc-lo na creche?
	Achei que era melhor ele comear a se acostumar a ficar longe de mim.
	Pois eu no acho.
Stacy se enfureceu com o ar autoritrio de Gareth.
	A me sou eu!
Ele a encarou, ento se virou de costas, passou a mo pelos cabelos e praguejou.
	Como disse?
	Oua  ele se virou novamente , no fiquei surpreso com a atitude de Shirley, mas esperava mais lealdade de sua parte. Estamos no meio de uma crise, e voc me d as costas.
	Bem, no ser esta semana. Quero dizer, cumprirei o aviso prvio de um ms.  Ante o olhar furioso de Gareth, acrescentou:  Talvez seis semanas.
	Obrigado pela considerao  ele disse, sarcstico. Stacy ergueu o queixo.
	Vou procurar uma pessoa e trein-la...
	De forma alguma! Voc fica, e pronto!
	Eu quis dizer algum para o lugar de Shirley. Ligarei para a agncia de empregos hoje mesmo.
	timo, porque no aceitarei sua demisso.  A voz dele ecoou como um trovo, anunciando uma tempestade.
Gareth caminhou com passos rpidos e saiu batendo a porta. Os vidros das janelas trepidaram perigosamente. Stacy apoiou o queixo nas mos e tentou se lembrar de cada palavra da conversa. No conseguia entender nada. Ele, obviamente, odiava manter qualquer tipo de relao com ela e, no entanto, no a deixava partir. No fazia o menor sentido.
Stacy desligou o telefone e suspirou, aliviada. Aquela fora uma semana catica, mas finalmente conseguira algum para o lugar de Shirley. A moa comearia na segunda-feira, e a secretria, j de volta da lua-de-mel, daria o treinamento antes de se mudar para Houston.
Aps se espreguiar lentamente, Stacy desligou o computador e trancou a escrivaninha. Talvez parasse para comprar uma pizza a caminho da creche. Uma pizza s de muz-zarela provavelmente no afetaria o gosto do leite.
Seu filho crescia depressa e parecia feliz em seu novo espao. Mais uma vez, procurou concentrar seu amor em Billy, recusando-se a pensar no que poderia ter havido entre ela e Gareth.
Sem ressentimentos, disse a si mesma. Se ele no queria seu amor, s restava esquec-lo.
Antes de sair, passou por todas as salas para uma ltima checada e, quando retornou a sua mesa para pegar a bolsa, deparou com Gareth.
	Voltou cedo  falou.  O caso terminou, ou entraram em recesso?
	Terminamos. Consegui um timo acordo.  Ele mencionou uma quantia alta.
	Puxa!  A firma receberia uma grande porcentagem, mesmo depois de descontados os gastos com pesquisa e peritos.
	Estou com vontade de comemorar. Que tal jantarmos juntos?
O corao de Stacy bateu mais forte.
	Tenho de pegar Billy  ela procurou soar casual.  Pensei em comprar uma pizza no caminho.
	Ento deixe a pizza por minha conta.
	No acho que seja uma boa idia.
	Por qu?
	Porque no.  Ele sabia a resposta to bem quanto ela. Tinham de manter distncia at que tivessem superado a louca paixo que sentiam um pelo outro.
	Queria falar com voc  Gareth insistiu, quebrando o silncio.
	Sobre o qu?
	Sobre a vida  respondeu filosoficamente.
Ela ficou parada ao lado da janela, observando as luzes dos carros que brilhavam oito andares abaixo, pensando se deveria ter aceitado o convite para jantar.
Ouviu os passos inquietos de Gareth. Provavelmente, ele estava irritado por ela no ter concordado. Ele gostava de fazer as coisas a sua maneira e geralmente conseguia o que queria. Irritada com Gareth e consigo mesma, agarrou a ala bolsa e jogou-a por cima do ombro.
	Droga!  o chefe esbravejou.
Virando-se, Stacy deparou com ele pressionando a mo sobre um dos olhos.
	Vou buscar um pouco de gua. D-me seu leno.  Ela correu at o bebedouro do corredor e encharcou o leno com gua gelada. Aps torc-lo, retornou  sala depressa.
Gareth estava sentado em sua cadeira, com a mo ainda sobre o olho.
	Fique calmo  ela pediu e, afastando a mo dele, colocou o tecido de algodo sobre o olho machucado.
	J est melhorando.
	No entendo como isso aconteceu. Quero dizer, o que estava fazendo inclinado sobre meu ombro?
	Sentindo seu perfume.
	No uso perfume para trabalhar.
	Eu sei.  Ele suspirou.  Gosto quando voc prende o cabelo assim. Fica to linda que tive vontade de beijar sua nuca.
Stacy levou imediatamente a mo ao coque preso na nuca. Havia alguns dias, vinha mantendo os cabelos presos para que Billy no os puxasse.
	Ia beijar minha nuca?  repetiu, incrdula.
	Sim.  Ele lhe lanou um olhar ressentido.
	Mas voc no pode. No no escritrio. No pode beijar a nuca de uma mulher s porque sente vontade. Posso process-lo por assdio sexual. A risada dele foi sugestiva.
	Pode beijar a minha tambm, se quiser! Que tal?
	Isso no tem a menor graa.  Ela notou que continuava com a bolsa pendurada no ombro.  Oua, no posso ficar aqui discutindo. Preciso apanhar Billy.  E, com isso, deixou o escritrio.
Imagine se ele podia beij-la quando bem entendesse! No era esse tipo de mulher. No se jogaria nos braos de Gareth s porque ele a desejava, mesmo que houvesse feito exatamente isso das outras vezes. Agora, no o faria mais.
Quando chegou em casa, trocou de roupa, amamentou o filho e s ento percebeu que se esquecera da pizza. O fato a deixou ainda mais irritada. Maldito Gareth Clelland e seus beijos!

CAPITULO IX

Stacy desligou o computador e retirou da impressora o relatrio feito por um dos empregados. Ela o leu palavra por palavra, decidida a localizar qualquer erro, antes que Gareth o fizesse. Tudo estava em ordem.
Colocando os papis sobre a mesa, olhou para o relgio. Seu chefe chegaria a qualquer momento. Agendara com ele um encontro para ela mesma com o objetivo de discutir o aumento de salrio dos funcionrios e ento planejou sair mais cedo, se possvel. Era uma tera-feira. Seu filho estava completando trs meses de idade, e ela mal conseguia se lembrar do tempo em que ele ainda no fazia parte de sua vida.
De repente, sentiu uma pontada nos seios, a exemplo do que sempre acontecia quando pensava no beb, o que fez com que ajustasse o suti em uma posio mais confortvel.
A porta se abriu, e Gareth entrou no escritrio, preenchendo-o com sua presena masculina. Estava especialmente charmoso em um terno azul, com discretas listras acin-zentadas. A camisa era vermelho-escura e a gravata combinava as trs cores.
Os seios de Stacy contraram-se. Ainda bem que a blusa que estava usando disfarava qualquer indiscrio.
	Ol  disse, animada.  Chegou bem na hora. J terminei as avaliaes.
Ela se levantou, pronta para segui-lo at o escritrio, quando ele parou e a olhou como se fosse uma intrusa.
	Tenho algumas ligaes a fazer.
	Ento me avise quando tiver terminado. Estou planejando sair mais cedo, se possvel.
O som que ouviu em resposta, antes que Gareth entrasse na sala, poderia significar um sim ou, talvez, um no. Contrariada, Stacy recolocou os papis sobre a mesa. Um minuto depois, ela o ouviu ao telefone, e, durante uma hora, as ligaes se sucederam.
Aps um dos telefonemas, ela segurou os documentos com fora e seguiu em direo  sala de Gareth. A porta se abriu justamente quando ela agarrava a maaneta, de-sequilibrando-a. Gareth a segurou, enquanto Stacy caa para a frente.
Retirando os cabelos do rosto, ela o contemplou, surpresa, enquanto uma sensao de bem-estar a invadia, como uma chuva de vero. Sentiu o peito dele contra o seu e o encaixe perfeito das coxas de Gareth em suas pernas. Os braos dele a rodearam com a firmeza de uma rocha, e os dois se envolveram em um momento de desejo mtuo. No instante que se seguiu, o nico som que se ouvia era a respirao entrecortada de Stacy e Gareth.
Os olhos dele fitavam sua boca e os lbios se entreabri-ram, enquanto ela tentava controlar a respirao. Queria beij-lo e esquecer as mgoas do passado.
Gareth umedeceu os lbios, com "o olhar fixo, como se pudesse ler o que se passava na mente de Stacy. Ele abaixou a cabea, e as duas bocas quase se tocaram...
	Ol  Peter cumprimentou, surgindo  frente deles.
Stacy no soube o que dizer, e Gareth, aps praguejar, soltou os braos dela e se virou para o scio.
	O que foi?
Peter ergueu as mos, como se estivesse se defendendo de algum perigo.
	Pensei que tnhamos uma reunio marcada para uma hora atrs, a fim de discutirmos os salrios dos empregados com Stacy. Ser que me enganei de dia?  Ele olhou de um para o outro.
Stacy foi a primeira a se recuperar.
	No, voc est certo. E que... Eu ia justamente lembrar Gareth desse compromisso.
	Bem, ento podemos comear?  perguntou Peter, com uma expresso indiferente, porm seus olhos azuis no disfaravam a ironia.  E que tenho um encontro esta noite.
Ela abaixou os olhos para os papis que trazia nas mos.
	Claro. Estou com os formulrios aqui. J os terminei h algum tempo.
	Podem ir na frente  Gareth falou.  Vou buscar caf e encontro vocs em um minuto.
Ela concordou com um movimento de cabea. Sentindo-se rgida como um rob, atravessou o escritrio de Gareth e entrou na sala de reunio. Sentou-se  mesa e distribuiu cpias dos formulrios de avaliao em outros dois lugares.
Peter entrou e se sentou tambm. Olhou para ela rapidamente e, ento, pegou os papis e analisou-os.
Um calor subiu ao rosto de Stacy. Gareth quase a beijara. Mais um centmetro e suas bocas teriam se tocado. E ela nem mesmo emitira um protesto. Nem um sequer. Ser que haviam enlouquecido para tentar se beijar bem no meio do escritrio?
Obviamente, nenhum deles premeditara o ocorrido. Haviam reagido um ao outro, sem pensar. Onde fora parar o bom senso de ambos?
Gareth entrou na sala de reunio. Segurava uma pequena bandeja, contendo trs xcaras de caf, que foram distribudas aos presentes.
	Obrigada  ela murmurou, com a voz rouca.
Peter tambm agradeceu e, em seguida, tomou um gole de caf, antes de dar incio  reunio.
	Examinei as recomendaes que voc fez  disse, dirigindo-se a Stacy.  Parecem boas, no tenho nenhuma
observao a fazer.
Gareth sentou-se em uma das cadeiras. Havia tirado o palet e a gravata. A gola da camisa' estava aberta e as mangas, enroladas. A sala permaneceu silenciosa, enquanto ele analisava os documentos.
	Como est indo a nova secretria?  Gareth perguntou a ela, por fim.
	E muito competente. Conhece os termos da lei. Pensei em recomendar que lhe dessem um aumento no final de seu terceiro ms de trabalho.
	Tudo bem. Estes outros me parecem bons.  Ele olhou para Peter.  Voc quer examinar o prximo?
	No, faa isso voc. J passa das cinco horas, e preciso ir.  Ele se levantou e seguiu em direo  porta. Ao sair, sorriu para Stacy.
A essa hora, as outras salas estavam vazias. As digita-doras, os escriturrios e a nova secretria j deviam ter ido embora. O sangue pareceu correr mais devagar nas veias de Stacy. Sentia o corpo repleto de desejos insatisfeitos.
	Peter e eu achamos que o escritrio tem funcionado muito bem sob sua direo. Decidimos lhe dar um aumento de dez por cento, est de acordo?
Ela piscou, surpresa.
	Voc j me deu dois aumentos  ela o recordou.  Um no terceiro ms de trabalho e outro no final do primeiro ano.
Gareth deu de ombros.
No havia mais indcios do desejo que iluminara os olhos acinzentados momentos atrs. Voltara a ser o chefe calmo e impessoal, sempre educado, mas que raramente sorria.
	No podemos obrig-la a ganhar mais, se no quiser. Apenas imaginamos que seria bom para voc, j que agora tem um beb para alimentar e cuidar.
	 claro que algum dinheiro extra seria oportuno  ela explicou.  S no quero esmola de ningum.
A raiva tomou conta de Gareth.
	Esmola no est em nossa lista de benefcios trabalhistas  ele replicou, com voz fria.  Voc mereceu esse aumento.
	Obrigada.  Ela se levantou.  Se isso  tudo...
Gareth tambm se ps em p, e seu corpo alto e forte a fez sentir-se pequena e impotente. Sem poder se controlar, as lgrimas cobriram o rosto de Stacy.
Horrorizada por esse deslize emocional, ela se apressou . a sair dali. De volta a sua sala, pegou a bolsa e caminhou em direo  sada, antes que o desastre fosse completo.  Quase atropelou Peter, ao se precipitar para dentro do elevador, antes que a porta fechasse.
	Acalme-se  ele disse, segurando o brao dela para equilibr-la.
Stacy sorriu delicadamente e procurou retomar a tranqilidade.
	No queria esperar o prximo elevador.
	Deu para perceber.  Os olhos dele a examinavam.
Ela sorriu novamente.
	Obrigada pelo aumento. Foi uma surpresa agradvel, tenho de admitir.
	Voc merece. Consegue resolver o dobro dos assuntos que a nossa antiga assistente resolvia. O escritrio nunca funcionou to bem.
	Obrigada.  Ela no foi capaz de pensar em outra coisa para dizer.
O elevador desceu rapidamente, com um leve rudo de cabos e engrenagens.
	Como vai o beb?
	Est muito bem. Mama como um bezerro.
	Isso  bom.
A porta se abriu, e eles saram para o estacionamento.
	Eu a acompanho at o carro.  Ao segui-la, ele perguntou de sbito:  Est feliz trabalhando conosco?
	Claro.
	Agora que j deu a resposta de praxe, diga-me a verdade. Ela parou ao lado da picape e destrancou a porta.
	No sei o que deseja que eu diga.
	Gareth tem agido como um idiota, principalmente em relao a voc. H alguns minutos, tive a impresso de que ele iria beij-la. Quando ir acabar com o sofrimento dele?
	Como?  ela se surpreendeu com a intromisso inesperada.
	Bem, deixe-me pensar.  Os olhos de Peter brilhavam  medida que tentava adivinhar.  Se ele a pedir em casamento, acho que deveria aceitar... com todo o respeito...
Ela suspirou e cerrou os dentes.
	Se ele sugerir algo mais casual, diga que  casamento ou nada! Isso ir despert-lo.  O scio riu, com prazer.
 Eu a contratarei como assistente legal, se ele no se opuser. Voc entende to bem de leis quanto a maioria de ns, advogados.
	Meu pai tambm era advogado. Eu ficava no escritrio com ele depois da escola e nas frias de vero, aps a morte de mame.
	O que vai fazer sobre Gareth?
	No sei.
	Bem, vocs dois tero de resolver  ele disse, com seriedade.  Receio que haja algum tipo de exploso em breve. S espero que no acontea no escritrio. Se ocorrer, acho que deveria arrumar as coisas e sair. No leve a mal, afinal, ele  meu scio e sou obrigado a trabalhar com ele. Voc  prescindvel.  Peter deu um sorriso.
	Eu compreendo.  Ela entrou no carro. Peter fechou a porta, com o sorriso ainda nos lbios.
Stacy ficou pensando no assunto durante o trajeto at a creche e, depois, at em casa. Na hora de dormir, ela ainda no havia descoberto uma maneira que a permitisse continuar na firma. Peter estava certo. A situao era praticamente insustentvel.
Depois de trocar de roupa, sentou-se na cadeira de balano e alimentou o beb, enquanto tentava enfrentar a realidade. Ela teria de deixar o escritrio. A nova secretria tinha mais idade e mais de vinte anos de experincia. Poderia tomar conta da firma sem nenhum problema.
O detetive, filho de seu antigo chefe, ligara e praticamente implorara para que pensasse na oferta que havia feito, j que a secretria contratada no se adaptara ao ritmo de trabalho. Ele no poderia pagar o salrio que ela recebia em seu emprego atual, mas prometera um bnus no final do ano se a agncia continuasse funcionando to bem quanto agora.
Escolhas... A vida estava repleta delas.
Seu filho emitiu um som. Stacy sorriu para ele, que largou o seio e retribuiu o sorriso.
Trs meses de idade. Parecia que tudo acontecera havia muito tempo... Ela se perdendo no caminho para o chal, dando  luz, Gareth cuidando do beb...
Seu sorriso tornou-se vacilante, e Stacy teve de conter as lgrimas.
	Vai ficar tudo bem  prometeu ao filho.  No precisamos de mais ningum.
Mas Gareth seria um pai maravilhoso...
A carta de demisso estava datilografada e assinada.
Tudo o que Stacy tinha de fazer era coloc-la na mesa de Gareth. Ou poderia entreg-la a Peter.
Que covarde!
Fora Gareth quem a contratara como assistente. Com o tempo, cada vez mais tarefas lhe foram sendo dadas, at que administrasse todo o escritrio. Entretanto, ele continuava a ser seu superior.
Lembrou-se da fria de seu chefe quando mencionara sair logo aps Shirley pedir demisso. Ele, provavelmente, iria estrangul-la quando visse a carta.
Stacy o ouviu entrando no escritrio e colocou a carta em uma pasta, como um ladro escondendo o produto do roubo. Mais tarde, ela a entregaria, assim que descobrisse como estava o humor dele.
Havia esperado a semana inteira, mas j era sexta-feira, e o estado de esprito de Gareth permanecia o mesmo. Tinha de ser nesse dia.
Checou as cartas que uma das digitadoras terminara e colocou-as na pasta. O testamento estava pronto, e a nica coisa que Gareth precisava fazer era examin-lo e chamar o cliente para assinar.
A porta que separava as duas salas foi aberta. Gareth a olhou, carrancudo.
	Onde est o arquivo Lambridge?
	Est aqui.
	Preciso dele.  Caminhou em direo  pasta com voracidade, como um urso faminto farejando carne fresca, pegou-a e voltou  toca.
	Esteja  vontade  ela murmurou, olhando para a porta fechada.
Em seguida, ajeitou os cabelos e deu uma rpida olhada no relgio. Graas a Deus, faltavam apenas quinze minutos para ela ir embora!
Stacy colocaria a carta de demisso embaixo da porta e escaparia pelo elevador.
Inquieta, saiu de sua sala e foi se despedir dos colegas, desejando-lhes um bom final de semana. Alguns j haviam ido embora, inclusive Peter.
A hora chegara. Voltou rapidamente para sua sala, pegou a bolsa, escreveu o nome de Gareth em um envelope e pegou a carta.
Porm, aquela no era sua carta, e sim as instrues do testamento do cliente.
Olhou para a mesa e viu que no havia outra folha de papel sobre ela. Pressionou o estmago com as mos, enquanto uma suspeita surgia em sua mente.
Oh, no, ela no tinha...
	Por favor, no!
	Stacy, venha c.  O chamado balanou as vidraas do escritrio.
Ela colocara a carta na pasta que ele pegara de sua mesa. Estava perdida. Com a calma dos condenados, atravessou o escritrio e entrou na toca do urso.
	Sim.  Cruzou os braos e permaneceu impassvel.
Gareth a encarou de uma maneira que ela nunca havia visto.
	O que significa isto?  Ele balanou um pedao de papel.
	O qu?  Ela ainda tinha esperanas de que Gareth pudesse ter encontrado algum erro no documento e no tivesse visto a carta.
	Voc sabe muito bem do que estou falando. Tarde demais.
	De minha... demisso?
	Sim.  Ele lhe lanou um olhar mortal.  Pensei que j tivssemos conversado sobre isso h duas ou trs emanas. Achei que essa questo j estivesse resolvida.
	Sim e no.  Ela arqueou as sobrancelhas. No iria se acovardar como um ladro que  pego em flagrante.  No resolvemos... No exatamente  acrescentou.
	O que fizemos, ento?
	Bem, deixamos a questo meio em aberto. O policial, aquele que abriu a agncia de detetives, ligou de novo. Precisa muito de algum para trabalhar no escritrio dele.
	Quanto ele pretende pagar a voc?
	Bom...
Os olhos de Gareth pareciam dois canivetes.
	No paga tanto quanto ns.  Olhou para Stacy sem piscar.  Ou estou errado?  quis saber.
O corpo todo dela parecia latejar.
	No.
	Foi o que pensei. Ento, qual  a desculpa?  Ele tornou a balanar a carta.
Stacy achou melhor dizer a verdade.
	Achei que seria melhor se eu partisse, j que as coisas esto meio tensas entre ns.
"Tensa" foi a palavra mais simples que conseguira encontrar. Perigosas, explosivas ou mortais seriam mais adequadas.
	No  ele disse, e rasgou o papel em pedaos, jogando-os, depois, no lixo.
Ela estava com tanta raiva que sua voz falhava.
	No pode fazer... isso.
	Pois j fiz.
	Vou imprimir outra.
	Vamos desperdiar papel.  Ele a olhou por um longo e confuso minuto.
	No importa!  Ela se virou e saiu do escritrio.
Durante todo o percurso at o elevador, Stacy achou que Gareth a estaria esperando na sada, porm ele no estava. Ela espiou cuidadosamente e se apressou em direo ao carro.
Ao entrar e travar as portas, ligou o motor e saiu rapidamente, deixando as marcas de pneu no concreto. Na rua, reduziu a velocidade, ao se juntar ao trfego.
Pensou no que acabara de acontecer e respirou aliviada. Estava decidida quanto  demisso, no importava o que ele dissera ou tencionava fazer. Conhecia seus direitos, e Gareth Clelland no a intimidaria. Talvez nem trabalh as semanas restantes.
Aps pegar Billy, Stacy parou na mercearia e foi logo para casa, ansiosa para estar na segurana e na quietude de seu apartamento. Subiu pelo elevador e, suspirando de alvio, entrou e trancou a porta.
Estava, enfim, segura.
Gareth andava de um lado para o outro no corredor, sem saber se ia at o apartamento de Stacy ou se voltava para casa e deixava o problema para ser resolvido na manh de segunda-feira, no escritrio.
Ela, provavelmente, no apareceria para v-lo.
Ele parou a alguns metros da porta do apartamento dela e olhou pela janela para um ponto perdido no meio da rua. O trnsito de sexta-feira  noite estava lento, como sempre.
	Droga!  ele exclamou e caminhou em direo  porta.
Gareth tocou a campainha, sem pensar no motivo pelo qual no pudera esperar at segunda-feira para v-la.
No houve resposta.
Ele praguejou e deu uma pancada na porta, ento ouviu o gemido do beb. Ah, ela estava em casa! S que no abriu a porta.
A raiva sobrepujou o bom senso,  ele esmurrou a porta com trs batidas fortes.
	Stacy, sei que est a dentro. Portanto, abra essa porta antes que eu a arrombe  ele berrou.
A porta do elevador se abriu, e um casal permaneceu parado, olhando.
	Tm um p-de-cabra?  Gareth perguntou, com um sorriso irnico.
O homem meneou a cabea negativamente, enquanto a mulher fitou-o, com um olhar assustado. Gareth bateu  porta mais uma vez.
Dessa vez, a porta se abriu, e dois olhos castanhos furiosos encararam-no. O corao dele disparou. Stacy estava de short, camiseta e sem sapatos. Segurava o beb contra o peito e estava extremamente feminina.
O casal que sara do elevador continuava parado, observando.
	Quer que chamemos a polcia?  o homem indagou, olhando, desconfiado, para Gareth.
	No, est tudo bem  Stacy respondeu.  De verdade  acrescentou, percebendo que eles no pareciam muito convencidos.  Ele  meu...
	Prncipe encantado  Gareth concluiu, fechando a porta em seguida. Ele e Stacy teriam uma longa conversa.
	No achei graa alguma  ela o repreendeu, retirando-se para a cozinha, a fim de ver o jantar que deixara no fogo.
O short dela era do tipo usado para fazer ginstica, com fenda dos lados. Gareth reparou nas pernas bonitas e nos quadris arredondados.
	Que cheiro bom!  De repente, ele se lembrou de que estava faminto. Por comida. Por ela. Por qualquer coisa que Stacy quisesse lhe dar.
	 s uma carne de panela  disse, desligando o fogo. 
Gareth esperou, sabendo que ela era educada demais para ignor-lo.
	Quer um pouco?  Stacy perguntou, sem o menor toque de gentileza.
	Sim.
Ela franziu a testa, mas no protestou. Abriu o armrio e pegou dois pratos com a mo que estava livre.
	Deixe-me ajud-la. Diga o que quer que eu faa.
Seguindo as indicaes de Stacy, ele arrumou a mesa, despejou leite em dois copos e serviu os pratos com carne, batatas, cebolas e cenouras.
	O po est no forno.  Ela colocou o beb numa cadeirinha de balano.
Aps retirar dois pezinhos do forno, Gareth colocou-os nos pratos e esperou que ela se sentasse antes de se acomodar do outro lado da mesa. Quando ele esticou as pernas, seus joelhos se tocaram.
	No ia abrir a porta?  ele quis saber, passando manteiga em seu po.
	No estava com vontade de discutir.
	Sei...  Ele comeu um pedao de cenoura e fechou os olhos em xtase. Estava perfeita, muito saborosa. A carne se desmanchava na boca. Ele esmagou a batata com o garfo e colocou mais molho.
Stacy comia devagar, com gestos contidos.
Os cabelos dela estavam presos em um rabo-de-cavalo, deixando o pescoo descoberto. Gareth teve de se conter para no beij-la ali mesmo. Voltando a ateno para a mesa, repetiu o prato por duas vezes, deliciado com o sabor da comida.
	Pelo jeito voc gosta de carne de panela, no ? Ele colocou o prato de lado.
	Estava com fome  respondeu.
Agora que se encontrava com ela e o beb, sentia-se mais relaxado. Feliz at.
Ele manteve os olhos na boca de Stacy, que mastigava delicadamente.
	As mulheres de sua famlia so gordas ou magras?Gareth indagou.
Ela o olhou por cima do copo enquanto tomava o leite. Aps terminar, limpou a boca com o guardanapo, antes de responder:
	No sei, minha me tinha trinta anos quando morreu. E no conheci nenhuma de minhas avs.
	Que pena  ele murmurou. .
Stacy suspeitou daquela simpatia inesperada, achando que ele dissera aquilo s para persuadi-la a voltar ao trabalho.
	Veio aqui para discutir gentica familiar?
	No.  Ele suspirou e cruzou os braos sobre a mesa.
	Vim para me desculpar por meu comportamento no escritrio. Sua carta de demisso me pegou de surpresa. De qualquer modo, eu no tinha o direito de rasg-la.
	No, voc no tinha.
	Sentirei sua falta.  Gareth olhou para o beb.  J sinto falta do garoto.
	O nome dele  Billy.
	Sim. William Bainbridge Gardenas.
Gareth notou que o rubor tomava conta do rosto de Stacy ao descobrir que ele sabia que ela havia dado um de seus nomes ao beb.
Achei que era o mnimo que poderia fazer para lhe agradecer.
Ele sorriu. Ela estava na defensiva, o que dava a ele uma pequena vantagem.
	Muito bem pensado. Fiquei honrado quando vi a certido de nascimento. Obrigado.
	De nada.
	Minha me tambm ficou contente. Ela lhe falou?
	No.
	Stacy, voc ficar no escritrio at encontrarmos outra pessoa para ocupar seu cargo e a treinarmos?
	Pat poder dar conta do servio facilmente. Ela  muito capaz.
A pacincia dele se esgotou, e a calma desapareceu.
	Que droga, no quero Pat! Quero voc!  A voz estrondosa ecoou na sala.  Quero voc  repetiu.
Sem que percebessem, ambos estavam em p. Gareth notou que ela iria protestar, ento, antes que Stacy pudesse dizer alguma coisa, tomou-a em seus braos e cobriu os lbios dela com os seus.
Ele provou o gosto de sua boca, passando a lngua pelos lbios macios, exigindo que ela correspondesse ao beijo.
	Continue trabalhando conosco  ele murmurou.
No mesmo instante, sentiu o corao dela bater mais forte contra seu peito. Paixo ou raiva? Gareth no sabia.
Stacy procurou se desvencilhar dos braos que a envolviam, porm no teve xito.
	Voc tem um cheiro to bom...  ele sussurrou, com o corpo repleto de desejos fortes demais para serem descritos. Nunca havia sentido nada parecido em sua vida.  Precisamos conversar  acrescentou.
Pegando-a pela mo, Gareth obrigou-a a se sentar novamente. Por um momento, ficou parado, com as mos sobre seus ombros. A fragilidade dela era enganosa. Possua mais fora interior que a maioria dos homens que conhecia.
Ele comeou a caminhar pela cozinha.
	Estive pensando a nosso respeito nesses ltimos dias... Stacy ergueu o rosto e olhou-o, desconfiada.
	No ano que passou, compartilhamos mais do que muitos casais em uma vida toda.  Ele a encarou. 	Morte, 
nascimento, desejo.
Ela concordou com um movimento de cabea. A morte de seu marido. O nascimento de seu filho. O desejo que crescia entre Gareth e ela. Stacy cruzou os braos sobre a mesa e desviou os olhos.
Ele passou a ponta dos dedos pelo maxilar dela, ento acariciou a pele sensvel de seu pescoo.
	Para a maioria das pessoas tais acontecimentos serviriam de base para uma slida amizade. Para ns, parece que s trouxe problemas. Acho que precisamos resolv-los  Gareth afirmou.
Stacy no conseguia imaginar como.
	Se eu pedisse, aceitaria ser minha amante?
Cada clula do corpo dela reagiu  pergunta de Gareth. "Meu filho  um homem honrado", a sra. Clelland dissera certa vez. "Aceite o que ele lhe oferecer."
	Voc aceita?
	No sei.
	Quase fizemos amor por trs vezes. Isso deve significar alguma coisa, no acha?
Ela deu de ombros, como se seu corao no estivesse prestes a pular para fora do corpo.
	Se eu lhe pedisse para morar comigo, voc aceitaria?
Ela se ressentiu imediatamente da natureza temporria das propostas que Gareth lhe fazia.
	No.
Ento... ser que aceitaria se casar comigo?
Vrios segundos se passaram antes que ela compreendesse o real significado de suas ltimas palavras.
	Tambm achei a idia esquisita em princpio  ele falou.  Mas acho que poderia dar certo.
	Acha mesmo?  Gareth pareceu no perceber que dessa vez era Stacy quem soava sarcstica.  Por qu?
Ele suspirou e apoiou ambas as mos sobre a mesa.
	Penso em voc o tempo todo. Corro para o escritrio s para v-la. Quando est perto de mim, tudo o que desejo  abra-la e beij-la, e fico nervoso se no consigo. Antes desta paixo descontrolada, trabalhvamos muito bem juntos. Acho que casar resolveria o problema.
	No sou como as mulheres a que est acostumado. Dou muito valor ao compromisso e  fidelidade.
	Acredite em mim, isso no ser problema.  O sorriso charmoso que ele lhe deu dizia mais do que as palavras.
Stacy encarava-o, tentando adivinhar o verdadeiro motivo daquele pedido inesperado.
	E a nica mulher com quem desejei fazer amor nestes ltimos trs anos.
Gareth s podia estar usando de retrica.
	Voc teve vrias namoradas.
	Namoradas, sim. Nada mais. Era como se eu estivesse morto da cintura para baixo, at voc aparecer.
O impacto de suas palavras finalmente a atingiram. Ele no fazia amor desde que a noiva morrera? No, provavelmente no entendera bem. Ele era um homem muito sensual, viril e poderoso... Um homem bonito e sadio que poderia ter a mulher que desejasse.
	Voc quer dizer... nenhuma mulher mesmo?
	Nenhuma.
Ele pegou a mo de Stacy e beijou a ponta de cada um de seus dedos.
	Em princpio, no sabia ao certo se era s com voc. Naquele fim de semana nas montanhas, tudo o que eu queria era abra-la. Vendo-a deitada em minha cama... eu sentia que meu lugar era a seu lado.
	Sentiu desejo por mim depois de me ajudar no parto?
	Parece loucura, mas  verdade. Eu quis estar com voc  ele confessou.
	Est querendo dizer que me ama?  Ela mal podia acreditar que estavam tendo aquela conversa.
	Acho-a muito excitante e sedutora. Quero fazer amor com voc. Fiquei pensando nos netos que minha me tanto quer. Se isso  amor, ento...  Ele no terminou a frase.
	Voc j amou. Sabe reconhecer o sentimento.
O rosto msculo tornou-se carrancudo.
	Nunca mais amarei daquele jeito.
Ela sentiu como se houvesse sido esbofeteada.
	No me entenda mal  Gareth procurou emendar a situao.  O que sinto por voc  difcil de explicar. Nunca me senti assim antes. E paixo, mas tambm admirao. Gosto de voc, e serei um bom marido e um bom pai para seu filho. Sabe que sou um homem rico, e, se algum dia acontecer alguma coisa comigo, vocs tero dinheiro suficiente para viver onde e como desejarem. Billy pode estudar em Harvard...
	No.  Stacy no o deixou prosseguir.  Chega!
	Qual  o problema?
	Voc!  Ela ficou em p e se afastou dele.  Est sendo bem claro sobre o que pretende e o que no pretende me dar.  Ela balanou a cabea.  Para mim, no  o suficiente!
No agora que conhecia a profundidade da ternura que existia nele. No agora que podia ver o potencial que havia nele, o amor que ele mantinha soterrado em seu interior. Stacy se arriscaria a passar a vida toda sem poder compartilhar seu amor com Gareth.
No poderia nunca agir espontaneamente, sempre teria de se conter para no invadir o espao que ele lhe reservara. Ela o amava demais para isso. No podia aceitar limites para seu amor.
	Para mim, no basta  ela repetiu, disposta a enfrentar a fria que via nos olhos dele.
	Como assim?  ele indagou.  Ofereci meu nome, meu dinheiro, um futuro seguro para voc e para seu filho. O que mais deseja?
	Sabe muito bem  respondeu.
Gareth deu um passo em sua direo, ento mudou de idia e deixou a cozinha. Ela ouviu os passos no corredor de entrada, depois o barulho da porta se abrindo. Quando ele a fechou, Stacy deu um suspiro e voltou-se para a ca-deirinha onde estava Billy.
	Pobre beb!  exclamou, estendendo as mos em direo ao filho que parecia dormir.  Tem sido um garoto to bonzinho!
Ela parou com os braos esticados. Alguma coisa estava errada... muito errada!
 Billy  gritou.  Oh, meu Deus, no...
CAPTULO X

Gareth ouviu o grito de Stacy antes mesmo de ter dado o primeiro passo em direo ao elevador. Virou-se rapidamente, rezando para que o trinco da porta no fosse do tipo automtico. No era. Ento correu  cozinha.
	Billy!  Stacy gritava.
O menino permanecia imvel. Sua tez estava completamente branca, exceto os lbios, as plpebras e as mozinhas que j comeavam a arroxear.
	Ele no est respirando  disse a Gareth, que j se aproximara.
	Traga-o aqui.  Ele empurrou os pratos de cima da mesa, abrindo espao para o beb.
Ela deitou o filho e abriu a roupinha. Gareth colocou dois dedos no pescoo de Billy, detectando enfim alguma pulsao.
	Graas a Deus, ele ainda tem pulso!
Em seguida, tentou sentir a respirao de Billy. Nada.
	Sabe fazer respirao boca a boca?  Gareth perguntou.
	No.
	Eu sei. Precisamos lev-lo ao hospital urgentemente. Voc dirige.
E, inclinando-se, ele abriu a pequenina boca e colocou os lbios sobre os de Billy, comeando a soprar. A pele macia estava fria como mrmore.
Ele soprava para dentro dos pulmes e sentia a caixa torcica subindo, ento forava o beb a expelir o ar.
Aps dez tentativas, as plpebras comearam a recuperar a cor normal. Entretanto, Billy ainda no respirava por si s.
 Pegue a chave do carro. Vamos!
Correram para o elevador, com Gareth prosseguindo com a respirao boca a boca, enquanto Stacy observava, calada, to plida quanto o filho. O corao de Gareth condoeu-se de pena.
Ela dirigiu a picape impassvel, e Gareth continuava sua misso. Inspirar... expirar...
Oh, Deus... por favor, ele pedia em pensamento.
As lgrimas quentes descendo por seu rosto o tomaram de surpresa. Gareth enxugou-as com o dorso da mo, no querendo que Stacy percebesse que chorava. Alm do mais, no havia quase tempo. Billy ficava cada vez mais frio. Gareth no sabia se rezava ou xingava.
O mundo resumia-se quele pequeno corpo que jazia em suas mos, completamente largado, como se no tivesse ossos.
Ele procurou sufocar os prprios receios. A coragem que Stacy demonstrava dirigindo em meio ao trfego silenciosamente emocionava-o. Ele levantou o brao, enxugou o suor do rosto com a manga da camisa e tornou a rezar por Stacy e seu beb.
Deus, no faa isso, por favor... Stacy no merece...
Inspirou profundamente e soprou. O ar saa espontaneamente, porm nenhum ar entrava. Gareth inclinou a cabea e implorou para que ele reagisse.
Farei qualquer coisa, mas no leve esta criana... At desisto de Stacy...
Talvez j fosse mesmo tarde demais para eles dois. Agira como um covarde, negando seus sentimentos. No tivera coragem de enfrentar a vida aps a morte de Ginny. Stacy, ao contrrio, perdera os pais e o marido e, mesmo assim, lutara bravamente.
Um homem tinha de ser mesmo um idiota para perder uma mulher como aquela.
Seu corao abriu-se com a angstia do amor que nunca conseguira admitir. Como pudera ser to cego!
Chegamos!  ela exclamou, manobrando o veculo com destreza na entrada de emergncia do hospital.
Antes mesmo que o motor estivesse desligado, Gareth j sara do carro e passara correndo pelas portas de vidro. Stacy seguiu atrs.
Um enfermeiro aproximou-se rapidamente com uma maa.
	O que houve?  o homem perguntou, pegando Billy e levando-o para uma sala.
	Ele no est respirando  explicou Gareth.  J tentei respirao boca a boca.
	Certo.  O enfermeiro falou por um intercomunicador, e, em menos de um minuto, uma equipe mdica se reuniu na sala. O mdico gritava:
	Balo de oxignio. Monitor cardaco.
Stacy encostou-se na parede de azulejos brancos, incapaz de sustentar o peso do prprio corpo. Queria gritar pela injustia daquela situao. O destino parecia querer sempre lhe pregar peas e ferir sua alma e seu corao.
Gareth passou o brao pelo ombro dela, porm Stacy permaneceu rgida e imvel, a raiva dominando-a por inteiro. Se abrisse a boca, comearia a gritar.
	Billy ficar bem  ele a consolou.
Stacy o ouviu, no entanto, no conseguia acreditar. A mo forte de Gareth cobriu a dela. Stacy o encarou e viu a dor estampada nos olhos acinzentados.
	Ele tem de ficar bom.  tudo o que tenho.
O enfermeiro se aproximou.
	O corao recuperou o ritmo  informou, com um sorriso encorajador.
Stacy procurou se lembrar dos milagres concebidos pela medicina moderna. At que os mdicos lhe dissessem o contrrio, precisava crer que o filho sobreviveria.
	Eleja consegue respirar sozinho?  Gareth perguntou.
	Ainda no. Vamos transferi-lo para a Unidade de Terapia Intensiva, no setor de Pediatria, quarto andar. H uma sala de espera ao lado da entrada da UTI. Podem aguardar l.
	Quero ir com meu filho  Stacy disse, incapaz de se separar de Billy.
	Fique calma  o enfermeiro falou, passando com a maa.  Assim que o beb estiver estvel, poder ficar ao lado dele.
Ela queria gritar que precisava do filho agora. Que precisava segurar o corpinho plido no colo, amament-lo e traz-lo  vida novamente. Ao ver Billy passar pela porta aberta onde se lia: "Entrada Proibida", ela tremia, descontrolada.
Gareth a abraou pela cintura e a encostou contra seu peito.
	Deixe que eles faam seu trabalho.
A fora e o calor de Gareth ajudaram-na a se acalmar.
	Tenho medo de nunca mais voltar a ver meu filho.
	Eu sei.  Ele a encarava com tanta ternura que Stacy teve de desviar os olhos.
Uma senhora de cabelos grisalhos os interrompeu:
	H alguns papis que necessitam de sua assinatura  informou a Stacy.
	Aonde devemos.ir?  perguntou Gareth.
	Por aqui.  A mulher indicou um corredor.  A internao fica  direita.
Gareth puxou Stacy pela mo. Seus dedos estavam gelados. Ele queria ser capaz de evitar todo aquele sofrimento.
	Ele ficar bem  Gareth disse.
	Sim.  Ela tentou sorrir, e sua coragem incendiou o corao de Gareth.
No guich de internao, foram recebidos por uma mocinha que parecia entediada e imune ao sofrimento dos que por ali passavam.
	Parente mais prximo?  a garota indagou.
Gareth apertou de leve a mo de Stacy, indicando-lhe que respondesse.
	Sou a parente mais prxima.
	No serve. Quero algum que no more no mesmo endereo. A funcionria tamborilou, impaciente, as unhas postias sobre o teclado do computador.  Para o caso de sair sem pagar a conta.
	No tenho ningum.
A garota lhe lanou um olhar aborrecido.
	Deixe comigo  Gareth interveio, quase perdendo o controle. Ele forneceu o nome, o endereo, o nmero do telefone de sua casa e do escritrio.
Terminada a burocracia, Stacy assinou os papis, e seguiram de volta  sala de espera.
L, enquanto ela procurava um lugar para se sentar, Gareth foi buscar duas xcaras de caf fresco e quente.
Uma hora mais tarde, Stacy caminhava, inquieta, pela sala.
Aps alguns instantes, voltou a se sentar no sof e bebeu o resto do caf frio.
	Vou tentar conseguir notcias  Gareth disse, saindo da sala.
Pouco depois, retornou, acompanhado de uma mdica morena, com olhos grandes e afetuosos no rosto cansado.
	A situao do beb  estvel  ela informou, e, ao prosseguir, o sorriso sereno desapareceu:  Entretanto, no respira sem a ajuda de aparelhos, por isso...
Stacy via os lbios da mdica se moverem, porm no conseguia discernir bem o significado das palavras. Falava sobre um novo medicamento... um estimulante forte... podia ser perigoso...
O que poderia ser mais perigoso do que no conseguir respirar?
	Precisamos de sua permisso. Poderia assinar essa autorizao?  concluiu a doutora.
Stacy assinaria o que quisessem, desde que salvassem Billy.  
Gareth a ajudou a se sentar no sof e acomodou-se ao lado dela, abraando-a e tentando pux-la para perto.
Ela resistiu. O corpo dele estava quente, e Stacy j estava cansada de bancar a forte e a corajosa. Tinha vontade de se jogar nos braos de Gareth e chorar.
	Stacy  ele chamou, num tom de voz consternado.
	No me ignore  implorou, apertando-a com mais fora.
	Sei que mereo isso, mas, por favor, deixe-me compartilhar a dor com voc.
Os olhos dele demonstravam tanta tristeza que Stacy levantou a mo e acariciou-lhe o rosto.
	Est tudo bem  disse, abaixando a mo, emocionalmente exausta.
O tempo passava. Uma hora. Mais uma. O medo crescia no corao de Stacy.
	Por que ningum d notcias?  ela perguntou.
	 assim mesmo  Gareth respondeu, lembrando-se das pessoas que tentavam confort-lo no hospital quando Ginny falecera. No havia palavras que pudessem consolar a perda de algum querido.  Ele  um menino forte  foi tudo o que conseguiu dizer.
	Mas  to pequeno!
	Ele vai sobreviver,  forte e corajoso como a me, que jamais cedeu frente s dificuldades. Billy no desistir.
	Eu amo tanto meu filho.
As palavras de Stacy atingiram Gareth com violncia. Fora esse mesmo amor que ela lhe oferecera, pleno, completo. S que desejara o mesmo dele, e ele no fora capaz de se entregar, para escapar da dor. Mas o amor no podia ser dividido em partes. A pessoa tinha de aceitar tudo, as alegrias e as tristezas.
Stacy compreendera que Gareth ainda no estava pronto, por isso se afastara.
	Eu sei, meu amor.  Ele prosseguia com as carcias, mesmo quando sentia que Stacy queria se afastar.  Tenho f que ele ficar bom.
Ela inclinou a cabea, tentando adivinhar os pensamentos dele. Estava confusa e cansada demais para compreender a mensagem que os olhos de Gareth lhe enviavam.
	No importa o que acontecer, estarei a seu lado e de Billy.
	Voc no gosta de crianas.
	Eu amo seu filho.  Gareth no pde conter as palavras.  No queria, tinha medo de sofrer. Mas aqui estou eu, sofrendo por voc, por Billy, por mim mesmo e pelos anos que no passaramos juntos se eu continuasse cego.
: No tenho condies de pensar nisso agora  ela falou, passando a mo no rosto dele, de modo afetuoso.
Eu sei.  Ele lhe beijou a mo e rezou para que suas preces fossem atendidas. Se pudesse, moveria montanhas
para salvar o menino. Porm, tudo o que podia fazer era esperar junto com ela e oferecer-lhe todo seu amor.
Quando o dia j amanhecia, a pediatra retornou.
	O remdio chegou. O chefe da pediatria e o conselho do hospital j deram ordem para experiment-lo. Estamos prontos. Se quiserem, podem entrar na sala, mas fiquem num lugar onde no atrapalhem.
	timo.  Gareth ajudou Stacy a se levantar e segurou-a pela cintura.
Juntos, seguiram pelo corredor da UTI. Billy estava deitado numa incubadora aberta, com o respirador ao lado, subindo e descendo num ritmo cadenciado. O monitor cardaco indicava que o corao se mantinha estvel.
A mdica se aproximou e aplicou uma injeo no bra-cinho de Billy, administrando a droga cuidadosamente. Ao terminar, retirou o respirador. Todos aguardaram em silncio.
Cinco segundos se passaram. Dez. Quinze...
Um estremecimento percorreu o corpo do beb. Os bracinhos deram um tranco, os dedos se moveram. Com um movimento brusco, ele encolheu as pernas, abriu a boca e, exalando o ar, comeou a chorar. Ele respirava novamente!
Stacy, Gareth e a equipe de mdicos riram. Quanto mais o beb chorava, mais eles riam de felicidade. Billy se calou e olhou em volta.
Gareth guiou Stacy at perto da incubadora, e ela sorriu para o filho, que retribuiu o sorriso e bocejou. Algumas horas depois, aps ter mamado o leite de sua me com apetite evidente, Billy adormeceu.
Obrigado, meu Deus..., Gareth agradeceu.
J passava das nove horas. O hospital se alvoroava com a troca de turnos e toda a rotina, suspensa durante a noite. Billy estava bem e parecia no ter ficado com nenhuma seqela.
Stacy, sentada ao lado da incubadora, tocava constantemente o corpinho do filho.
De sbito, ela levantou o rosto e fitou Gareth. A fadiga formara crculos escuros sob seus olhos.
S agora ele compreendia como a magoara com a proposta de casamento. Ele oferecera lgica e estabilidade, quando tudo o que ela desejava era amor. Gareth tambm a amava, porm preferira chamar o sentimento de paixo.
Como pudera ser to estpido! Poderia t-la perdido, assim como quase perderam Billy.
No, aqueles dois eram seus. Fora ele quem fizera o parto, portanto, era o pai substituto. Precisava dizer isso a ela.
A pediatra entrou no quarto, examinou Billy e checou seus reflexos.
	Ele est timo. J pode ir para casa.
Stacy arregalou os olhos.
	Ainda ter de ficar ligado ao monitor por algum tempo. Caso tente nos pregar outra pea, o alarme soar.  Ela sorriu, tranqilzadora.
	Eu lhe disse que tudo ficaria bem  Gareth falou a Stacy.
Aps passarem pelo processo de alta, seguiram para a picape, onde Stacy se sentou no banco detrs, ao lado do filho.
Chegando ao apartamento, ela carregou o beb nos braos, enquanto Gareth trazia o equipamento de monitorao. O casal vizinho abriu a porta justamente quando eles saam do elevador. Fecharam a porta rapidamente, e Gareth comeou a rir.
	Com certeza, eles pensam que me envolvi com um louco  afirmou Stacy, olhando para ele.  Teve sorte de no chamarem a polcia. E eu tambm. No sei o que teria feito sem voc. Billy no...
	Falaremos disso mais tarde, est bem?  ele a interrompeu.
Ento, Gareth esperou que ela abrisse a porta e a seguiu. Dezesseis horas haviam se passado desde que sara correndo com Billy nos braos. Porm, parecia-lhe uma eternidade.
Gareth instalou o equipamento de monitorao no quarto do beb e checou para ver se funcionava direito. O alarme soou, e Billy acordou chorando. Sorrindo, Stacy pegou-o no colo, sentou-se na cadeira de balano e ofereceu o peito ao filho.
Gareth foi  cozinha preparar caf. Mais tarde, quando ela se juntou a ele, Gareth a aconselhou a se deitar um pouco, porm Stacy meneou a cabea negativamente.
	No conseguiria dormir  explicou.
	J no dormiu ontem, e duvido que possa conciliar o sono hoje  noite. Portanto, v descansar enquanto tomo conta de Billy.
Stacy tentou protestar, mas ele insistiu at que ela fosse tomar um banho e vestir o pijama. Gareth, por sua vez, acomodou-se na cadeira de balano e folheou uma revista.
Minutos depois, colocando a revista de lado, ele se ps a pensar nas descobertas feitas durante a noite. Ficou em p e olhou para o beb que dormia. Dessa vez, quando sentiu o corao apertar-se, ele sorriu. Ento, passando de leve os dedos sobre a cabecinha do menino, voltou  cadeira e reassumiu a viglia.
Stacy despertou assustada. Sentou-se na cama e olhou freneticamente a sua volta. O apartamento estava em silncio. O medo invadiu-a, e ela se levantou apressada.
	Billy  saiu gritando pelo corredor, em direo ao quarto do filho.
Parou  porta, com o corao aos saltos.
Billy estava l, a salvo, dormindo tranqilo no colo de Gareth.
A cadeira de balano estava totalmente reclinada. O monitor, apoiado sobre uma mesinha, encontrava-se ao lado. As mos de Gareth se cruzavam sobre as costas do beb, sustentando a criana com segurana sobre seu peito.
Era a cena mais linda que Stacy j vira.
Gareth abriu os olhos, e, por um longo instante, fitaram-se em silncio. Ento, ele sorriu.
O corao de Stacy foi tomado de tanto amor que ela mal pde se conter. Comeou a rir e atravessou o quarto inebriada, em direo aos dois homens de sua vida.
Olhos nos olhos, Gareth compreendeu que as palavras no eram necessrias. Ele as diria mais tarde, entretanto ela sabia. Ela sabia...
CAPITULO XI

O ms de junho era perfeito para um casamento.
O segundo domingo amanheceu esplendoroso. Stacy olhou atravs da janela da casa da famlia Clelland e sorriu.
A sra. Clelland cuidara do servio de buf, das flores e do padre. O marido dela ficara encarregado dos convidados e do noivo. Maudie, sentada na primeira fileira de cadeiras dispostas no jardim, tentava fazer com que Billy no mordesse as fitas que enfeitavam o carrinho. Mais tarde, iriam lhe dar um pedacinho do bolo de casamento.
 Est pronta?  Stacy voltou-se para Peter e sorriu, aceitando o brao que ele lhe oferecia. Juntos, caminharam at o jardim.
Um fotgrafo contratado registrava tudo, enquanto o marido de Shirley filmava o evento.
Stacy sentia-se linda usando tailleur branco. Linda e incrivelmente feliz.
Ningum tinha mais sorte que ela. Estava prestes a se casar com um homem atraente, possua um filho perfeito e passaria a lua-de-mel num cruzeiro pelo Mediterrneo, visitando todos os lugares que sempre sonhara em conhecer: Itlia, Grcia, Turquia, Egito, Espanha e Portugal. Mal podia acreditar.
Billy e Maudie tambm viajariam com eles. Seria maravilhoso!
Shirley, usando um vestido de seda marfim, deu uma piscadela e sorriu ao ver Stacy se aproximar, iniciando a caminhada ao longo do tapete estendido sobre o gramado especialmente para a ocasio.
Stacy e Peter seguiram atrs da dama de honra e, finalmente, chegaram ao altar, onde o padre, o sr. e a sra. Clel-land, os padrinhos e Gareth j os esperavam.
Quando Gareth virou-se totalmente, Stacy viu que ele estava com Billy nos braos. O amor que via nos olhos acin-zentados trouxe lgrimas aos seus, e ela teve de fazer fora para no chorar.
Sem mais lgrimas, ordenou a si mesma em pensamento.
Ouviu o futuro marido fazer os votos e repetiu os seus. Aps trocarem as alianas, Gareth segurou sua mo com fora, enquanto mantinha Billy firmemente seguro no outro brao.
Finalmente, estavam casados. Ele se inclinou para beijar a noiva, e todos bateram palmas.
Os noivos beijaram os pais de Gareth e os padrinhos. Aps ter dado um beijo em Gareth, Shirley aproximou-se da amiga e, tapando a boca com a mo, disse:
	Agora sei por que voc se apaixonou pelo chefe. Que boca!  As duas comearam a rir.
A tarde passou rapidamente, e logo chegou a hora de os noivos se retirarem para a sute nupcial, onde passariam a noite antes de seguirem para o cruzeiro martimo.
Gareth seguiu Stacy at o quarto de Billy, onde trocaram de roupa, e Stacy amamentou o filho. J retirara uma boa dose de leite para que Maudie pudesse aliment-lo durante a noite.
	Voc est linda!  ele a elogiou, vendo-a alimentar o filho mais uma vez.
	Voc tambm.
Eles trocaram um sorriso emocionado.
	Mal posso esperar por nosso prximo filho. A dra. Kate j prometeu que me deixar fazer o parto  Gareth disse, sem tirar os olhos da esposa e do filho.  Acho que de hoje a nove meses...
O rubor subiu s faces de Stacy. Naquela noite... Finalmente, a noite pela qual tanto ansiara havia chegado.
	Pode ser  ela respondeu.
	Quero uma menina. Uma irmzinha bem mandona para Billy. Algum que fique do meu lado nas brigas.
Ele parecia to feliz que Stacy no pde conter um suspiro de satisfao.
	Sorriam  ele pediu, comeando a tirar vrias fotos dela e do filho.
Fotos de amor. E haveria muitas mais. Billy em seu primeiro aniversrio. Ele pescando com o pai e o av. Colocando etiquetas nas peas do leilo anual da av. Brincando com a irm ou com o irmo, ou com ambos.
	Est pronta?  Gareth perguntou, ao v-la colocar Billy no bero.
A voz dele soara baixa, profunda e tremendamente sexy.
	Sim.
Ento, ela deu o brao para o marido. Seus olhos se encontraram, e Stacy prendeu a respirao ao ver tanto amor, ternura e desejo.
	Um amor para sempre  ela murmurou.  Eu sempre desejei um amor que durasse para sempre.
	Eu estarei sempre a seu lado  ele prometeu.
Gareth inclinou o corpo e a apertou com fora, fazendo-a rir.
	Adoro quando ri.  Ele ficou srio.  Nunca pensei que encontraria outro amor em minha vida... e, ento, voc e Billy surgiram, invadindo meu refgio nas montanhas, no permitindo que eu me entregasse  autocomiserao, deixando-me louco de desejo... Afundou o rosto nos cabelos macios.
	No havia como no me apaixonar por voc.  Ela suspirou, pestanejando.  Quando ajudou no nascimento de Billy, percebi que era um timo partido. Um homem com tanta experincia! Agora, quando tivermos outro filho...
Os lbios de Gareth se apossaram da boca entreaberta da esposa.
Nosso amor crescer ainda mais..., ele concluiu em pensamento.
Certo dia, Stacy aparecera em sua casa para lhe entregar uma pasta. Ele acabara tendo de fazer um parto inesperado, que, afinal de contas, trouxera-lhe alegria, felicidade e paz. E o maior amor que j conhecera. Parecia uma troca justa.

FIM

